Para provar a si mesma que não era fraca e dependente, Ana Beatriz dedicou cinco anos de sua vida a se tornar a melhor chef de confeitaria de São Paulo. Ela trabalhou incansavelmente, dia e noite, sacrificando feriados e fins de semana. Finalmente, seu esforço foi recompensado. A crítica a aclamou, e ela conseguiu o investimento para abrir seu próprio bistrô, um sonho que parecia impossível.
A inauguração estava marcada para a semana seguinte. O letreiro elegante com o nome "Doce Beatriz" já brilhava na fachada. Dentro, as mesas estavam postas, a cozinha impecável, e o cheiro de baunilha e chocolate pairava no ar, uma promessa de sucesso. Ana sentia uma felicidade que mal cabia no peito. Ela finalmente tinha conseguido. Sozinha.
Naquela noite, ela foi buscar seu noivo, Pedro, um renomado e influente crítico gastronômico, em um bar onde ele se encontrava com um amigo. Ao se aproximar da mesa, escondida pela penumbra e pelo barulho do ambiente, ela ouviu uma conversa que congelou seu sangue.
O amigo de Pedro perguntou, com um tom de zombaria: "Pedro, você vai mesmo se casar com a Ana Beatriz? Sério?"
A resposta de Pedro foi um balde de água fria, dita com um desdém que ela nunca tinha ouvido em sua voz.
"Claro que vou. Minha ex-namorada, a Clara, aquela influencer famosa, precisa de um chef para o novo reality show de gastronomia dela. O avô dela, um magnata da mídia, está me pressionando para reatar com ela. Casar com a Ana Beatriz é a desculpa perfeita para acalmar as coisas por um tempo. O velho vai me deixar em paz."
O amigo riu. "Você não tem medo que a Ana Beatriz descubra seu caso com a Clara e crie problemas? A mulher vai fazer um escândalo."
Pedro soltou uma gargalhada fria e arrogante. "De jeito nenhum. Aquela ali me ama demais, é uma idiota ingênua. Ela vai guardar meu segredo, pode apostar. E com aquela personalidade submissa dela, a Clara vai ficar segura. Ana Beatriz nunca faria nada para me prejudicar."
As palavras a atingiram com a força de um soco. Chocada, com o coração partido em mil pedaços, Ana Beatriz deu as costas e saiu do bar, cambaleando. A dor era tão intensa que ela mal conseguia respirar. Ela entrou no carro, desorientada, com as palavras cruéis de Pedro ecoando em sua mente. "Ingênua", "submissa", "idiota". As lágrimas embaçavam sua visão. Em um cruzamento, ela não viu o sinal vermelho. O som de uma buzina alta foi a última coisa que ouviu antes do impacto violento e da escuridão.
Quando acordou, o cheiro forte de hospital invadiu suas narinas. Sua cabeça doía. Ela se lembrava de seus pais, de sua amiga Isabela, de sua paixão pela confeitaria. Lembrava-se de tudo, exceto de um rosto, de um nome: Pedro. Havia um branco completo em sua memória sobre ele.
Enquanto se recuperava, seus pais ligaram. A voz de sua mãe era suave, mas firme. Eles haviam arranjado um casamento para ela em Minas Gerais, com o filho de um velho amigo da família. Um bom rapaz, de boa família. Era hora de voltar para casa, para longe da cidade que quase a matou.
Sem hesitar, Ana Beatriz pegou o celular. A decisão foi instantânea, uma certeza que brotou do fundo de sua alma confusa. Ela abriu o aplicativo da companhia aérea e reservou uma passagem só de ida para Minas Gerais. Para dali a sete dias.
De volta ao seu apartamento, com um curativo na cabeça e dores pelo corpo, ela começou a arrumar suas malas. Caixas vazias se espalhavam pelo chão da sala. Ela se movia de forma metódica, quase robótica, colocando suas roupas e pertences nas caixas.
