Capítulo 2

Rhanessy despertou assustada com barulho das cortinas se abrindo, forçou a abertura de seus olhos, mas a claridade oprimia sua visão e quando percebeu a dor na sua cabeça os fechou novamente.

— Majestade — Rhanessy não conseguia distinguir de quem era a voz — Não pretende dormi o dia todo, né?

 A rainha abriu os olhos rapidamente para espiar que era Tanásia, ela estava sentada na beirada da sua cama, tocava delicadamente seu corpo em cima da coberta.

 Rhanessy suspirou e levantou rendendo-se a suas obrigações reais que provavelmente a estavam esperando e não ligavam se ela tinha dormido bem a noite ou não. Tanásia sorriu para ela, seu olho direito sem visão parecia olhar dentro da alma dela de forma que Rhanessy não conseguia olhar muito para o olho sem cor.

 — A senhora disse que iria dar um passeio com lorde Ethan a cerca de meia hora atrás — Tanásia falava de forma calma e lenta para que uma Rhanessy sonolenta entendesse. — Ele está impaciente na sala do trono.

 Rhanessy estava com enormes olheiras e seus olhos estavam vermelhos e ela parecia ignorar Tanásia enquanto se levantava e olhava seu reflexo no espelho da penteadeira, pegou a escova e começou a escovar seus cabelos.

 — Tomei a liberdade de chamar as gêmeas — Tanásia apontou para Zara e Zarina que estavam ao lado de um lindo vestido rodado verde claro com detalhes bordados em verde escuro. — Elas já prepararam sua roupa para o passeio.

 — Não — Rhanessy disse de forma simples e baixa.

— Como? — Tanásia não parecia tão surpresa com a resposta. 

— Vou treinar com as Calçadoras

— Majestade, disse que iria olhar as melhorias que precisavam ser feitas com lorde Eric.

 — Você vai olhar!

— Majestade, o Conselheiro da cidade é um homem orgulhoso — Tanásia tentava convencer Rhanessy, mas sabia que era uma causa perdida — Foi lhe prometido uma rainha, eu sou uma estrangeira e nem da nobreza sou, ele ficara muito ofendido.

— Zarina — Rhanessy chamou após dar um longo suspiro — Diga a Lorde Ethan que eu sinto muitíssimo por não poder comparecer ao nosso passeio, mas que não quero desperdiçar seu precioso tempo que reservou para isso, portanto enviarei A Conselheira da sabedoria, minha hospede no castelo e preciosa amiga Tanásia em meu lugar.

Zarina saiu para dar o recado da rainha para Eric enquanto Tanásia sorria de forma boba com os adjetivos impostos a ela e Rhanessy sorriu de volta.

— Zara — A rainha ordenava — Ajude a me vestir para o treino. Zara ajudou Rhanessy a vestir a roupa das caçadoras, uma longa túnica vermelha com fendas até o final de cada perna, um cinto de bronze e grossos braceletes de bronze. As caçadoras normalmente usam um em cada pulso, mas Rhanessy só usou no direito para poder ficar com a pulseira da sua mãe. Por fim Zara escovou seus cabelos e prendeu em um alto rabo de cavalo.

 — Obrigada, Zara — Rhanessy agradeceu e saiu do quarto. Desceu as escadarias da torre da rainha, passou pelo corredor que não levaria a sala do trono onde Eric estaria.

— Rainha Nessy...

Rhanessy virou-se para a esquerda e viu Colin encostado na parede do corredor dos serviçais. Sentiu sua respiração a traindo quando encontrou seus olhos esmeraldas, ele estava usando um gibão cinza, calças pretas e um manto cinza, seu cabelo castanho avermelhado estava bem penteado e Colin exalava um perfume forte e agradável que dominou os pulmões de Nessy.

— Está muito elegante, lorde Colin — Rhanessy sorriu de volta

— E vossa majestade esta muito gostosa. — Ele disso indo até ela.

Rhanessy ficou em choque com as palavras de Colin e olhou para os lados para certificar que ninguém além dela ouviu. A túnica das Caçadoras era justa e bem fina e se ajustava perfeitamente as curvas do corpo de Nessy. Ela sentiu seu rosto ficar quente e a túnica parecia ter exposto ainda mais seu corpo.

— Ei, não precisa corar que nem uma princesa, Nessy — Colin disse aproximando seu corpo do dela e aprendendo na parede, tocou com o polegar delicadamente o rosto de Nessy. Rhanessy pisou forte no pé de Colin que se afastou dela de imediato com uma expressão de dor.

