Capítulo 2

Morei a vida inteira naquela casa, quase fora da cidade, grande e com um primeiro andar, tinha uma arquitetura meio antiga, de tijolos com varanda de madeira em volta, janelas grandes e compridas com vitrais coloridos na parte superior, parapeito de granito, um pequeno jardim na frente com flores simplórias, uma área de terra em cada lado com alguns arbustos uma velha goiabeira com alguns galhos que adentravam a varanda, nos fundos um grande quintal com arvores frutíferas, coqueiros, mangueiras, cajueiros, bananeiras e meu preferido bem no meio um grande e velho jambeiro, no lado direito do quintal havia um galinheiro e um cercado para os patos.

Eu precisava pensar, subi as escadas fui para o meu quarto, escancarei as janelas, joguei-me na cama e fiquei olhando o céu lá fora, estava negro, já eram dezenove horas, pequenos pontos de luz enfeitavam o véu da noite, um clarão por trás de algumas nuvens mais baixas chamaram minha atenção, olhei rapidamente pro calendário pendurado na parede ao lado da cama, era a primeira noite de lua cheia no mês.

Era dezembro meu mês preferido, as meninas da faculdade que alugavam os outros quartos de minha casa tinham partido para passar as férias de final de ano com suas famílias, finalmente eu estava só, em meu silencio, minha casa, meu sossego. O rosto dele voltou a minha mente, aqueles olhos... Era como se já o tivesse visto antes, mas onde? Eu não me esqueceria facilmente de alguém tão ímpar como ele.

Foi então que a brisa fria da noite soprou janela a dentro fazendo a cortinas de tule balançarem, senti o cheiro doce das flores das mangueiras na rua, então vi a lua... Linda amarela, redonda, enorme saindo por trás das nuvens, parecia tão sombria mas ao mesmo tempo fascinante. Fiquei deitada inerte em minha cama, enquanto a lua cheia ia subindo lentamente pelo céu, o cheirinho doce na brisa me fez adormecer, foi então que o vi novamente, estava sentado em minha janela admirando o luar, ele virou, deu um leve sorriso para mim, então disse:

_A noite está linda. Consegue sentir o cheiro das mangueiras em flor? Eu amo este perfume doce, me lembra você.

Dei um pulo da cama, eram seis e meia da manhã, o leiteiro batia no portão. Olhei para a janela aberta, ele não estava lá. Passei as mãos no cabelo e amarrei com um elástico, desci as escadas e fui até o portão.

_O de sempre senhorita Elise? Perguntou o leiteiro.

_Sim. Respondi a ele.

Paguei, entrei novamente em casa, ao passar pela sala percebi que não havia trancado a casa antes de dormir, olhei em volta, tudo parecia no lugar, a tv, o aparelho de som, o sofá, e o mais importante a tela que minha mãe havia pintado para mim quando eu era apenas um feto em seu ventre.

Continuei em direção a cozinha, a mesa estava arrumada com uma toalha de estampa floral amarela, havia uma cesta com pães e uma garrafa de café.

Ainda não fui a padaria, como haveriam pães na minha mesa? Pensei.

O cheiro do café quente ainda pairava no ar.

_Bom dia Elise, está atrasada.

Meu melhor amigo acabara de entrar pela porta que dava acesso ao quintal. Ele se chamava Pedro, era alto, forte corpo meio esbelto, moreno bronzeado, tinha lindos olhos negros, cabelos pretos, curto arrepiado. Conheço ele desde que usávamos fraldas, estudamos juntos por toda nossa vida escolar, dividíamos nossos segredos e sofrimentos, até que um dia ele partiu, foi pra capital estudar biologia.

_Esqueceu que eu viria né? Disse Pedro.

Pulei em seus braços e o abracei tão apertado, não consegui segurar, as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto... Meu desabafo começou a sair como um rio quando rompe uma barragem.

_Me senti tão sozinha e perdida, não sabia o que fazer, tive um sonho, nele vi meus pais sendo engolidos pelo mangue, a maré estava cheia e encobria a ponte que atravessava o manguezal, minha mãe escorregou em uma das tabuas, a ponte se quebrou, meu pai tentou segurá-la mas os dois acabaram caindo juntos na água, eu estava em uma parte segura da ponte, gritei por meus pais, quando ia pular na água para tentar salvá-los uma mão segurou-me, então acordei gritando. Minha mãe ouviu meu grito correu assustada e entrou no quarto preocupada, ela disse q era só um pesadelo, então ela pediu que eu fosse tomar café pois iríamos para a praia em alguns minutos. Desabei novamente em prantos...

_Calma Elise, tudo vai ficar bem, estou aqui com você, não me diga que está assim por causa de um simples pesadelo. Disse Pedro.