Era um ato de libertação. A cada peça de roupa dobrada, a cada livro guardado, ela sentia um peso saindo de seus ombros. Ela estava deixando para trás uma vida que, mesmo sem se lembrar completamente, sentia que a havia machucado profundamente. Aquele apartamento, antes um símbolo de sua independência e sucesso, agora parecia uma gaiola. E ela mal podia esperar para voar para longe.
Isabela, sua melhor amiga, entrou no apartamento e parou na porta, chocada com a cena de caixas e desordem.
"Ana, o que você está fazendo? Você vai mesmo embora?"
Ana Beatriz não levantou a cabeça. Continuou dobrando um suéter e colocando-o cuidadosamente em uma mala.
"Sim. A passagem já está comprada. Saio daqui a sete dias."
Isabela se aproximou, incrédula. "Mas... e o seu bistrô? E tudo que você construiu aqui? Você vai mesmo deixar o Pedro?"
Ao ouvir o nome, Ana Beatriz franziu a testa. Uma leve pontada de confusão, mas nenhuma dor.
"Eu não tenho nenhuma lembrança desse Pedro", ela disse, finalmente olhando para a amiga. "O que eu teria que deixar? Eu o amava muito?"
O olhar de Isabela era uma mistura de pena e raiva. Ela foi até uma estante, pegou um diário grosso, de capa de couro, e o entregou a Ana Beatriz.
"Se você o amava? Você o amava perdidamente! Este diário registra os cinco anos que você passou correndo atrás dele como uma cachorrinha!"
Ana Beatriz pegou o diário. Era pesado. Ela o abriu e começou a folhear as páginas. Sua própria caligrafia, frenética e apaixonada, preenchia cada linha. Eram 999 tentativas de declaração de amor. Para cada uma, uma forma diferente de rejeição, anotada com detalhes dolorosos. E um nome que se repetia constantemente, como uma sombra: Clara.
Isabela suspirou, sentando-se na beira de uma caixa. "Essa Clara é o primeiro amor dele. A paixão da vida dele, a pessoa que ele nunca esqueceu. E ele fazia questão que você soubesse disso."
Um aperto estranho e distante surgiu no peito de Ana Beatriz. Não era amor, era o fantasma de uma dor. Ela fechou o diário com um baque seco.
"Um homem que me rejeitou 999 vezes não vale a pena", ela disse com uma frieza que surpreendeu a si mesma. "Desta vez, vou seguir em frente. Vou me casar com um homem mais jovem e promissor, como meus pais querem."
"Que homem mais velho? Que casamento arranjado?"
Uma voz fria e cortante veio de trás delas.
Era Pedro. Ele estava parado na porta, com os olhos fixos em Ana Beatriz, cheios de desprezo e aversão.
"Ana Beatriz, que truque novo de sedução é esse agora? Amnésia e casamento arranjado? Você não se cansa de chamar a atenção?"
Isabela se levantou de um salto. "Pedro, ela sofreu um acidente! Ela realmente não se lembra de você!"
"Não perguntei a você", ele a cortou, sem nem olhar para ela. Seus olhos cruéis estavam cravados em Ana Beatriz. "Eu já concordei em me casar com você. Espero que você não apronte mais nada pelas minhas costas. E, principalmente, não tente intimidar a Clara."
Ele se aproximou, o cheiro caro de seu perfume preenchendo o ar. "Arrume-se. Vamos a um leilão de joias."
Ana Beatriz o encarou, confusa. "Para quê?"
"A Clara está grávida e com o humor instável", Pedro disse, e pela primeira vez, um traço de gentileza surgiu em sua voz, mas não era para ela. "Vou comprar algumas joias para animá-la. Ela está comigo sem status, e ir a esses lugares a exporia a fofocas. Com você do meu lado, como minha noiva oficial, ninguém vai falar nada. Você vai servir de escudo."
A revelação a atingiu. Grávida. Escudo. A raiva subiu pela sua espinha, quente e feroz.
"Canalha!", ela cuspiu a palavra. "Eu não vou!"
Pedro ficou visivelmente surpreso com a recusa. O choque em seu rosto rapidamente se transformou em fúria. Seu olhar ficou ainda mais frio. Ele a agarrou pelo pulso com força, os dedos apertando como garras de aço.