— Aí, Nessy — Colin parecia surpreso com a agressão mais voltou a sorrir rapidamente.

 — É Rhanessy — Ela ainda estava vermelha e não conseguia olhar para o rosto de Colin — E eu sou A Rainha!

— Ei, não precisa ficar nervosinha...

Rhanessy não deu tempo para que Colin terminasse sua frase e saiu de lá de imediato em direção ao pátio de treino onde as caçadoras estavam. Sua cabeça estava tão distraída que só percebeu que estava no pátio quando sentiu a brisa do inverno invadir seu rosto.

As Caçadoras estavam todas no pátio principal e se curvaram assim que viram a rainha. Eram todas mulheres jovens a mais velha delas não deveria ter nem vinte e sete e todas usavam vestimentas iguais às que a rainha usava.

 — Rainha Rhanessy — Nix, a líder das caçadoras veio em sua direção.

 As Caçadoras eram um grupo de cerca de quinhentas mulheres, a serviço da coroa, pelo menos desde que a coroa pertence a Rhanessy. No geral são mulheres de origem humilde, de nascimento baixo. A própria Nix antes de ser uma Caçadora era uma meretriz, além de irmã mais nova de Sir Arthur. Era uma escrava presa em um prostibulo até que Rhanessy acabou com a escravidão em Thornicy, Nix foi acolhida no castelo e começou a se interessar pelos treinos com arma e até treinava com a rainha, até que criou as caçadoras, no começo eram menos de dez, mas aos poucos mais mulheres com histórias parecidas com a de Nix juraram suas lanças a Rhanessy e até a acompanharam na guerra da Campina Cintralis.

— Está se sentindo bem, minha rainha? — Nix perguntou preocupada, seus cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo e sua pele acobreada clara ficava destacada na túnica vermelha.

— Sim — Rhanessy pegou a lança de madeira para treino que Nix a entregou — Só não dormi bem, esta noite. — Essa parte não era completamente mentira, mas Rhanessy estava mais abalada pelo cheiro de Colin que estava impregnado em sua roupa.

— Quem sabe eu posso distrai-la — Nix disse com a voz ríspida que tinha e girou a lança de madeira em sua mão.

— Faça seu melhor. — Rhanessy retrucou e esperou o ataque de Nix.

Príncipe Gregory olhava da janela o pátio de treino, de longe todas pareciam formiguinhas lutando com palitos de dente, mas Gregory reconhecia a irmã girando enquanto atacava.

 — Príncipe Gregory...

Gregory virou-se para trás e viu lorde Colin, ele tinha um rosto muito sério quando não estava sorrindo, mas só costumava fazer isso para a irmã do príncipe.

— É muito silencioso, Lorde Colin — O príncipe fez uma saudação com a cabeça.

— Uma característica útil em um assassino e não sou lorde, meu príncipe — Colin ficou ao lado de Gregory e olhou Rhanessy lutando com Nix pela vidraça. — O senhor luta?

 — O suficiente para me defender de um lutador muito ruim — Gregory soltou uma leve gargalhada — Não conseguiria matar uma Manticora, por exemplo.

— Sua irmã quase morreu para matar uma.

 — Preferiria não correr o risco — Gregory olhou para a irmã e imaginou ela sendo tão pequena contra uma besta do tamanho de Layka e não conseguiu evitar de pensar no quanto ela deve ter ficado assustada — Mas soube que você a salvou neste dia.

— Um exagero, minha função é protege-la, mas eu me perdi dela, quando eu consegui vê-la. — Colin fez uma pausa sem tirar o olho de Rhanessy pelo vidro — Vi a fera pulando em cima dela, fui correndo banhado na febre da batalha, me disseram que matei mais de dez bárbaros para chegar até ela.

“Mas só lembro de fazer uma enorme força para tirar a Manticora de cima da rainha, naquele momento achei que eu tinha falhado com meu dever de protege-la, mas ela estava viva e a besta morta, não por mérito meu, então tive certeza que tinha falhado. Mas não tive tempo para pensar nas minhas falhas, ela tinha sido ferroada e morreria envenenada em pouco tempo. Não sei onde roubei o cavalo, mas eu levei a rainha tão rápido até o acampamento que Tanásia estava que quase matei o cavalo. Tanásia fez uma poção para o veneno e Rhanessy ficou desacordada por sete dias e eu não consegui sair de perto dela por um minuto.”

