O aperto de Kael era como um torno, os nós de seus dedos brancos. "Peça desculpas à Emília."
Ele não se importava com o sangue na testa dela ou com a dor em seus olhos.
Ele a arrastou do chão e a jogou em direção à cama do hospital. "Agora."
O mundo inclinou. A cabeça de Clara latejava, mas ela permaneceu em silêncio.
Ela queria rir. Queria gritar. Mas estava tão cansada.
Tudo o que ela queria era que isso acabasse. Mais um mês. Então ela estaria livre dessa vida sufocante, dessas pessoas.
Emília estava na cama, o rosto pálido, uma imagem de fragilidade. Ela olhou para Clara com medo nos olhos. "Aurora... me desculpe... eu não quis cair. Por favor, não fique brava."
Lágrimas escorriam por seu rosto enquanto ela olhava para Kael. "Kael, não a culpe. A culpa é minha."
A expressão de Kael suavizou ao olhar para Emília. Ele gentilmente enxugou suas lágrimas. "A culpa não é sua."
Então ele se virou para Clara, seu rosto instantaneamente se transformando em gelo. "Você me ouviu? Peça desculpas."
Clara olhou para a performance de Emília e sentiu uma onda de exaustão.
"Emília," ela perguntou, a voz rouca, "por que você está fazendo isso?"
Emília soluçou mais forte. "Do que você está falando? Kael, ela está me assustando. Ela deve estar furiosa porque você vai se casar com ela, mas ainda me ama."
A paciência de Kael se esgotou. "Aurora!"
Clara sabia que Emília estava mentindo. Ela podia ver o leve sorriso de escárnio nos lábios de Emília através de seus olhos cheios de lágrimas. Mas discutir era inútil.
Ela precisava do dinheiro. Precisava aguentar.
"Me desculpe," ela disse, a voz desprovida de emoção.
Era apenas uma palavra. Não significava nada.
Kael a encarou, aparentemente surpreso com seu rápido pedido de desculpas. Então ele deu outra ordem. "Você vai ficar aqui e cuidar da Emília até ela se recuperar."
Clara assentiu. "Ok."
Então, nos dias seguintes, Clara ficou no hospital, atendendo a todas as necessidades de Emília.
Kael estava lá quase constantemente, cobrindo Emília com um nível de cuidado e afeto que ele nunca havia demonstrado a Clara. Ele descascava maçãs para ela, lia para ela e segurava sua mão enquanto ela dormia.
Clara assistiu a tudo sem um pingo de emoção. Era como assistir a um filme.
As enfermeiras do andar cochichavam entre si.
"A Sra. Trujillo é tão generosa. A maioria das mulheres não conseguiria suportar isso."
"Ela deve amar tanto o Sr. Trujillo. Ser capaz de tolerar o primeiro amor dele assim... é incrível."
Kael ouviu os sussurros delas um dia, quando estava voltando para o quarto. Ele parou na porta, olhando para Clara, que estava sentada em silêncio perto da janela, observando as luzes da cidade.
Sua silhueta era magra e solitária, mas havia uma estranha sensação de paz nela.
Ele sentiu um estranho aperto no peito, uma emoção desconhecida que não conseguia nomear.
Alguns dias depois, Emília recebeu alta. Kael anunciou que a levaria em uma viagem para a Europa para ajudá-la a se recuperar.
"Não me ligue, a menos que seja uma emergência," ele disse a Clara antes de partirem.
Clara sentiu um alívio. "Boa viagem."
Com eles longe, a mansão ficou silenciosa. Clara começou a arrumar seus poucos pertences em uma pequena mala. Ela viu as fotos deles nas redes sociais. Kael e Emília em Paris, sorrindo em frente à Torre Eiffel. Kael e Emília em Roma, dividindo um sorvete.
Eles pareciam um casal feliz.
Clara não sentiu nada. Estava apenas contando os dias.
A família Trujillo tinha uma reunião familiar mensal. Era uma regra estabelecida pela avó de Kael, a matriarca da família.
Kael ainda estava na Europa com Emília, então Clara teve que ir sozinha.
A avó de Kael, Eleanor Trujillo, era uma mulher formidável. Quando viu Clara chegar sozinha, seu rosto imediatamente se fechou. "Onde está o Kael?"
"Ele está em uma viagem de negócios," Clara mentiu suavemente.
Eleanor soltou uma risada fria, seus olhos afiados. "Uma viagem de negócios?"
Nesse momento, o mordomo entrou, segurando um jornal. Ele o entregou a Eleanor.
