Ponto de Vista: Isabela
Observei o velho coveiro se afastar, sua curiosidade satisfeita por enquanto. Caio ainda estava lá, uma estátua de incredulidade, agarrando aqueles patéticos lírios de plástico. O silêncio se estendeu entre nós, denso com anos não ditos e feridas infeccionadas.
Ele finalmente se moveu, jogando os lírios descuidadamente na grama, suas pétalas desbotadas uma triste mancha de cor contra a terra úmida. Seus olhos, embora ainda injetados, endureceram com uma raiva familiar.
"Como você ousa?", ele cuspiu, sua voz baixa e perigosa. "Como você ousa aparecer aqui como se nada tivesse acontecido? Cinco anos, Isabela! Cinco anos nós pensamos que você estava morta! Você gostou de nos ver de luto por você? Gostou de nos fazer sentir culpados?"
Culpados? A palavra tinha gosto de veneno na minha boca. Eu quase ri.
"Culpados?", repeti, um divertimento frio no meu tom. "Vocês se sentiram culpados?"
Ele recuou, sua mandíbula se contraindo. "Claro que sim! Meu Deus, Isabela, você tinha sumido! Tivemos um funeral, um túmulo para você!" Ele gesticulou descontroladamente em direção à lápide. "Você sabe o que isso fez comigo? Com a Aline? Com a sua família?"
Minha família. A dor daquelas palavras, a memória de sua traição, era uma pontada surda no meu peito. Lembrei-me da última vez que o vi, que realmente o vi. Foi um borrão de luzes piscando e metal retorcido, uma luta frenética para respirar.
"Você me ligou do hospital", eu disse, minha voz mal um sussurro, mas cortou o ar entre nós. "Minha perna estava estilhaçada, minhas costelas quebradas. Os médicos não tinham certeza se eu sobreviveria."
Ele recuou, como se tivesse sido atingido. "Eu... eu sei. Foi terrível, Isabela, de verdade."
"Terrível?" Eu ri então, um som áspero e quebradiço. "Você me disse que não podia vir. Disse que tinha 'outras obrigações'. Disse que sentia muito, mas a Aline precisava mais de você."
As palavras saíram tropeçando, cada uma um caco afiado de memória.
Flashback
"Caio, por favor", eu murmurei, minha garganta arranhando. O quarto do hospital cheirava a antisséptico e desespero. "Estou com medo. Eles disseram que talvez eu não ande de novo."
Sua voz ao telefone era distante, tensa. "Eu sei, Isa. Sinto muito. De verdade. Mas a Aline... ela está passando por um momento tão difícil com tudo isso. Ela precisa que eu seja forte por ela. O papai Donato já está tão estressado com os preparativos do casamento."
"Os preparativos do casamento?", engasguei, lágrimas ardendo em meus olhos. "Caio, nosso casamento ainda está a semanas de distância. E o casamento dela com você é amanhã!"
Ele suspirou, um som impaciente. "É complicado, Isa. Você sabe como a Aline é. Tão frágil. Todo esse acidente a deixou no limite. Ela precisa que eu esteja lá amanhã. Para a prova do vestido. Para o jantar de ensaio. Ela não consegue fazer isso sem mim."
"Mas eu estou morrendo, Caio!", gritei no telefone, minha voz falhando. "Eu estou morrendo, e você está escolhendo ela em vez de mim! Você está escolhendo a Aline, a mulher que roubou meu anel de noivado, a mulher que disse a todo mundo que eu estava fingindo meus ferimentos para chamar a atenção!"
Houve um longo silêncio. Então, sua voz, fria e desprovida de qualquer calor. "Sabe de uma coisa, Isabela? Talvez seja melhor se você simplesmente... desaparecer. A Aline merece felicidade. Felicidade de verdade. Não esse drama que você constantemente traz. Apenas vá. Vá para o inferno, por mim."
Fim do Flashback
"Vá para o inferno", repeti, meu olhar fixo nele. "Essas foram suas palavras exatas, não foram, Caio? 'Vá para o inferno'. Eu apenas segui seu conselho."