— Tanásia sabe fazer antidoto para veneno  de Manticora? — Gregory sorriu como o príncipe que era — Talvez eu peça para que me ensine caso minha irmã venha a precisar de novo. Rhanessy foi para o seu aposento e pediu por um banho as gêmeas, elas encheram a banheira com agua quente e a esfregaram a rainha até que ficasse rosa, lavaram seus cabelos. Em seguida ajudaram a rainha a se vestir, primeiro apertaram um espartilho sobre sua cintura e sobre ele um vestido longo e leve de ceda lilás com flocos de neve bordados em linho azul, Rhanessy optou por um simples colar de perolas rosadas e brincos que combinassem. Sentou-se na penteadeira enquanto Zara e Zarina secavam seus cabelos com uma toalha grossa e escovaram até que seus cabelos negros brilhassem, sobre ele as gêmeas colocaram sua coroa.

Ao agradecer Rhanessy notou que uma das gêmeas não parecia muito bem, dirigiu um sorriso caloroso para esta.

— Vai ficar tudo bem, querida — Rhanessy disse tocando gentilmente no ombro de Zara, ou talvez no da Zarina, não sabia ao certo qual gêmea estava tranquilizando.

 Os passos de Rhanessy a levaram até a torre dos conselheiros, em especifico na biblioteca, afinal sabia que seu avô não estaria em seu quarto.

A porta da biblioteca era feita de carvalho e entalhada com a raposa dos Miraclyn estava prestes a abrir a porta quando ouviu alguém a saudá-la.

— Minha Rainha — Sir Arthur se ajoelhou para ela — Será que a senhora poderia me conceder alguns minutos do seu tempo?

— É claro, Sir Arthur — Às vezes o excesso de devoção de Sir Arthur a deixava desconfortável, não era esse tipo de rainha, sorriu de forma tímida — Pode se levantar.

Sir Arthur levantou-se como se sua negra armadura não pesasse absolutamente nada estava com sua espada do tamanho de Rhanessy presa em seus ombros e segurava seu elmo negro. Sir Arthur era líder dos Paladinos da Lua, cerca de quatro mil soldados, outrora escravos da falecida rainha Cynthia, era costume da mesma escravizar seus inimigos derrotados os que eram fortes e altos o suficiente ganhava um lugar na sua vanguarda e um escudo e espada do tamanho de Rhanessy, o treinamento era rigoroso e alguns morriam, mas os que eram capazes de sobreviver teriam o prestigio de ser um Paladino da Lua. Mas para a rainha atual não havia prestigio nenhum em ser um escravo, ela libertou todos, deu terras e casas para morarem e a escolha de servirem a rainha por vontade própria metade deles abandonaram seus escudos e espadas, mas os quatro mil que restaram a servia infinitamente melhor a seu ver como homens livres.

— Minha Rainha — O cavalheiro desviou seu olhar para qualquer coisa que não fosse sua rainha, e tirou uma pequena capsula de vidro de dentro de seu elmo — Eu vi isto no mercado hoje e imagineis que vossa graça fosse apreciar.

Ele entregou com as mãos um pouco tremulas a capsula de vidro a Rhanessy, ela observou a cápsula era arredonda no final com a base feita de ouro, e dentro havia uma linda rosa vermelha, Thornicy não tinha rosas era frio demais para elas.

— Não deveria gastar seu dinheiro comigo — Rhanessy disse de forma ríspida e fria, mas uma parte dela apreciava o gesto do cavalheiro de olhar para algo e pensar nela.

 — Pouco um antigo escravo sabe o que fazer com o dinheiro, Majestade — Sir Arthur confessou meio envergonhado.

 — Deve-se gasta-lo com coisas que você queira.

— Como fazer minha rainha sorrir. — O cavaleiro a olhava com brilho nos olhos — O mercador disse que a rosa sobrevive por dois anos dentro dessa capsula especial.

 Rhanessy corou de imediato, não esperava por essa resposta que a deixou tão desprovida de palavras. Até que ouviu uma voz que a tirou do transe.

— Caso não esteja muito ocupada com seu soldadinho de chumbo — A voz de Colin parecia irritada e fria — Gostaria de trocar algumas palavras com vossa Majestade.

Colin não a tratava pelo apelido caso não estivesse sozinho com ela, de forma que parecia apenas mais um de seus servos, não tão devoto como deveria ser.

— Claro, Lorde Colin — Rhanessy disse, andou três passos até Sir Arthur e deu um leve beijo em sua face — Agradeço pelo presente, guardarei com carinho, pode se retirar.

Assim que Sir Arthur se afastou, Colin puxou bruscamente Rhanessy pelo pulso até um corredor onde estavam longe dos olhos e ouvidos dos criados ou de qualquer pessoa.

