Mihai caminhava pelos corredores da mansão com passos firmes, mas sua mente estava distante dali. O burburinho dos criados se movendo rapidamente para preparar o jantar, o cheiro de madeira polida e os adornos dourados que brilhavam sob a luz dos candelabros - tudo isso lhe parecia alheio naquele momento. Como sempre, o peso da mansão sobre seus ombros o esmagava, mas não da forma que seus pais esperavam.
Ele, o herdeiro dos Ionescu, precisava estar preparado para tudo o que significava ser o próximo líder da família. Isso incluía participar de reuniões tediosas, administrar negócios, atender às expectativas de um sobrenome que há séculos fazia parte da alta sociedade romena e, acima de tudo, encontrar uma esposa adequada. Pelo menos, era essa a única verdade que lhe repetiam incessantemente, como se fosse uma oração que deveria decorar.
A mansão, com seus imensos salões decorados com retratos de antepassados e sua coleção de móveis antigos, parecia-lhe cada vez mais uma prisão dourada. Ao atravessar o vestíbulo, onde o eco de seus passos ressoava, Mihai refletia sobre o lugar que o cercava e a vida que lhe era imposta. A luxuosa sala de estar, com suas cortinas de veludo e lareira sempre acesa, havia sido seu refúgio por anos, mas já não era suficiente.
O relógio da entrada marcou seis horas da tarde, e isso significava que era hora de enfrentar seu pai, o Senhor Ionescu, um homem a quem Mihai sempre teve dificuldade de encarar sem sentir uma pressão insuportável no peito. Seu pai não aceitava desculpas nem fraquezas. Desde que Mihai fora velho o suficiente para entender as expectativas sobre ele, sua vida havia sido uma luta constante para ser o homem que seu pai desejava, embora, no fundo, nunca tivesse compartilhado dessa visão.
- Mihai - chamou sua mãe da sala principal, sua voz suave, mas firme. - Seu pai quer falar com você.
Ao entrar, Mihai encontrou o pai sentado em sua grande poltrona de couro, as mãos entrelaçadas e a expressão grave. O ar na sala estava carregado de uma tensão palpável. A luz da tarde filtrava-se pelas grandes janelas, iluminando o rosto severo do patriarca.
- Sente-se - disse o Senhor Ionescu, sua voz profunda e autoritária.
Mihai sentou-se sem dizer uma palavra, sua mente correndo a mil por hora, buscando uma desculpa, uma maneira de evitar a conversa que sabia que estava por vir. Mas nada poderia detê-la.
- Está na hora de começar a assumir suas responsabilidades - disse seu pai diretamente, olhando-o com uma severidade que fazia Mihai se sentir pequeno, apesar de sua altura. - Este ano você completou vinte anos, e já não pode continuar brincando de ser criança. A mansão, os negócios, tudo isso, o que temos, é seu legado. E chegou o momento de se preparar para assumir o controle.
Mihai sentiu uma onda de desconforto tomá-lo. O tom de seu pai era tão firme que não deixava espaço para dúvidas: o momento havia chegado. Mas ele não estava pronto. Não queria, nem podia, ver sua vida reduzida a uma série de reuniões e decisões financeiras. Não conseguia se imaginar comandando tudo aquilo.
- Eu sei - respondeu, tentando manter a calma, mas a inquietação era evidente em sua voz.
Seu pai não pareceu notar sua hesitação. Em sua mente, Mihai já estava pronto para assumir tudo, ou pelo menos era isso que acreditava.
- Além disso, já temos a jovem Elena à espera. A família dela é perfeita para um casamento com os Ionescu. Ela é uma boa escolha para seu futuro, Mihai. É educada, vem de uma família respeitável e tem um sobrenome que complementará o seu.
As palavras de seu pai foram como uma punhalada em seu peito. Elena era tudo o que Mihai não queria: uma jovem perfeita, adequada para o casamento, mas completamente alheia a seus desejos e sentimentos. De certa forma, a ideia de passar sua vida com alguém como ela o aterrorizava. Não queria uma esposa que fosse apenas um acessório social.