Capítulo 3

_Não foi só um pesadelo, como eu estava contando... naquele dia íamos a praia do Araruna, e fomos, porem o dia estava estranho, não vimos aves na beira da estrada, nem búfalos, o tempo parecia parado, deixamos o carro no fim da estrada e seguimos pela ponte que atravessava o mangue, então veio aquela sensação de dejavu. Tentei explicar à Pedro

_Meu pesadelo estava se tornando real, tão real quanto o chão em que pisávamos, eu vi meus pais caindo na agua, porém o fundo de lama do mangue prendia seus pés e eles não conseguiram sair da água, eles iam afundando lentamente até se afogarem, por vezes tentei pular para ajudá-los, mas algo me impedia, uma mão me segurava forte pelo braço, e uma voz doce e leve como a brisa do mar dizia ao meu ouvido:

_Você não pode salvá-los Elise, se pular irá morrer, ainda não é sua hora.

_Por vezes aquela mesma frase ecoava em meus ouvidos como o vento sibilando nas janelas em dias de ventania, por dias sonhei com o que havia acontecido. Eu revivia a morte dos meus pais constantemente eu meus sonhos, tentei até me matar, nem lembro quantas vezes tentei, sempre algo estranho acontecia para me impedir, conviver com a culpa não tem sido fácil, eu sabia o que iria acontecer, eu vi em meu sonho, porque não impedi Pedro? Porque? Dividi toda minha angústia com Pedro. _ Não foi sua culpa Elise, você tentou ajudá-los, mas paralisou na hora, talvez se você tivesse pulado na água também se afogaria. Vai ficar tudo bem, você vai ver, tudo vai ficar bem, estarei aqui com você, prometo não te deixar mais sozinha. Disse Pedro tentando me acalmar. _ Meus pais eram biólogos Pedro, você sabe o quanto eles amavam esta ilha, eles se conheceram aqui, construíram a vida deles aqui, foi aqui que eu nasci, tudo o que sei aprendi com eles, porque esta ilha tinha que tira-los de mim? Porque? Retruquei à Pedro.

_ Elise se acalme, vem tomar café comigo, olha pra você, está descabela, tem até mancha de baba no canto da boca, vai tomar um banho e trocar a roupa, não quero que meu amigo conheça você assim, coitado vai é tomar um susto quando lhe ver. Falou Pedro.

Percebi que Pedro tinha razão, fui para o banheiro tirar a cara de ontem, tomei um longo banho, lavei os cabelos, fui até o quarto vestir-me, peguei uma bermuda jeans e uma camiseta branca, me olhei no espelho, percebi que o tempo tinha realmente passado desde a última vez que me olhei de verdade em um espelho, minha pele estava bronzeada do sol, minha altura parecia não ter mudado nada, talvez eu ainda tivesse meus um metro e sessenta, continuava com o mesmo corpo esbelto, meus cachos ruivos estavam mais compridos, quase na cintura, era hora de cortar e dar forma... Meu olhar parecia triste...

Fui até minha caixa de maquiagem, peguei um delineador de olhos e passei, coloquei um pouco de cor nos lábios com brilho rosado de morango, disfarcei as olheiras com corretivo. Então olhei novamente pros meus cabelos, resolvi por fim penteá-los e amarrar com elástico formando um rabo de cavalo.

Desci rapidamente as escadas para matar a saudade do meu velho amigo de infância, entrei na cozinha e fui abraçar Pedro novamente, foi então que ouvi uma voz vindo de trás de mim dizendo bom dia, me virei e olhei, um calafrio dominou meu corpo, minha visão começou a escurecer, fui perdendo os sentidos, apenas ouvia algumas vozes ao longe, até que elas cessaram e o silencio tomou conta de mim.

Comecei a sentir o vento em meu rosto, fui abrindo os olhos de vagar e me situando, percebi que estava em minha cama, comecei a pensar que tinha sido mais outro sonho, então sentei-me. _Elise finalmente você acordou, nos deixou muito preocupados, o Pedro foi chamar um médico pra te examinar, você demorou muito para acordar. Como se sente? Quer um copo de água? Falou o rapaz de pé ao lado da minha cama.

Era ele, não consegui acreditar, era como nos meus sonhos, falando comigo, parecia tão real, os olhos cor de mel tão lindos e brilhantes, os cabelos cobrindo a nuca com cachos acobreados levemente bagunçados, a pele clara corada do sol. Fiquei olhando ele por uns instantes pensativa, não consegui responder nenhuma das perguntas, mesmo assim era só um sonho, porque eu falaria com um sonho? Não é real mesmo... De repente a voz de Pedro chamou por mim.

_ Elise finalmente você acordou, que susto me deu. Como você está? O médico veio vê-la. Falou Pedro muito preocupado.

O Dr. Ricardo sentou ao meu lado e foi me examinando, ouviu meus batimentos cardíacos com um estetoscópio, examinou minhas pupilas, mediu minha pressão arterial. Então concluiu:

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A Dama do Marajó

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