— Não sabia que era seu costume beijar seus guardas — Colin não sorria o que para Rhanessy era uma visão estranha.

— Não foi um beijo. — Rhanessy não entendia porque seu amigo de infância estava tão irritado — Foi apenas um agradecimento pelo presente. — Um presente estupido, você tem um jardim com um milhão de vezes mais flores que esse presente.

— Rosas não crescem e Thornicy.

— Então são ainda mais estupidas que o presente de seu soldadinho — Colin olhou os frios olhos quase brancos de Rhanessy, voltou seus olhos para os lábios rosados da rainha e desvio as esmeraldas em seu olhar para qualquer outra coisa — Tanto faz, só vim lhe avisar que falei com Zarina.

— E o que ela disse? — Rhanessy rapidamente então entendeu porque a criada estava tão desconfortável mais cedo.

— Ela disse que Mett Hughes tentou força-la

— Força-la? — Rhanessy estava surpresa. — Por que ela não disse nada?

— Ela está muito assustada, não contou nem para Zara. — Colin parecia mais calmo agora e também mais distante — Está com medo por ele ser nobre e ela apenas uma criada.

— Diga para Eric Ethan que mudei de ideia sobre Lorde Hughes. Diga que pode vir a audição que darei a ele a justiça que me pediu.

Colin confirmou com a cabeça e se foi. Rhanessy ficou olhando-o andar, sem brincadeiras, sem sorrisos, sem cortejos e sem provocações “apenas um servo cumprindo seu dever para com sua rainha”, esse pensamento fez seu coração doer, mas permitiu-se voltar ao que havia ido fazer na biblioteca.

 Abriu a porta e adentrou na sala empoeirada, a biblioteca tinha um cheiro forte de papel e dificilmente seria o local mais limpo no palácio de inverno, nem o mais bem iluminado já que as cortinas viviam fechadas, tinha dois andares e diversas estantes com diversos livros e algumas com pergaminhos, possuía uma mesa de carvalho no centro entalhada em si um mapa de todo o continente, incluindo as ilhas das sombras muito além do Norte, ilhas das quais Tanásia viera.

Eason Miraclyn estava sentado em frente a mesa de carvalho lendo um livro enquanto Príncipe Gregory lia um livro em frente a uma estante. Passavam a maior parte do tempo juntos na biblioteca, tanto que em baixo da escada havia uma cama para Eason não precisar andar tantas escadas até seu quarto.

— Gregory — Só quando ela chamou, foi que o príncipe notara sua presença ali — Saia.

— Sim, majestade — Gregory saiu da biblioteca não sem antes dirigir um olhar de preocupação para o avô. Rhanessy voltou seu olhar para o velho na mesa, sua pele era branca e enrugada, sua pálpebra móvel caia sobre seus olhos azuis os poucos fios de cabelo que lhe restavam eram completamente brancos. Usava uma simples túnica marrom com o broche da raposa de ouro branco em seu peito, simbolizando seu cargo de conselheiro real. Rhanessy e Gregory chamavam Eason de avô, mas ele já era avô de Cynthia, e conselheiro da rainha antes da Mãe de Rhanessy. Mas o velho não parecia ser notado Rhanessy, sua visão e audição já não eram muito boas. A rainha caminhou até o conselheiro real e colocou a mão sobre seus flácidos ombros.

— Vovô — Rhanessy chamou delicadamente.

— Pequena Nessy! — O velho deu um enorme sorriso banguela.

Rhanessy não ousou corrigi-lo, o velho também não tinha uma memória confiável nem sempre parecia são, e por diversas vezes achara que a Rhanessy e Gregory eram crianças ou que Rhanessy fosse Cynthia ou que fosse sua filha. — Eu escrevi uma história para você, Princesa — o ancião procurava entre pergaminhos na mesa, quando encontrou sentou-se com dificuldade em um sofá pequeno perto da mesa. — Creio que irá gostar dessa.

Rhanessy sentou do lado do avô, tirou sua coroa e colocou-a sobre a mesa. Ouviu seu avô contar a história de uma raposinha sapeca que teve que crescer muito rápido, por fim ela conquistou o que queria e seus amigos e ela viveram felizes para sempre. A rainha prestou atenção em toda a história com a cabeça no ombro de Eason, quando ele acabou ficaram em silêncio por um tempo.

 — Você teve que crescer muito rápido, pequena Nessy — O avô possuía olhos distante — A vida nem sempre é justa.

 — Porque não foi a reunião do conselho? Precisei do senhor. — Nessy sentiu-se uma criança de novo, ou apenas uma jovem de dezessete anos, que era exatamente o que ela era.

