A música da valsa se espalhava pelo salão como perfume, suave e envolvente, mas para Amélia o mundo já não possuía sons definíveis. Tudo havia sido substituído pelo toque quente — devastador — dos lábios do conde sobre sua mão. Aquele toque não desaparecia. Apenas se aprofundava, como se a pele tivesse memorizado a pressão, o calor, a audácia.
Ela respirou fundo, tentando reunir dignidade, mas Roberto não parecia disposto a permitir-lhe qualquer refúgio. Ele ainda segurava sua mão. Não com brutalidade, mas com uma firmeza estudada, como quem segura o fio de um pensamento que deseja prolongar.
— Vejo que não está habituada a tantos olhares — murmurou ele, aproximando-se devagar, tão perto que sua voz parecia tocar o ar que cercava o rosto dela.
Amélia lutou para recuperar o controle.
— Não estou habituada a estes salões, senhor. Muito menos… — Ela hesitou, procurando palavras que não soassem presunçosas. — …a estar tão próxima de alguém como o senhor.
Os olhos do conde brilharam — um brilho sombrio, curioso, perigoso, como o lampejo de um lobo observando sua presa sob a neve.
— Alguém como eu? — repetiu ele, num tom que pedia mais do que uma resposta.
— Alguém importante — corrigiu ela. — Alguém cuja presença altera o ambiente.
Roberto soltou um som baixo — não exatamente um riso, mas uma nota breve de reconhecimento. Não era o riso de um homem divertido, e sim de alguém que sabe muito bem o peso da própria influência.
— A importância não me interessa — murmurou ele. — O tédio, sim. E devo admitir… — Ele inclinou-se o suficiente para que o perfume dele envolvesse o pescoço de Amélia. — …você está muito longe de ser entediante.
Um arrepio percorreu-lhe a espinha.
— Eu sequer falei, senhor — sussurrou ela.
— Não preciso de palavras para me interessar — respondeu ele, tão próximo que sua respiração misturou-se à dela.
Amélia afastou-se apenas o necessário para recuperar espaço — um espaço que ele permitiu, e isso tornava tudo ainda mais inquietante.
— Sou apenas consultora da condessa Helena — disse ela, tentando sustentar uma formalidade. — Apenas isso.
— Você insiste nessa palavra — murmurou Roberto. — Mas ela não lhe cabe. Nunca coube.
Amélia ergueu a sobrancelha.
— E por que não?
Ele inclinou-se, mas desta vez o gesto era menos predatório e mais estudado — como se estivesse observando a reação dela com precisão absoluta.
— Porque nada em você é simples ou pequeno — respondeu. — Nem sua postura. Nem seu silêncio. Nem a forma como tenta se esconder… e falha.
As palavras tocaram Amélia com mais força do que qualquer contato físico.
Ela abriu a boca para responder — mas ele já havia a deixado sem fala.
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Roberto recuou um leve passo, mas seus olhos não a deixaram. Ele a examinava não como um homem observa uma mulher bonita, mas como um estrategista avalia uma adversária digna — uma que poderia surpreendê-lo.
— Não a vi em eventos anteriores — disse o conde, a voz carregando calma e domínio. — É nova no círculo vienense?
— Sou nova… no mundo deles — disse Amélia, olhando discretamente para as damas adornadas como vitrines. — Não pertenço à aristocracia.
— Talvez esse seja seu maior triunfo — respondeu ele, com suavidade perigosa.
— Triunfo? — ela repetiu, surpresa.
— Claro. — O olhar dele desceu lentamente até os lábios dela. — Não há nada mais atraente do que alguém que não tenta impressionar… e, mesmo assim, impressiona.
O estômago de Amélia se contorceu.
Ele era perigoso.
Mas não por poder social.
Não por ser um nobre influente.
Ele era perigoso porque parecia enxergar camadas que ninguém jamais havia notado nela.