Seu rosto era uma máscara de confusão, depois raiva. "Isso foi só... uma hipérbole! Eu estava estressado! Estávamos todos estressados! Você sempre foi tão dramática, Isabela. Sempre fazendo tudo ser sobre você." Ele passou a mão pelo cabelo, me olhando de cima a baixo. "Mas olhe para você. Você... você está bem. Na verdade, você está incrível. Roupas novas? Corte de cabelo novo? Isso é algum tipo de jogo doentio? Você fingiu sua morte para se vingar de nós, não foi? Para me fazer sentir mal?"
Ele se aproximou, um sorriso presunçoso se formando em seus lábios. "Bem, funcionou. Por um tempo. Mas Aline e eu estamos felizes. Realmente felizes. Você não estragou nada." Ele gesticulou vagamente em direção à lápide. "Se este é o seu grande retorno, tentando me fazer arrepender, você chegou tarde demais. Olha, Isabela, se você quer voltar, talvez possamos conversar. A Aline sempre teve um carinho por você, apesar de tudo. Mas você terá que se desculpar. Por essa palhaçada. E por perturbar a paz dela."
Eu não aguentava mais. A audácia, a autopiedade, a pura ilusão.
"Você é verdadeiramente patético", eu disse, minha voz pingando desprezo. "Eu não voltei por você, Caio. Eu não voltei pela Aline, ou pelo Diego, ou pelo Donato. Eu voltei pela minha mãe. E nada mais."
Dei um passo para passar por ele, indo em direção à saída do cemitério.
"Faça um favor a si mesmo, Caio", gritei por cima do ombro, sem me dar ao trabalho de olhar para trás. "Pegue aqueles lírios de plástico. Eles combinam mais com você do que qualquer flor de verdade jamais combinaria."
Ouvi seu suspiro engasgado, mas continuei andando. Eu não ia deixar que ele me puxasse de volta para aquele pântano tóxico. Nunca mais.
Ponto de Vista: Isabela
Caio ficou paralisado, como um cervo pego pelos faróis, enquanto minhas palavras pairavam no ar fresco do outono. Não lhe dediquei outro olhar. Meu passo acelerou, cada um me levando para mais longe do passado ao qual ele tentava se agarrar desesperadamente.
"Isabela! Espere!", ele chamou, sua voz tingida com uma estranha mistura de desespero e confusão. "Donato... seu pai... ele quer te ver! Teremos uma festa de aniversário hoje à noite, uma pequena reunião de família. Por favor, apenas venha! Fale com ele!"
Hesitei por uma fração de segundo. A ideia de encarar Donato, de voltar para aquela casa dos horrores, fez meu estômago se contrair. Mas então a imagem do túmulo solitário da minha mãe brilhou em minha mente, e a raiva se acendeu novamente. Todos eles me abandonaram. Por que eu deveria olhar para trás? Empurrei o portão enferrujado do cemitério e saí para a rua, fazendo sinal para um táxi que passava.
Meu coração martelava contra minhas costelas enquanto o táxi se afastava, deixando o cemitério e Caio para trás. As velhas feridas, infeccionando logo abaixo da superfície, começaram a doer. Donato Dantas. Meu pai. O homem que fora tão consumido pela culpa por seu caso extraconjugal que me apagou sistematicamente de sua vida para expiar um pecado que ele cometeu.
Lembrei-me do funeral da minha mãe, cinco anos atrás. Minha perna ainda estava engessada, meu corpo machucado e quebrado pelo acidente que eles convenientemente ignoraram. Donato estava na frente, seu rosto manchado de lágrimas, mas seu braço estava em volta de Aline, que soluçava dramaticamente em seu ombro. Ela era sempre a vítima. Mesmo então, depois que minha mãe, sua esposa, morreu, ele escolheu sua filha ilegítima, o produto de sua traição, em vez de mim, sua filha legítima.
"Isabela, não seja tão dramática", ele sibilou para mim quando tentei me aproximar, apoiando-me pesadamente em minhas muletas. "Aline precisa de consolo agora. Você está apenas chamando a atenção para si mesma."
Donato sempre me viu como a "forte", aquela que aguentava tudo. Essa força se tornou minha maldição. Significava que Aline sempre precisava de mais, merecia mais, exigia mais. Ela conseguiu a atenção do meu pai, a proteção do meu irmão Diego e, eventualmente, até mesmo meu noivo, Caio.