— Você sempre deixa o que os outros empreste sabedoria quando não a tem. — Eason fez uma pausa — Ser sábio é admitir que o outro as vezes tem um caminho melhor. Mas as vezes segue seu coração quando está decidida mesmo que todos estejam contra — Seu avô tirou uma mecha do cabelo de Nessy que caia sobre seu rosto — O que seu coração quer fazer, Rainha Rhanessy?

— Acho que se não aceitar ir a Goldencrown rei Rain pode dizer que tive medo — Rhanessy ainda não tinha ouvido seu coração, e nem pensado por si mesma sobre o convite do Rei ao norte, até agora — Se achar que tenho medo, vai achar que não tenho poder, se achar que não tenho poder sentira seguro para atacar.

 — Acha que Rain Bryant atacaria Thornicy?

— Não seria tolo, teria que ter navios para levar suas forças pelo mar Estige, e sabe que não conseguiria passar pela barreira de gelo e mesmo que passasse, seus soldados do verão não se dariam tão bem com o nosso clima. — Nessy fez uma pausa quando o Ancião segurou sua mão — Mas a campina de Cintralis está perto o suficiente, faz parte dos meus domínios e o clima não seria um problema.

— Permita-se seguir seus instintos, esse é meu último conselho real. — Sua neta o olhou confusa e ele soltou em sua mão o broche de raposa de seu cargo — É uma rainha excelente, Rhanessy Miraclyn, merece um conselheiro a altura.

— Não — Nessy disse de forma rápida e seca. — Não, me fez um juramento, até o final de sua vida.

— Que não deve demorar muito...

— Não. — Nessy sentiu-se uma criança tentando segurar as lagrimas insistentes, não queria admitir que seu avô estava velho, mas a verdade deixa um gosto amargo em sua boca. — Não é justo.

 — A vida não tem sido muito justa com você, Pequena Nessy, mas a rainha deve ser justa. — O Avô sempre parecia sábio, mesmo que as vezes não tão lucido — E não é justo com você, não consigo mais subir escadas como antes, tão pouco cumprir as obrigações de um conselheiro real e você sempre terá os conselhos desde velho enquanto me restar vida, mas deve escolher outra pessoa para o cargo... precisa.

Rhanessy o abraçou, sabia que ele tinha razão, sabia disso a muito tempo, mas não ousará admitir. Nessy abraçou seu avô, ele tinha cheiro de conhecimento, algo misturado com idade, livros e um pouco de mel, ficou em seus braços por um bom tempo. Não era mais rainha era apenas uma garotinha abraçando seu avô. Obrigou-se a sair do abraço caloroso de seu avô pegou a coroa que a esperava sobre a mesa e a colocou de volta em sua cabeça, sentindo-se novamente uma rainha e toda a responsabilidade que vinha com a coroa de gelo.

— Obrigada pelos serviços prestados a coroa, Eason Miraclyn. — A rainha fez uma reverencia em sinal de respeito, afinal, Eason já era conselheiro antes mesmo de sua mãe ser rainha — Seu serviço foi uma honra, para mim e para todos os reis e rainhas antes de mim. Rhanessy saiu em direção até a porta quando estava quase fechando ouviu seu avô a chamando.

— Mas uma coisa, Majestade — Eason sorriu para a neta — Acho que seria muito útil em um conselheiro real a capacidade de prever o futuro, não acha?

Capítulo 3

Os finos flocos de neve caiam sobre o jardim principal, poderia facilmente ouvir eles se derretendo antes de tocar ao chão, uma luz de sol fraco deva um brilho místico aos jardins do palácio do inverno, fazendo com que as finas camadas de neve refletissem, as pequenas gotículas de orvalho congeladas refletiam formando pequenos arco-íris ao serem tocadas pela luz solar.

 Tanásia não havia nascido em Thornicy e embora achasse que nunca iria se acostumar ao frio não poderia negar o quanto a ilha era bonita, tinha um certo ar místico como se fosse condenada a ser sempre bela e fria. Tanásia olhava para os detalhes da estátua "morte da besta" havia musgo crescendo no topo da estátua e algumas partes estavam com neve que caíra a noite, mas a água fria do Mar Estige corria livre sem um único sinal de congelamento, dizem que água do Estige é mais fria que o próprio gelo, mas que nunca pode ser congelada, também dizem que este mar é responsável pelo inverno eterno em Thornicy, porém Tanásia não achava que seria por isto.

 — Pareço bem grandiosa na estátua, não é mesmo?