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— Vejo que já fez uma vítima — anunciou a condessa Helena, surgindo ao lado deles com um balanço decidido de veludos e perfume de rosas secas.
Amélia quase suspirou de alívio.
Quase.
Porque o sorriso que a condessa lançou ao conde era uma provocação calculada.
— Condessa — disse Roberto, inclinando a cabeça com um respeito impecável. — Sempre magnífica.
— Sempre vigilante — corrigiu ela, abanando o leque devagar. — E, ao que parece, hoje preciso redobrar a atenção.
Amélia ficou corada.
— Protegida? — Roberto repetiu, com interesse genuíno.
— Sim — disse a condessa, pousando a mão em seu ombro. — Esta jovem é mais valiosa do que aparenta.
O olhar do conde escureceu.
Não de raiva.
De reconhecimento.
Como se confirmasse uma suspeita.
— Imagino que seja — murmurou ele. — E isso torna esta conversa ainda mais interessante.
— Interessante demais — replicou Helena.
— Incomoda-a? — perguntou Roberto.
— Ainda não — disse ela, com um sorriso enigmático. — Mas dê tempo.
Ele sorriu — um sorriso lento, perigoso, prometendo problemas deliciosos.
— Por enquanto, peço licença — disse ele. — Não por falta de desejo, mas porque a música requer minha presença.
Então fixou os olhos em Amélia.
— Voltarei para você ainda esta noite.
E se afastou como quem leva consigo a própria gravidade do ambiente.
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O salão continuou vivo, cintilante, vibrante.
Mas Amélia já não via nada da mesma forma.
As conversas com diplomatas, os cumprimentos, os olhares curiosos… tudo parecia distante. Como se ela estivesse vivendo em dois mundos ao mesmo tempo: o real, cheio de regras e protocolos, e o outro — o que existia apenas entre ela e o conde — feito de tensão silenciosa e desejo proibido.
E, em todos os momentos, ela sentia o olhar dele.
Mesmo quando não o via. Sentia.
Como se seu corpo tivesse desenvolvido uma sensibilidade nova — uma bússola interna apontada para a presença dele.
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Pouco antes da meia-noite, incapaz de suportar o calor do salão, Amélia escapou para o jardim lateral. O ar frio tocou seu rosto com a delicadeza da neve prestes a cair.
Ela fechou os olhos, permitindo-se respirar.
— Fugindo do baile? — perguntou uma voz baixa atrás dela.
Amélia virou-se.
Roberto estava ali.
Como se tivesse sido convocado pelos pensamentos dela.
Ou como se estivesse esperando exatamente aquele momento.
— Não estou fugindo, senhor — disse ela. — Só precisava de ar.
— Ar é algo precioso dentro daquele salão — murmurou ele. — Mas não foi por isso que veio.
— E por que viria, então?
Ele se aproximou devagar.
Devagar demais.
— Talvez — disse ele, parando tão perto que o calor do corpo dele era palpável — porque fui o único que fez seu coração falhar uma batida.
O ar desapareceu dos pulmões dela.
— Como pode saber disso? — sussurrou.
— Porque o meu também falhou — respondeu ele.
Aquela simples frase valeu mais do que qualquer confissão.
O silêncio que seguiu era denso.
Carregado de tensão, desejo e uma promessa que nenhum dos dois ousaria nomear.
— Eu não sei como lidar com alguém como o senhor — confessou Amélia.
Roberto inclinou o rosto para o dela.
— Não tente lidar — murmurou. — Apenas sinta.
Ela deveria ter recuado.
Mas não recuou.
Quando ele tocou suas mãos, não o fez com força — mas com uma lentidão que desfazia qualquer defesa.
E Amélia… permitiu.
— Eu não deveria querer você — sussurrou ela.
— Nem eu deveria querer você — respondeu ele.
Os olhos dele escureceram ainda mais.
— Então estamos igualmente perdidos.
Ele tomou a mão dela e a levou até o próprio peito.
O coração dele batia rápido.
Forte.