Mihai se obrigou a morder o lábio para não demonstrar sua frustração. Como poderia explicar ao pai que não conseguia viver de acordo com seus planos? Como poderia dizer-lhe que suas expectativas sobre um casamento arranjado, repleto de promessas de dinheiro e poder, não eram o que ele desejava para sua vida?
- E o que acontece com os meus próprios desejos? - perguntou, finalmente, a voz trêmula de raiva contida. - O que acontece com o que eu quero?
O Senhor Ionescu o olhou como se ele tivesse acabado de dizer um absurdo. Seu olhar era frio, mas havia um brilho de desaprovação que queimava.
- O que você quer não importa, Mihai. O que importa é o que a família precisa. Você não está aqui para brincar com seus sentimentos. Precisa levar em conta tudo o que lhe ensinamos. - O rosto do pai suavizou-se ligeiramente, mas seu tom permaneceu inflexível. - Você não tem escolha. O destino desta família está em suas mãos.
Mihai não conseguiu conter um suspiro de frustração. Sabia que lutar contra seu pai era inútil. Nada do que dissesse mudaria o curso dos acontecimentos. As expectativas de sua família sempre o definiriam, independentemente do que ele quisesse.
Com um movimento brusco, levantou-se da cadeira, sentindo seu corpo se enrijecer de raiva contida. Era isso o que queria para sua vida? Um futuro sem nenhuma possibilidade de escape?
Saiu da sala sem dizer mais nada e fechou a porta com força atrás de si. Naquele instante, a mansão, que antes fora seu lar, já não lhe parecia acolhedora. O luxo e a riqueza que sempre o cercaram agora pareciam correntes, algo que o prendia a uma vida que não desejava.
E assim, enquanto caminhava pelos elegantes corredores da mansão, sentiu o peso de tudo o que se esperava dele. As expectativas de seu pai, da sociedade, do sobrenome Ionescu, o esmagavam a cada passo. E naquele momento, algo dentro dele mudou. A partir daquele dia, algo começou a crescer dentro de seu coração, algo que ele não podia controlar. Algo que havia começado a germinar no dia em que conheceu Loana.
Mas isso ainda estava muito longe de ser compreendido.
O sol da manhã filtrava-se timidamente através das folhas douradas das árvores que cercavam a mansão, iluminando a fachada de pedra com sua luz quente. Loana aproximava-se da enorme porta de entrada da mansão com passos apressados, um nó no estômago apertando-lhe o peito. Ontem, após seu encontro com Mihai, havia deixado sua visita inacabada, sem conseguir encontrar sua mãe, que trabalhava na cozinha. Seu irmão continuava doente, e a preocupação não a deixava em paz.
Hoje, decidiu voltar, na esperança de que sua mãe estivesse lá e pudesse levar-lhe algum remédio para o pequeno, que estava cada vez mais fraco. Caminhou pelo caminho de pedra, entre as plantas bem cuidadas, sentindo mais uma vez o contraste entre seu mundo e o daqueles que habitavam a mansão. Sua mãe sempre lhe falara sobre a grandiosidade daquele lugar, mas Loana nunca imaginara que um dia estaria ali, cruzando suas portas como uma sombra, um espectro invisível entre os criados e os luxos da família Ionescu.
Ao chegar ao corredor de serviço, Loana viu várias criadas trabalhando apressadas, mas sua mente estava focada na necessidade de encontrar sua mãe. O ruído dos passos desvaneceu-se quando, ao virar a esquina, deu de cara com uma figura familiar: Mihai.
Ele a observou imediatamente, seus olhos oscilando entre a surpresa e a curiosidade. Sua presença naquele corredor não deixava de ser estranha, e o que o surpreendeu ainda mais foi vê-la ali novamente, sozinha, com o cabelo preso e o rosto carregado de uma expressão de ansiedade que não notara no dia anterior.
- Você de novo - disse Mihai, sem tentar esconder o desconcerto em sua voz, cruzando os braços enquanto a observava do umbral da cozinha. O tom de sua voz era um pouco duro, mas não estava tão irritado quanto no dia anterior. Havia algo nele, um interesse sutil que Loana não conseguia compreender completamente.