Rhanessy descia as escadas de mármore vindo em direção a Tanásia, Layka estava ao lado da rainha que estava vestida para a audição que seria em algumas horas. Rhanessy tomara o cuidado de parecer uma rainha, usava um vestido longo e rodado azul escuro, alguns detalhes bordados em azul claro e dourado, usava luvas de cetim douradas, seus cabelos negros como o breu estava solto com algumas tranças envoltas em fio de ouro, usava joias caras e chamativas de safira e sua coroa de cristal reluzia a fraca luz solar do jardim.

— Sempre quis te perguntar como matou a fera, minha rainha — Tanásia disse quando a rainha estava ao seu lado, tão próxima que podia sentir seu perfume adocicado enquanto a ursa-das-neves saiu correndo para brincar com a pouca neve que tinha na grama. — Acho que nunca ouvi a história de você.

— Não a conto porque a verdade tende a ser decepcionante — Rhanessy olhou para a estátua com um certo desdém — Todos esperam uma luta épica e heroica, mas na verdade eu não me lembro com tantos detalhes, lembro de uma dor lancinante na perna e de perder os sentidos, cai no chão como uma corça indefesa e vi a Manticora saltando em minha direção, ergui a espada com o pouco de força que me restou, a fera estupida fez o resto caindo sobre a espada e eu fiquei desacordada, achei que tivesse morrido, mas quando eu acordei estava viva e me chamavam de Ceifadora da última Manticora, acho que enfeitaram de mais a história.

 — Às vezes as pessoas vêm o que querem ver, majestade.

— Na maior parte do tempo. — Rhanessy voltou a olhar para sua amiga, seus cabelos cor de fogo estavam livres e os cachos altos e volumosos faziam o rosto de Tanásia parecer mais jovem, usava um vestido simples rosa pastel e um batom preto, seu olho cego a fitava a rainha a fazendo ficar desconfortável.

— Quero que seja minha nova conselheira real — Rhanessy falou de forma curta e fria olhando para Layka rolando sobre o gramado.

— Seria uma honra majestade — Tanásia se ajoelhou de imediato.

— Levante-se — A rainha dizia de forma indiferente — Não é honra nenhuma é trabalho. — É claro, majestade. — Tanásia havia ficado um pouco envergonhada.

— Estou te pedindo para governar ao meu lado — Não parecia haver uma gota de sentimento na voz de Rhanessy — Um trabalho chato, cansativo e pode ter certeza que não é gratificante, você aceita?

— Sim, minha rainha — Tanásia abaixou a cabeça em sinal de respeito — Juro que irei...

 — Guarde seus juramentos para o dia da celebração — Rhanessy a interrompeu — Estarei ocupada com os preparativos da viagem a Goldencrown, significa que organizara tudo sozinha, deve ser antes da viagem então o prazo é curto, envie convites para todos os malditos nobres, mas os portões do castelo devem ficar aberto para todos e organize da forma que quiser.

— Certo, Majestade.

— Mais uma coisa. — Rhanessy olhou bem para sua nova conselheira real — Estamos sozinhas, não precisa me chamar toda hora de majestade. — Talvez prefira Nessy — Tanásia disse com um sorriso amigável.

— Só se quiser ir a seu baile sem cabeça. — Rhanessy deu uma leve gargalhada, mas seu coração apertou um pouco, não via Colin a uns dias, desde aquele dia que Sir Arthur lhe deu a rosa. — Layka, aqui.

 A ursa parecia relutante em sair do jardim, mas quando viu com seus grandes olhos dourados Rhanessy se afastar correu para acompanhar sua humana. Tanásia acompanhou as duas adentrarem no palácio, com seu olho cego conseguia ver a ligação de afeto que unia a rainha e sua ursa e estremeceu ao lembrar-se do lorde que viria para as audições para exigir a cabeça de Layka.

Rhanessy sentiu todos os olhares em si enquanto descia cuidadosamente a escadas que levariam a sala do trono, Layka caminhava ao seu lado silenciosa como sempre abrindo caminho entre todos ali presentes que faziam reverencia para a rainha quando ela passava por eles, havia pequenos degraus até o seu trono e ela esperou que Lorde Harris a anunciasse.

— Estão perante Rhanessy herdeira da família Miraclyn, rainha de Thornicy e do mar Estige, protetora da Campina Cintralis e Ceifadora da última Manticora.

— Seu tio fez uma pausa e continuo após Rhanessy sentar em seu trono de espinhos de cristais, Layka deitou no chão próximo ao trono. — Estão todos aqui livres pera pedirem o que quiserem sua majestade, ela os ouvira e avaliara, lembrando que estão sobre juramento de dizer a verdade é um grande crime mentir para sua rainha.

