Capítulo 2

O garçom, alheio à tempestade que se formava sob a superfície, empurrou o bolo para mais perto. Seu cheiro de baunilha, geralmente um conforto, agora parecia enjoativo, sufocante. Clara, coitada, tentou injetar um pouco de alegria. Ela acendeu as velas, suas pequenas chamas tremeluzindo fracamente contra a luz fraca do restaurante.

"Faça um pedido, Elisa!", ela cantou, a voz um pouco aguda demais, um pouco forçada demais.

Léo ergueu sua taça, a mão tremendo levemente. "Para a Elisa. Feliz aniversário."

Clara acrescentou rapidamente: "E para muitos outros aniversários juntos! Estaremos sempre aqui, Elisa, sempre." Seus olhos correram para Léo, depois rapidamente de volta para mim, uma súplica desesperada por reafirmação em seu olhar.

Eu sorri, um sorriso frágil, quebradiço. "Sempre", ecoei, a palavra uma piada vazia.

Fechei os olhos, o calor das chamas das velas um contraste gritante com o gelo em meu peito. Meu desejo não era para mim. Era para eles. Sejam felizes. Sejam livres. Não carreguem esse fardo por minha causa.

Soprei as velas. Uma nuvem de fumaça subiu, obscurecendo momentaneamente seus rostos, borrando suas feições em formas indistintas. Parecia simbólico, um adeus nebuloso às pessoas que eu conhecia.

Este aniversário não foi como os outros. Não havia alegria avassaladora, nem risadas fáceis. Cada momento parecia pesado, esticado ao limite, prestes a se romper.

Clara esticou o braço sobre a mesa para pegar um garfo, sua mão roçando na de Léo. Ele se encolheu, puxando a mão para trás rápido demais, derrubando sua taça de vinho. Um caco de vidro arranhou seu pulso.

"Ah, Léo!", gritou Clara, a voz cheia de alarme genuíno. Ela imediatamente pegou a mão dele, seus dedos traçando o pequeno corte, o rosto contorcido de preocupação.

Seus olhos se encontraram, uma linguagem silenciosa passando entre eles, uma ternura crua que me contornou completamente. Então, como se lembrassem que eu estava ali, ambos olharam para mim, seus rostos uma tela de culpa e apreensão.

Eu encarei o bolo, sua cobertura perfeita agora manchada com minhas lágrimas não derramadas. O bolo. Sempre fora a peça central dos meus aniversários, um símbolo de pertencimento. Por anos, eu não tive um bolo de aniversário de verdade. Léo e Clara mudaram isso. Eles me deram tantas coisas que eu nunca pensei que teria. Uma família. Um lar. Amor. E agora, eu estava devolvendo tudo. Porque esse era o amor supremo, não era? Deixar ir.

Meu desejo, aquele para o qual eu apaguei as velas, ecoou em minha mente. A felicidade deles. A liberdade deles. Repeti como um mantra, tentando me convencer de que era o suficiente.

Uma única lágrima traçou um caminho pela minha bochecha, mas eu rapidamente a enxuguei, substituindo-a pelo meu sorriso ensaiado. "Vamos cortar o bolo!", exclamei, minha voz um pouco brilhante demais. "Está ficando tarde."

Eu queria ir embora. Eu queria correr.

Naquele momento, meu celular vibrou no meu bolso. Um novo e-mail. Eu o peguei discretamente.

Programa de Pesquisa Antártica da USP. Assunto: Parabéns, Elisa Santos!

Meu coração deu um salto, uma confirmação fria e clínica da minha rota de fuga. A vaga de pesquisa ambiental remota, de vários anos. Era tudo real. Estava acontecendo.

Lembrei-me da entrevista, das perguntas intermináveis sobre minha resiliência, minha capacidade de lidar com o isolamento. Eu tinha uma vida inteira de experiência nesse departamento. A Antártida, com seu vazio vasto e implacável, parecia o lugar perfeito para desaparecer. Para me tornar apenas uma cientista, não um fardo, não uma complicação.

Respondi rapidamente: "Aceito." Meus dedos, embora trêmulos, se moveram com uma estranha certeza.

Por um breve e agonizante momento, meu polegar pairou sobre o botão de enviar. Uma centelha de dúvida, um fantasma de uma memória, puxou meu coração. Eu queria voltar aos velhos tempos, ao amor puro e descomplicado.