A primeira página era uma foto grande e brilhante de Kael e Emília se beijando apaixonadamente em uma rua de Paris. A manchete dizia: "Magnata da Tecnologia Kael Trujillo Reacende Romance com Primeiro Amor."
O rosto de Eleanor ficou lívido. Ela bateu o jornal na mesa.
"Siga-me até o escritório," ela ordenou a Clara, a voz tremendo de raiva.
No escritório, Eleanor apontou um dedo trêmulo para Clara. "Ajoelhe-se."
Clara se ajoelhou sem uma palavra.
"Sua inútil! Você não consegue nem controlar seu próprio marido!" A voz de Eleanor era afiada e cortante. "Vou te dar duas opções. Ou você traz o Kael de volta aqui agora mesmo, ou você assume o castigo por ele."
Clara sabia que Kael não voltaria. Ele estava completamente enfeitiçado por Emília.
"Eu assumo o castigo," ela disse calmamente.
Eleanor olhou para ela surpresa. "Tem certeza?"
"Tenho certeza," disse Clara, o olhar firme.
Eleanor pegou uma régua de madeira pesada da mesa. O som dela cortando o ar era agudo.
Pá.
Atingiu com força as costas de Clara. A dor a queimou por dentro, mas ela mordeu o lábio, recusando-se a fazer um som.
Pá. Pá. Pá.
Os golpes caíam sobre ela, cada um mais doloroso que o anterior. Ela cerrou os punhos, os nós dos dedos ficando brancos.
Ela não choraria. Não imploraria.
Finalmente, a dor se tornou insuportável. Sua visão embaçou e o mundo escureceu.
Ela acordou em uma cama de hospital.
Kael estava sentado ao seu lado, o rosto indecifrável.
"Por que você não me ligou?" ele perguntou, a voz baixa.
A garganta de Clara estava seca. "Você disse para não ligar, a menos que fosse uma emergência."
Kael olhou para ela, um brilho de choque em seus olhos. Ele se lembrou das palavras das enfermeiras: "Ela deve amar tanto o Sr. Trujillo."
Seria verdade? Essa mulher, que ele tratara com tanta indiferença, realmente o amava tanto assim?
A estranha sensação em seu peito se intensificou.
Ele ficou no hospital, cuidando dela. Foi a primeira vez que ele fez isso.
Clara tentou recusar, mas ele insistiu.
No dia em que ela recebeu alta, ele teve que sair para uma reunião urgente. "Vou pedir para o motorista te buscar mais tarde," ele disse.
"Tudo bem, posso ir para casa sozinha," ela disse.
Ela saiu do hospital sozinha. O sol estava forte e ela sentiu uma sensação de liberdade.
Perdida em pensamentos, ela esbarrou em um homem na rua.
"Você é cega?" o homem gritou, empurrando-a.
"Me desculpe," disse Clara, tentando se equilibrar.
"Desculpe? Você sabe o quão caras são as minhas roupas?" o homem zombou, olhando-a de cima a baixo com desprezo.
De repente, um carro preto parou ao lado deles. Kael saiu, o rosto como uma nuvem de tempestade.
Ele jogou um maço de notas no homem. "Isso é o suficiente?"
O homem, intimidado pela aura imponente de Kael, pegou o dinheiro e fugiu.
Kael se virou para Clara, seus olhos percorrendo suas roupas simples. "Por que você está vestida assim?"
Clara permaneceu em silêncio.
Uma raiva inexplicável cresceu no peito de Kael. Ele agarrou o braço dela e a puxou para dentro do carro. "Vamos fazer compras."
Ele a levou a uma butique de luxo e fez com que os funcionários trouxessem araras de roupas caras.
Clara ficou ali como um manequim, deixando que a vestissem.
Justo quando ela estava experimentando um vestido, Emília apareceu de repente.
"Kael? Pensei que você estivesse em uma reunião," ela disse, os olhos arregalados de surpresa. Ela olhou para Clara, depois de volta para Kael, a voz trêmula. "O que você está fazendo?"
"Emília, não é o que você está pensando," disse Kael, a voz suavizando.
Os olhos de Emília se encheram de lágrimas. Ela se virou e saiu correndo da loja.
"Emília!" Kael imediatamente correu atrás dela, deixando Clara sozinha no meio da loja, cercada por um luxo que ela não queria.
Clara os viu partir, o coração tão imóvel quanto um lago congelado.
De repente, houve um barulho alto do lado de fora.
Gritos explodiram.
Clara saiu correndo da loja. Um grande painel de vidro havia caído do prédio do outro lado da rua.
Emília estava no chão, cercada por vidro estilhaçado, em uma poça de seu próprio sangue.