Stevan Harris chamou o que seria o primeiro caso: Lorde Davies era dono de uma mina importante e senhor do Vale da lua, começou a bajular Rhanessy, mas ela não deu importância, seus olhos estavam em outra pessoa.

— Onde você estava? — Rhanessy sussurrou delicadamente de forma que só Colin que estava ao seu lado direito ouviu.

— Onde sempre estive, Majestade — Colin não olhou para a rainha quando falou.

— Faz três dias que não te vejo! — Rhanessy acenou com a cabeça para parecer que prestava atenção na acusação de Davies contra seus vassalos.

— No entanto não faz tanto tempo assim que eu te vi, minha rainha. — Colin sorriu e Rhanessy teve que apertar bem forte os cristais de seu trono para manter-se imparcial — Mas se soubesse que vossa majestade sofria tanto com minha ausência jamais a teria torturado desta forma tão cruel.

Rhanessy sorriu involuntariamente e fechou o rosto de imediato quando viu que Lorde Davies a olhava estranho, voltou a prestar atenção em seu dever.

— Longe de mim duvidar de sua palavra Lorde Davies — Rhanessy tentava não parecer sarcástica, mas não havia se afeiçoado pelo senhor do Vale da Lua — Mas não espera que condene seus vassalos só porque o senhor diz que são culpados né?

Lorde Davies a olhou como se a rainha o tivesse insultado, talvez a rainha antes de Rhanessy teria condenado vassalos camponeses apenas por um lorde dizer que são culpados, mas a rainha atual precisava de um pouco mais que isso.

— Tenho certeza que alguns dos vizinhos próximos devem ter visto algo, interrogue-os e terá sua prova, majestade — Lorde Davies disse de forma confiante.

 "Terei testemunhas manipuladas, você quer dizer" Rhanessy teve vontade de falar, mas achou que talvez não seria próprio de uma rainha.

— Majestade, poderia dar meu depoimento em minha defesa? — Uma mulher deu um passo à frente, parecia ter uns cinquenta anos e usava roupas maltrapilhas, sua pele parecia ressecada e a mulher parecia cansada — Meu nome é Marisa, peço desculpas pela ausência do meu filho mais velho responsável pela fazenda, mas sua noiva esta gravida e não deve demorar muito a ter o bebê, e meu filho mais novo esta doente com uma febre terrível, de forma que eu vim defender minha família da acusação de Lorde Davies.

— Como você declara sua família, Marisa? — Rhanessy perguntou, tentando não demonstrar a pena que sentira da mulher.

— Inocente, Majestade — Marisa olhou para Lorde Davies e depois para o chão de mármore desprovida de coragem — Minha família tem tido um lucro a mais nos últimos meses, mas não é grassas ao roubo, isto eu lhe juro. Meu filho mais velho está dirigindo muito bem a fazenda, neste caderno tenho anotado todas as nossas financias, trouxe para vossa majestade ver que somos inocentes!

Marisa estendeu a mão que segurava o caderno de couro curtido e Rhanessy fez um sinal para ela se aproximar, quando a rainha pegou o caderno da mão da mulher viu que ela tremia e suava muito.

 — Pedirei ao meu próprio contador real para avaliar suas finanças, Marisa — Rhanessy entregou o livro ao tio — Também mandarei alguém falar com os moradores das proximidades e um medico para avaliar a doença de seu filho mais novo. Tomarei um veredito sobre o caso quando for possível.

— Muito obrigada, Majestade — Marisa se ajoelhou e tinha lágrimas nos olhos, provavelmente pelo seu filho mais novo doente. Seu tio trouxe o próximo caso: Uma mulher vinda do Norte com um recém nascido no colo, era muito pobre e veio em busca de uma vida melhor em Thornicy, Rhanessy pediu a Madame Alene, governanta do palácio, para arrumar um emprego e um quarto para a moça no palácio. Rhanessy sempre perdia a conta dos casos que resolvia ou prometia resolver, de modo que sempre ficava impaciente para terminar logo, mas ouvia sempre com atenção e tentava aplicar seu senso de justiça sempre, mesmo com Colin tentando distrai-la. Estava exausta quando seu ultimo caso foi anunciado. Mett Hughes lorde do Vale da Aurora, buscando justiça pelo ataque da fera selvagem Layka. A ursa rosnou quando viu o homem e a rainha fez carinho atras das orelhas para acalma-la, Rhanessy pediu para que ele contasse como tudo aconteceu.