Meus olhos caíram no meu notebook, ainda aberto na mesa de Léo. O antigo aplicativo de diário. Cliquei nele novamente, inconscientemente, buscando consolo no passado.

A interface era antiga, familiar. Nosso "Diário do Amor", Léo o chamava. Percorri as entradas antigas, seus poemas brincalhões, minhas confissões tímidas.

"Elisa, meu raio de luar", dizia uma entrada de Léo, "Você torna meu mundo mais brilhante que todas as estrelas. Para sempre seu."

Um sorriso frágil tocou meus lábios, uma memória de um amor que parecia tão real, tão verdadeiro. Fechei os olhos, deixando o calor fantasma me invadir.

Capítulo 3

Deslizei o dedo pela tela, esperando mais das palavras familiares e reconfortantes. Mas então, uma nova seção apareceu, um bloco de texto austero e não lido na parte inferior. Meu sorriso vacilou. A data era recente. Muito recente. Isso não era uma entrada antiga. Isso era... atual.

Um arrepio percorreu minha espinha. Meus dedos, agora dormentes, rolaram mais rápido.

Era a voz de Léo, mas não seu tom confiante de sempre. Estava crua, vulnerável, lutando com algo novo. Ele descrevia Clara. Sua risada. A maneira como ela se movia no palco. O jeito que seus olhos brilhavam quando ela falava sobre dança. Ele estava se apaixonando, perdidamente, e estava apavorado.

As entradas continuavam, uma descida cronológica na traição. Sua confusão se transformando em certeza. Sua culpa se transformando em um desejo desesperado por ela. E as respostas de Clara, escondidas na seção de comentários, igualmente conflitantes, igualmente apaixonadas.

Lembrei-me das saídas repentinas que eles começaram a fazer, dos "ensaios de dança" que duravam até tarde da noite, da maneira como seus olhos se encontravam do outro lado da sala, mantendo uma linguagem secreta que eu não havia entendido. Lembrei-me das vezes em que me senti como um pensamento tardio, uma sombra em sua órbita vibrante. Eu havia descartado isso, culpando minhas próprias inseguranças, mas a evidência agora era gritante, berrando para mim da tela.

Eu tinha sido tão ingênua, tão cega. A garota quieta dos abrigos, sempre esperando o pior, mas de alguma forma perdendo os sinais mais óbvios de seu mundo desmoronando ao seu redor.

A última entrada era de ontem. Léo escreveu: "Não consigo mais fingir. Vou contar para a Elisa amanhã, no aniversário dela. É cruel, mas é mais cruel continuar mentindo. A Clara merece saber que eu a escolho. A Elisa merece a verdade."

A tela piscou. Meu celular vibrou, vibrando violentamente na mesa. Léo. Seu nome brilhou, um branco forte contra a tela escura.

Encolhi-me, um tremor percorrendo meu corpo. Suor frio brotou na minha pele. A verdade, crua e feia, estava exposta. Eu sabia, não sabia? No fundo, naquele lugar quieto e inseguro, eu sempre soube que isso estava por vir. Foi por isso que procurei meu orientador, foi por isso que sempre mantive uma pequena parte de mim mesma guardada, pronta para recuar.

O telefone tocou novamente, insistente. Ele estava ligando para me contar. Para quebrar meu coração, calmamente, deliberadamente, no meu aniversário. Eu não conseguia encarar. Não suportaria ouvir aquelas palavras de seus lábios, ver a pena em seus olhos.

Minha mão voou para o notebook, pressionando 'enviar' no contrato da USP. Estava feito. Irrevogável.

Por favor, rezei, uma súplica silenciosa a um deus sem nome, não o deixe me encontrar. Deixe-me ir em silêncio. Deixe-os serem felizes.

O telefone continuou seu protesto estridente, um som irritante e agudo. Peguei-o, sem atender, e joguei na cama. Então, enterrei meu rosto nos travesseiros, abafando o mundo, abafando a dor. O toque lentamente desapareceu, substituído pelo rugido ensurdecedor do meu próprio coração partido.

A verdade doía mais do que qualquer mentira. Queimava, marcando minha alma. Era isso. O fim da minha família encontrada, o fim da minha história de amor. As lágrimas vieram, quentes e furiosas, encharcando meu travesseiro, um adeus silencioso a uma vida que agora estava perdida para mim.

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