Capítulo 2

Quando o médico me disse que o meu filho tinha morrido, o mundo pareceu parar. O som agudo do monitor cardíaco fetal ainda ecoava na minha cabeça, um zumbido constante e doloroso.

Eu estava no hospital, sozinha.

O meu marido, Pedro, não estava aqui.

Peguei no meu telemóvel com as mãos a tremer, o ecrã a mostrar dezenas de chamadas não atendidas para ele.

Liguei novamente.

Desta vez, ele atendeu, mas não foi a voz dele que ouvi primeiro.

"Pedro, querido, podes passar-me a toalha? Esta está um pouco molhada."

Era a voz da minha irmã mais nova, Sofia. Uma voz doce e frágil que eu conhecia demasiado bem.

Seguiu-se um barulho de coisas a mexerem-se, e depois a voz impaciente de Pedro.

"Lia, o que é que queres agora? Estou ocupado."

A sua voz era fria, desprovida de qualquer preocupação.

"Pedro," a minha voz saiu rouca, quebrada. "O nosso bebé... ele..."

"O que tem o bebé?" ele interrompeu, a irritação evidente. "Não me digas que tiveste uma pequena queda e agora estás a fazer um grande alarido. A Sofia caiu das escadas, sabes? Ela podia ter-se magoado a sério. Estou a cuidar dela."

Cuidar dela.

A minha irmã, que vivia connosco desde que os nossos pais morreram. A minha irmã, a quem eu tinha prometido cuidar para sempre.

"Pedro, o nosso filho morreu."

Silêncio. Um silêncio pesado e longo que encheu o ar.

Pensei que ele talvez sentisse algo. Culpa. Tristeza. Qualquer coisa.

Mas o que veio a seguir foi raiva pura e gelada.

"Morreu? Lia, que raio de piada é essa? Estás a tentar chamar a minha atenção com este tipo de mentira? Sabes o quão assustada a Sofia está agora? Ela precisa de mim!"

"Eu não estou a mentir," sussurrei, as lágrimas a escorrerem finalmente pelo meu rosto. "Eu estou no hospital. O médico disse que o coração dele parou de bater."

"Hospital? Que hospital? Porque é que não me avisaste antes?"

"Eu liguei," disse eu, a voz a falhar. "Liguei mais de vinte vezes. Tu não atendeste."

Ele hesitou por um momento. "Eu estava a ajudar a Sofia. Ela estava em pânico. Não vi o telemóvel."

Uma desculpa. Uma desculpa tão fraca.

"Pedro, eu quero o divórcio."

As palavras saíram antes que eu pudesse detê-las. Eram a única verdade que me restava.

"Divórcio?" ele riu, um som feio e cruel. "Estás a falar a sério? Por causa disto? Lia, para de ser tão egoísta. A tua irmã precisa de nós. Tu és a única família que ela tem. E tu queres abandoná-la agora?"

Ele desligou.

Simplesmente desligou.

Olhei para o ecrã escuro do telemóvel. O meu mundo, que já estava em pedaços, partiu-se ainda mais.

O meu filho tinha-se ido. O meu marido não se importava. E a minha irmã... a minha irmã estava com ele.

A dor no meu peito era uma pressão física, tão real que me tirava o fôlego. Não era tristeza. Era um vazio. Um buraco negro onde o meu coração e o meu bebé costumavam estar.

Ele tinha razão numa coisa. A Sofia precisava de mim.

Mas agora, eu percebia que talvez eu nunca a tivesse conhecido de verdade.

Capítulo 3

A enfermeira entrou no quarto, o seu rosto uma máscara de simpatia profissional.

"Sra. Almeida, o seu marido chegou?"

Abanei a cabeça, incapaz de falar.

"E a sua irmã? Ela não vem?"

"Não," consegui dizer. "Estou sozinha."

Ela olhou para mim com pena, um olhar que eu comecei a odiar. Não queria a pena de ninguém. Queria o meu filho de volta.

Ela ajudou-me a sentar-me, deu-me um copo de água. As suas ações eram gentis, mas sentia-me como um objeto, uma coisa partida que precisava de ser consertada.

"O procedimento para remover o... o feto está marcado para amanhã de manhã," disse ela suavemente. "Precisa de descansar."

Remover o feto.

Não o meu filho. Não o meu bebé. Um feto.

Um termo clínico para o fim do meu mundo.

Assenti, porque era a única coisa que conseguia fazer.

Quando ela saiu, o silêncio do quarto voltou a engolir-me. Peguei no meu telemóvel novamente.

Havia uma nova mensagem. Era da Sofia.

"Lia, desculpa. O Pedro disse-me que vocês discutiram. Por favor, não fiques zangada com ele. Ele estava só a cuidar de mim. Sabes como eu sou desastrada. Amo-te, mana."

Amo-te, mana.

As palavras eram como veneno.

Durante anos, eu tinha sido tudo para a Sofia. Mãe, pai, irmã, amiga. Depois da morte dos nossos pais num acidente de carro, eu desisti da universidade para trabalhar e cuidar dela. Garanti que ela tivesse tudo, que nunca sentisse a falta de nada.

Quando me casei com o Pedro, a primeira coisa que lhe pedi foi que a Sofia viesse morar connosco. Ele concordou. Na altura, pareceu-me um ato de bondade. Agora, via-o sob uma luz diferente, mais sinistra.

Respondi à mensagem dela.

"Onde estás?"

A resposta foi quase imediata.

"Estou em casa. O Pedro está a fazer-me um chá. O meu tornozelo dói um pouco."

Em casa. Na nossa casa. Na cama que eu partilhava com o meu marido.

"Sofia, o nosso bebé morreu."

Enviei a mensagem e esperei. O pequeno indicador de que ela estava a escrever apareceu e desapareceu várias vezes.

Finalmente, a resposta chegou.

"Oh, meu Deus. Lia. Eu sinto muito. Eu não sabia. O Pedro não me disse."

Claro que não disse.

"Eu preciso que venhas ao hospital," escrevi. "Agora."

Queria ver o rosto dela. Queria ver se conseguia encontrar alguma verdade nos seus olhos.

A espera pela sua resposta foi uma agonia. Cada segundo parecia uma hora.

"Não posso. O Pedro diz que é melhor eu ficar a descansar. Ele está preocupado que eu possa piorar. Ele vai aí ter contigo em breve."

O meu sangue gelou.

Ele não a deixava vir. Ou ela não queria vir.

Naquele momento, a pequena semente de dúvida que tinha sido plantada no meu coração começou a germinar, transformando-se numa certeza feia e retorcida.

Eles estavam juntos nisto.

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