Antonella Bellini
Dois anos depois
O som dos saltos de Scarllet ecoou pelo corredor.
— Ele está vindo! — gritou, quase tropeçando nas próprias pernas.
Levantei os olhos do livro. A empolgação dela era quase infantil, vibrando nos cabelos loiros e nos olhos azul-oceano. O celular tremia em suas mãos.
— Quem? — perguntei, mesmo já imaginando a resposta.
— O Geovani! — anunciou, entrando na sala como se fosse dar uma notícia capaz de mudar o mundo.
Era sempre assim. Todo semestre ele “voltava”. E nunca voltava.
Deitada no tapete, tentei voltar à leitura de Como Convencer Alguém em Noventa Segundos. Minha mãe apareceu, secando as mãos no pano de prato.
— Vai sim, minha filha — disse para Scarllet, mas me lançou um olhar firme, quase exigindo que eu compartilhasse da euforia.
— Espero que dessa vez dê certo — respondi, sem tirar os olhos das páginas.
Scarllet correu para o quarto, provavelmente para organizar cada detalhe da recepção. O silêncio que ficou foi quebrado pela voz da minha mãe:
— Você não acredita mais que ele venha, não é?
Três anos de noivado. Nem no enterro do próprio pai ele apareceu.
— É difícil — respondi. Promessas sempre soam bonitas até que o tempo as prove vazias.
Voltei ao livro, mas os pensamentos escaparam. Desde a morte do Don, a cidade afundava no caos: territórios disputados, extorsões, violência aberta. Sem liderança, a honra virou pó e o medo ocupou cada rua. Pequenas facções surgiam nas sombras, aguardando o momento de reivindicar poder.
Talvez Geovani fosse esse momento. Se tivesse o cérebro e a frieza do pai — ainda uma incógnita — poderia reverter o jogo.
De volta à casa, a tensão era insuportável. Scarllet corria de um lado para o outro, à espera da futura sogra. Para manter minha sanidade, saí.
Caminhei até encontrar um café escondido entre prédios antigos. O aroma de grãos torrados me envolveu assim que entrei. Pedi um expresso, sentei-me sozinha e abri o livro de novo.
Por um instante, esqueci Geovani, esqueci a máfia. Esqueci até Scarllet.
Anos antes
A escuridão era densa e sufocante, como se o tempo tivesse esquecido aquele lugar. Pelas frestas minúsculas das paredes, entrava uma luz tímida, quase pedindo desculpas por invadir o silêncio. O ar úmido carregava décadas de dor. Ali, o esquecimento tinha endereço. E era feito de ferro.
Grades enferrujadas dividiam o espaço em jaulas estreitas. Correntes arrastavam-se pelo chão de concreto frio, relíquias de um passado que se recusava a morrer. Em uma delas, pendurado pelos tornozelos, estava ele. Nu. O corpo marcado por roxos e cortes, o sangue seco descendo pelo peito. Cada oscilação arrancava um gemido; cada toque do ferro na carne reabria a tortura.
Giovani Ferreti. Filho único do temido Don Giussepe. Herdeiro legítimo da Cosa Nostra di Velenza. Um título que pesava mais que qualquer corrente.
As lembranças vinham quebradas: risos distantes, rostos que um dia aqueceram o peito. Mas trinta e seis dias de horror apagavam tudo. A pior parte não eram os espancamentos nem os mergulhos forçados nos tanques de água, mas o abandono — as horas sozinho no escuro, esperando o próximo golpe.
Ele tinha apenas onze anos. Para o pai, isso não era desculpa. Desde cedo deveria ser moldado para ser impiedoso. Mas Giussepe nunca o viu como sucessor. Nem como filho. No início, Giovani acreditou que fosse descaso; depois, entendeu: era rejeição.
Oito sequestros depois, o Don só via fraqueza. Para ser Don, era preciso resistir. Sobreviver. E Giovani sobreviveu. Fugiu pela mata, com o corpo esfolado e o medo grudado na pele. Não pensava — corria. Fugir era viver.
Quando chegou em casa, esperava braços abertos. Encontrou silêncio. E depois, o tapa. Seco. Frio. Violento.
— Covarde! — rugiu o pai. As palavras doeram mais que o ferro. Mais que os mergulhos.
A vergonha, para Giussepe, era imperdoável. A sentença foi rápida: exílio. Sem choro, sem despedida. Mandado para o exterior, longe da terra, longe do nome, expurgado como um erro.
— Ele só volta quando eu estiver morto — disse o Don. E nem isso garantiria perdão.
Mas longe de Velenza, a história seguiu. Em Seattle, Giovani foi acolhido por parentes que lhe deram o que jamais tivera: orientação, liberdade, espaço. Sob a tutela do tio, cresceu em silêncio e fúria. Antes dos vinte, assumiu o império Zelensky e o transformou em um colosso. Tornou-se astuto, frio, letal — mas com o coração intacto.
Não carregava mais o peso de ser “o filho exilado de Giussepe”. Sorria com desprezo quando o chamavam assim. Giovani Ferreti não pertencia ao passado. Ele era o futuro.