"Você não tem escolha."
Ele a arrastou para fora do apartamento. A ferida do acidente em suas costas, ainda não cicatrizada, protestou com uma dor aguda. Ela sentiu um filete de sangue quente escorrer por sua pele.
"Pedro!"
Uma voz suave e fraca soou da porta. Clara, vestindo um vestido branco esvoaçante, entrou, acariciando a barriga com um sorriso delicado e vitorioso.
Ao vê-la, Pedro soltou Ana Beatriz imediatamente, como se ela fosse lixo. Ele correu até Clara. Desequilibrada, Ana Beatriz foi jogada contra a quina de uma mesa de canto, a madeira dura batendo com força na parte inferior de suas costas. A dor foi excruciante, a deixando sem ar.
Isabela correu para ajudá-la, o rosto pálido de horror.
Mas Pedro não viu. Ou não se importou. Ele abraçou Clara com uma ternura que Ana Beatriz nunca havia recebido.
"Clara, meu amor, por que você veio até aqui? O bebê te incomodou? Você não devia fazer esforço."
Clara olhou por cima do ombro de Pedro, diretamente para Ana Beatriz. Havia um brilho de triunfo em seus olhos. Ela se aninhou nos braços de Pedro, com a voz manhosa.
"Estou com muitos enjoos matinais, e minhas pernas estão inchadas. Senti sua falta e quis te ver. Não aguentava mais ficar sozinha."
Pedro a pegou no colo com cuidado, como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo, e se virou para sair.
Isabela, vendo a mancha de sangue crescendo nas costas do vestido de Ana Beatriz, não se conteve e gritou.
"Pedro! A Ana Beatriz é a sua noiva! Como você pode tratar ela assim por causa de uma amante?!"
Pedro parou na porta. Clara, em seus braços, apertou os dentes, e seus olhos se encheram de lágrimas falsas.
"A culpa é minha, Pedro. É tudo culpa minha por estar com você sem status, e fazer com que você seja criticado por todos..."
Pedro a colocou gentilmente no sofá. Então, ele se virou, caminhou a passos largos até Ana Beatriz, que ainda tentava se levantar com a ajuda de Isabela, e desferiu um tapa forte em seu rosto.
Estalido!
O som ecoou pelo quarto silencioso. A cabeça de Ana Beatriz girou, e seus ouvidos zumbiram.
Pedro sacudiu a mão, como se tivesse tocado em algo sujo. Seu olhar era sombrio e perigoso.
"Eu pensei que você fosse uma pessoa tranquila, mas vejo que é uma criatura cruel e venenosa. Ana Beatriz, estou te avisando pela última vez. Se você ousar instigar a Isabela a dizer mais uma palavra contra a Clara, eu vou te dar um tapa atrás do outro até você aprender a lição!"
Ele a encarou, como se ela fosse um inseto insignificante.
"Depois de amanhã à noite, às oito, no Centro de Artes. Não me faça esperar."
Ele se virou, pegou Clara no colo novamente e saiu, sem sequer lançar um último olhar para a mulher caída no chão.
Isabela, com lágrimas escorrendo pelo rosto, ajudou Ana Beatriz a se levantar, tomando cuidado para não tocar na ferida.
"Ana, me desculpe... foi minha culpa..."
Ana Beatriz se apoiou no sofá, tentando processar a humilhação e a dor. Um sorriso fraco e amargo surgiu em seus lábios.
"Não é sua culpa, Isabela."
Isabela a ajudou a sentar e, com o rosto vermelho de raiva, disse: "Canalha! Desgraçado! Não é à toa que você se lembra de todo mundo, menos dele! Bem feito! Ana, case-se com o rapaz de Minas! Eu te apoio! Esse canalha um dia vai se arrepender!"
Ana Beatriz sorriu amargamente. A ferida em suas costas queimava. Mas, estranhamente, seu coração estava em paz. Ela ainda era, tecnicamente, a noiva dele. Precisava lidar com essa última humilhação para encerrar este capítulo de uma vez por todas.
Faltavam sete dias. Em sete dias, ela estaria livre.