Loana o observou por um instante, surpresa pelo fato de que ele se lembrava dela. Não entendia o que ele fazia naquela parte da mansão, tão longe das áreas de seu pai, tão distante de seu mundo de riqueza e poder. Mas a pergunta ficou presa em sua garganta, pois não ousava questioná-lo diretamente.
- Vim procurar minha mãe - respondeu ela, tentando soar tranquila, embora por dentro sentisse uma mistura de desconforto e ansiedade. Sabia que não deveria estar ali, que sua presença não se encaixava naquele mundo, mas o amor e a preocupação por seu irmão a impeliam a não recuar.
Mihai a observou em silêncio por alguns segundos, analisando suas roupas simples e sua postura curvada, como se tentasse fundir-se com as sombras do corredor. Ela não era uma das suas, isso era evidente, e isso só despertava ainda mais sua curiosidade. A mansão, sempre cheia de pessoas que se esforçavam para agradá-lo, nunca estivera tão próxima do povo comum como agora, com Loana diante dele.
- Qual é o seu nome? - perguntou ele, de maneira direta, mas sem a arrogância do dia anterior. Seu tom era mais suave, embora ainda carregasse uma certa distância.
Loana, surpresa com a pergunta, ergueu o olhar para encará-lo nos olhos. Não esperava que ele tivesse curiosidade sobre seu nome. Naquele momento, um calor estranho percorreu seu corpo, e o nervosismo tomou conta dela ao perceber que ele a observava atentamente.
- Loana - respondeu ela, quase sussurrando, com os olhos fixos nos próprios sapatos, como se a humildade de seu nome fosse uma marca que não queria que ele percebesse.
O silêncio que se seguiu estendeu-se entre eles, carregado de algo que nenhum dos dois conseguia identificar. Mihai sentiu-se inquieto, como se, por um instante, a bolha de seu mundo estivesse prestes a estourar, mas conteve-se. Momentos como aquele eram raros em sua vida, onde sempre fora o centro das atenções, cercado por pessoas que sabiam exatamente o que fazer e o que dizer.
- Loana... - repetiu ele, como se saboreasse o nome em seus lábios, e então franziu ligeiramente a testa. - Por que não fica? Minha mãe não está aqui, mas tenho certeza de que as cozinheiras podem ajudá-la com o que precisar.
A oferta parecia generosa, mas Loana sabia que era um convite vazio, uma cortesia que ele não pretendia cumprir. Sentia-se desconfortável com sua proximidade, percebendo o abismo que os separava: a riqueza que o cercava, a pobreza que a marcava. Decidiu ignorar a oferta; não queria sequer imaginar-se em uma posição em que precisasse pedir favores às criadas ou, pior ainda, sentir-se ainda mais inferior a ele.
- Não, obrigada - disse rapidamente, girando-se em direção ao corredor. - Minha mãe deve estar trabalhando, vou procurá-la na cozinha.
Mihai observou enquanto ela se afastava rapidamente, uma sensação estranha crescendo em seu peito. Havia algo nela que o atraía, algo que ia além do desconforto do primeiro encontro.
Loana, por sua vez, não pôde evitar sentir o olhar de Mihai em suas costas enquanto caminhava. Havia algo inquietante nele, algo que a fazia duvidar, mas também sentia uma espécie de ímã invisível que a conectava a ele. Ao longe, ouviu uma criada chamar seu nome, e a voz de Mihai desvaneceu-se enquanto ela adentrava a cozinha em busca de sua mãe.
Enquanto Loana buscava sua mãe entre as cozinheiras, Mihai permaneceu ali, pensativo, observando-a desaparecer na distância. Algo dentro dele não conseguia parar de pensar na jovem com quem havia cruzado duas vezes em menos de 24 horas. O encontro, embora breve, havia plantado uma semente que começava a crescer lentamente. Algo lhe dizia que aquele não seria o último encontro entre eles.
Mas ele também sabia que as barreiras que separavam seus mundos eram enormes e que, apesar de sua curiosidade, nunca poderia atravessá-las.