Como se algo dentro dele estivesse despertando.
— Isso nunca acontece comigo — murmurou.
Amélia tentou responder.
Mas ele se inclinou — devagar, consciente, decidido — e roçou os lábios nos dela.
Não foi um beijo.
Foi pior.
Ou melhor.
Foi um quase-beijo que queimava mais do que qualquer toque real.
E, naquele instante, Amélia soube:
Não havia retorno.
Aquele homem — perigoso, magnético, inacessível — acabara de reivindicar algo dentro dela.
E ela não queria fugir.
Amélia não era mulher de se impressionar com facilidade. Não depois de tudo que já havia enfrentado — a infância simples nas colinas do interior, a educação improvisada que ela mesma buscou nas sombras de bibliotecas esquecidas, e a ascensão improvável para um mundo que, embora a observasse com curiosidade, raramente a merecia.
Ainda assim, naquela manhã fria da Áustria, quando a névoa começava a se erguer dos jardins da mansão do tio, ela sentiu um arrepio incomum percorrer-lhe a espinha.
Uma carruagem negra aproximava-se pelo caminho principal.
Uma carruagem marcada por um brasão que ela jamais confundiria.
O brasão dos Von Steinburg.
Dourado. Imponente. Esculpido com precisão quase cruel.
Duas serpentes entrelaçadas formando um círculo perfeito — símbolo antigo das famílias mais tradicionais do norte austríaco. Um emblema tão velho quanto as primeiras cortes secretas que comandavam, das sombras, os rumos do Império.
Diziam que apenas os mais influentes carregavam aquele símbolo.
E diziam também que o Conde raramente saía de suas próprias terras para visitar alguém pessoalmente.
Então…
Por que ele viria até ela?
Por que agora?
Por que depois daquele baile em que, diante de todos, ele a olhara como se o resto do salão tivesse desaparecido?
Amélia apoiou as pontas dos dedos no vidro frio da janela. A carruagem parou diante da entrada principal com precisão militar. Dois cocheiros vestidos de negro desceram em perfeito sincronismo. Um deles abriu a porta.
E ele surgiu.
Roberto Von Steinburg.
Desceu com a elegância de um homem que nascera para comandar a atenção — não, para exigi-la. A luz da manhã iluminou seus cabelos escuros, arrumados com um cuidado impecável. O casaco de veludo negro cintilou suavemente, e o vento levantou apenas o suficiente da gola alta para revelar o contorno de seu pescoço forte.
Não caminhava.
Deslizava.
E cada passo parecia calculado, profundo, uma ameaça mansa.
Quando ergueu os olhos, viu Amélia.
Diretamente.
Como se soubesse onde ela estaria.
Como se tivesse sentido sua presença antes mesmo de a carruagem se aproximar.
Um sorriso leve — quase imperceptível — desenhou-se nos lábios dele. Não era um cumprimento. Não era gentileza. Era… uma provocação.
“Eu sei que você me sente.”
Era o que aquele sorriso dizia.
Amélia respirou fundo, mas não conseguiu impedir o tremor que subiu por sua espinha.
— Senhorita Amélia? — a governanta apareceu no corredor, ofegante. — O Conde Von Steinburg solicita sua presença na sala de visitas.
Solicita.
Como se um homem como ele pedisse alguma coisa.
Amélia ajeitou a gola de seu vestido simples, porém refinado. Há muito havia aprendido a não se submeter ao medo. Seu olhar refletiu determinação.
Ela tinha mérito. Ela tinha valor. Ela tinha inteligência.
E nenhum conde — por mais magnético que fosse — tiraria isso dela.
Ergueu o queixo e caminhou até a sala de visitas.
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A sala parecia diferente naquela manhã — menor, mais silenciosa, mais quente. Mas talvez fosse apenas a presença dele que moldava o espaço ao redor.