— Eu estava em um corredor próximo ao salão principal, Majestade — Mett estava ajoelhado e parecia uma ave ferida com o braço todo engessado — Quando o urso selvagem me atacou, eu gritei por ajuda e graças a Lorde Colin estou vivo, mas carregarei as marcas do ataque da fera para toda a vida, os curandeiros dizem que não tenho mais movimentos nos braços.

— Então afirma que Layka o atacou sem nenhum motivo? — Rhanessy perguntou farta dos dramas do Lorde.

— Sim, majestade — Mett parecia tão confiante que qualquer um julgaria ser verdade.

Mas Rhanessy só se importava com o julgamento de uma pessoa, sobre ser verdade ou não. A Rainha olhou para sua conselheira da sabedoria e futura conselheira real que estava a sua esquerda.

 — Está mentindo — Tanásia disse de forma dura e fria ao olhar bem na alma de Mett.

— Majestade juro que o que estou dizendo é a mais pura... — Lorde Hughes tentou dizer de forma suplicante.

— Mentira — Tanásia o interrompeu

— Lorde Colin pode nos contar o que viu? — Rhanessy pediu e Colin veio a frente do trono.

 — Eu estava fazendo uma ronda quando ouvi os gritos — Colin começou

— Mentira — Tanásia disse sem uma única expressão no rosto, como se estivesse em transe.

— Estava apostando em jogo de carta — Colin corrigiu sorrindo para Rhanessy — quando ouvi os gritos fui ajudar o nosso lorde aqui, acalmei a Layka e vi minha irmã Zarina no local, ela chorava e quando me viu saiu correndo. Rhanessy esperou a confirmação de Tanásia de que era verdade e chamou por Zarina para depor, a jovem estava assustada e tremia, Rhanessy pediu que ela contasse sua versão e sua criada ficou calada por vários minutos, parecia tentar falar, mas sua voz se perdia no enorme salão.

— Eu estava indo para meu quarto — Zarina olhava para o chão e sua voz tremia junto com ela — quando cruzei com lorde Hughes... e-ele pós a mão dentro da minha saia... Disse que não podia gritar... q-que ele acabaria com minha vida... e que ninguém ia acreditar em mim, que era só uma criada. — A voz estridente da jovem misturada com seu choro era de cortar o coração de Rhanessy — Eu fechei os olhos... a-acho que gritei... tinha tanto sangue e a Layka estava em cima dele e eu voltei correndo para meu quarto. Foi tudo tão rápido.

 Rhanessy olhou para Tanásia que consentiu com a cabeça, quando Mett viu isto começou a se ajoelhar.

— Majestade, juro que nunca a toquei — Ele estava nervoso e desconsertado, provavelmente sem crer no rumo que sua audição levara.

— Mentira — Tanásia olhava o lorde com nojo.

— Estava bêbada, minha rainha — Parecia ainda mais desconsertado enquanto ajoelhava. — Não tinha intenção de fazer mal a sua criada.

— Mentira — Tanásia olhava para a rainha esperando sua ação, conseguia ver os horrores que ele faria com Zarina se Layka não o tivesse atacado.

 Rhanessy levantou de seu trono e começou a descer lentamente os degraus até onde lorde estava.

— Eu imploro por sua misericórdia, minha rainha — Lorde Hughes ajoelhava e chorava completamente apavorado e havia molhado sua calça.

"Você daria misericórdia a Layka ou a Zarina?" Rhanessy pensou enquanto se aproximava do lorde.

 — Pelo crime de tentativa de estupro eu o declaro culpado e lhe destituo de todos os seus títulos e terras, passando o Vale da Aurora para seu herdeiro legitimo. — Rhanessy falava baixo e todos no salão se calaram para ouvi-la — Pelo crime de falsa acusa eu o declaro culpado e o sentencio a um ano nas masmorras do Palacio. — Majestade, por favor... — Seu tio tentou intervir, era costume dele defender o interesse da nobreza. — Talvez haja outra forma de punir lorde Hughes, afinal é apenas uma cria...

 — Guardas! — A rainha chamou e dois guardas seguraram o então destituído lorde Hughes — Minha espada.

Pieter Harris trouxe a espada da rainha e a entregou. Rhanessy apoiou-se com a espada virada para baixo fechou os olhos e fez uma prece rápida a qualquer deus que a quisesse ouvi-la.

— E pelo crime de mentir para sua rainha eu o sentencio a morte — Com um único golpe da lâmina Rhanessy pintou o chão de mármore antes branco para vermelho.

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