O acidente de carro que quase me matou foi o prego final no caixão. Eu estava deitada em uma cama de hospital, mal consciente, quando a enfermeira me trouxe o telefone. Era Donato.
"Filha?", sua voz era rude, distante. "Como você está?"
"Pai", sussurrei, minha voz fraca. "Eles disseram que é grave. Minha coluna... eles não têm certeza se vou andar de novo."
Houve uma pausa. Uma pausa longa e agonizante. "Bem, você sempre foi uma lutadora, Isabela. Você vai ficar bem."
"Você pode vir?", implorei, lágrimas brotando. "Por favor, estou com tanto medo. Eu só preciso de você aqui."
Outro suspiro. "Isabela, você sabe que não posso. É o grande dia da Aline amanhã. O casamento dela com o Caio. Não posso decepcioná-la. Toda essa história com o seu acidente... já estragou o clima. Ela está tão chateada. Preciso estar lá por ela."
Lembro-me de desligar o telefone, o plástico frio escorregando de meus dedos trêmulos. A enfermeira, uma mulher de rosto gentil cujos olhos continham uma pena que eu não suportava, o pegou gentilmente. Ela não disse nada, mas seu olhar dizia tudo. Foi então que eu soube. Eu estava verdadeiramente sozinha. Minha família havia escolhido Aline, escolhido uma mentira, escolhido a conveniência em vez da minha vida.
Inconscientemente, toquei a cicatriz desbotada que serpenteava pela minha clavícula, uma dor fantasma persistindo mesmo depois de todos esses anos. Aquela garota, aquela que eles deixaram para morrer, estava enterrada sob aquela pedra. E já foi tarde.
O táxi parou em frente ao luxuoso flat que eu havia alugado. Era uma base temporária, uma zona neutra, muito distante dos fantasmas do meu passado. Paguei o motorista e entrei, o silêncio dos cômodos vazios uma mudança bem-vinda do barulho do cemitério.
Meu telefone vibrou. Era uma chamada de vídeo de César. Meu coração se aqueceu instantaneamente. Atendi, e seu rosto bonito preencheu a tela, seguido pelo nosso filho, Léo, rindo ao fundo.
"Mamãe!", Léo gritou, seu rostinho radiante. "Quando você volta pra casa? O papai disse que você está numa missão super importante!"
"Logo, meu amor, muito logo", eu disse, um sorriso genuíno finalmente enfeitando meus lábios. "A mamãe está com saudades."
César sorriu, seu olhar cheio do amor firme e incondicional que eu sempre desejei. "Tudo bem, meu bem? Você parece um pouco... despenteada."
"Só um dia longo", menti suavemente. "Lidando com papelada."
Nesse momento, a tela mudou, e meu pai adotivo, Arthur Ricci, apareceu. Seus olhos gentis continham uma pitada de preocupação. "Isabela, querida, tudo está correndo conforme o planejado, confio? Arnoldo me informou que você chegou em segurança."
Arnoldo. Meu irmão adotivo, o arquiteto brilhante que me encontrou quebrada e abandonada e me trouxe para a família Ricci. Ele provavelmente já estava cuidando de mim, mesmo de longe.
"Está tudo bem, pai", eu o tranquilizei. "Apenas amarrando as pontas soltas. Estarei de volta antes que você perceba."
"Bom", disse Arthur, sua voz firme. "E lembre-se, você nos tem agora, querida. Qualquer coisa que precisar, qualquer problema, nos ligue. Nós somos sua família."
Um nó se formou na minha garganta. Família. A palavra, antes tão manchada, agora tinha gosto de calor e segurança. Essas eram as minhas pessoas. Minha verdadeira família.
"Eu sei, pai", sussurrei, minha voz embargada de emoção. "Eu sei."
Conversamos por mais alguns minutos, Léo contando sobre seu dia, César verificando meu humor, Arthur me lembrando de comer direito. Quando finalmente desliguei, uma profunda sensação de paz se instalou sobre mim. Os fantasmas do cemitério, a amargura do passado, pareciam recuar, substituídos pela realidade vibrante e amorosa do meu presente. Era um lembrete gritante do que eu havia ganhado e do que eu havia verdadeiramente deixado para trás.