Roberto estava de costas, observando a grande pintura acima da lareira. Ombros largos. Postura impecável. As mãos cruzadas atrás das costas revelavam controle absoluto — não apenas do próprio corpo, mas de qualquer ambiente que ocupasse.
— Conde Roberto — disse Amélia, mantendo a voz firme.
Ele se virou lentamente.
Devagar demais.
Como se saboreasse o momento.
Como se ansiasse ver o que aquele instante arrancaria dela.
Quando seus olhos encontraram os dela, algo dentro de Amélia se dobrou. Não de fraqueza — de reconhecimento.
Aquela escuridão silenciosa… atraía.
— Senhorita Amélia — respondeu ele, inclinando a cabeça. — Ainda guarda o hábito de observar o mundo antes que o mundo a observe. Admirável.
Ela franziu o cenho.
— Não sabia que pretendia vir pessoalmente.
Um sorriso ladeou seus lábios.
— Eu não venho. Eu escolho onde estar.
O calor subiu pelo pescoço dela — raiva, talvez; desejo, certamente. Ele se aproximou com passos lentos, medidos. O som leve das botas sobre o mármore parecia fundir-se ao ritmo acelerado do coração dela.
Parou perto demais.
O perfume dele — notas de madeira quente, tabaco suave, algo profundo e proibido — envolveu-a. Era quase um toque.
— Vim lhe entregar isto — ele disse.
Tirou do bolso interno um envelope vermelho. Selado com cera. O símbolo das serpentes brilhava.
— O que é? — ela perguntou.
Roberto inclinou-se ligeiramente, de modo que sua respiração roçasse a pele sensível da orelha dela.
— Um convite — murmurou. — Para algo que não se envia por mensageiros. Algo que exige minha presença. E a sua.
Amélia engoliu um nó quente.
— E o que exige de mim?
Ele ergueu o rosto até encontrá-la com os olhos. A intensidade daquele olhar quase a fez recuar.
— Coragem. — Ele deu um meio sorriso. — E inteligência. Ambas raras.
— Está me testando? — ela rebateu.
— Naturalmente.
Ela respirou fundo, sem desviar.
— O que há neste convite?
A resposta veio como um golpe suave.
— A primeira porta.
— Porta para quê?
Os olhos dele brilharam perigosamente.
— Para o que a corte não mostra.
Para o que ela esconde.
Um arrepio percorreu Amélia.
A corte velada.
A verdadeira corte.
Aquela que regia pactos silenciosos, alianças obscuras e desejos que jamais poderiam ser mencionados em público.
A corte dos desejos velados.
Amélia sabia que ele falava dessa.
E ele sabia que ela compreendia.
— Por que eu? — ela perguntou, baixando a voz.
Roberto aproximou-se mais uma vez, devagar, como se o próprio ar entre eles fosse algo que ele pudesse manipular.
— Porque você vê. — Seus olhos escureceram. — E porque você sente.
O coração dela falhou um batimento.
— Sinto o quê?
— Sente tudo.
A frase atravessou o ar como um toque.
Ela estremeceu.
Ele ergueu a mão — não para tocá-la, mas para desenhar, no espaço entre eles, um contorno invisível de seu rosto.
— Abra quando estiver sozinha — murmurou. — E venha… se tiver coragem.
Ela o encarou com firmeza ardente.
— E se eu não tiver?
O sorriso mais perigoso que ele já lhe deu surgiu então.
— Então eu irei buscá-la.
Ela perdeu o fôlego.
Roberto deu um passo atrás, virando-se lentamente. Ao chegar à porta, parou.
— Amélia…
— Sim? — sua voz saiu baixa.
— Quando voltar a estar diante de mim… esteja pronta para perder mais do que a fala.
E ele se foi.
A sala mergulhou em silêncio, como se respirasse em nome dela.
Amélia olhou para o envelope vermelho entre os dedos.
Ainda não o abrira.
Mas já sabia.
Se atravessasse aquela porta…
Não haveria retorno.
— Eu vou — sussurrou.
E o destino sorriu.