Ponto de Vista de Sofia:
O sono era um sonho febril. A prata era um anel de fogo, reabrindo constantemente a ferida enquanto meu sistema imunológico tentava e falhava em curá-la.
Mas a dor física era uma distração do ruído psíquico.
A parede não era à prova de som contra o Elo Mental.
Mesmo rejeitada, a conexão biológica permanecia.
Deitei no chão frio.
Ouvi a cama ranger no quarto ao lado. A risada de Isabella.
Então, a onda me atingiu.
Uma onda psíquica de prazer. A excitação dele, sua liberação, inundando minha mente como gordura quente.
Corri para o banheiro e tive ânsia de vômito.
Ele estava com ela. E o Laço estava me forçando a assistir.
Saia, eu rezei. Saia da minha cabeça.
Na manhã seguinte, eu era um fantasma. Minha pele estava cinza, meus olhos fundos em órbitas arroxeadas. Vesti uma gola alta para esconder as queimaduras, o tecido raspando a pele em carne viva a cada respiração.
Fui para a cozinha. Isabella estava tomando um expresso.
"Dormiu bem?", ela perguntou. "Nós estivemos... ativos."
"Como os mortos", grasnei. Minhas cordas vocais estavam inchadas pela exposição à prata.
Dante entrou. Ele parecia energizado, praticamente vibrando com o poder de Alfa. Ele me viu e franziu a testa. Ele sentiu o cheiro da carne queimada — ele tinha que sentir. Mas escolheu ignorar.
"Passaporte", disse ele. "E identidade."
"Por quê?"
"Atualizando o registro da Alcateia. Já que você está... se mudando para os aposentos de hóspedes."
Despejada.
"Tudo bem", eu disse. "Vou para o centro renovar meus documentos de qualquer maneira."
Os olhos de Dante se estreitaram. A possessividade explodiu. "Por quê? Com quem você vai se encontrar?"
"Ninguém."
"Se eu sentir o cheiro de outro macho em você", Dante rosnou, invadindo meu espaço, "eu vou arrancar a garganta dele. Você é Propriedade da Alcateia."
"Eu não sou propriedade!"
"Você é o que eu digo que você é!" Ele bateu a mão no balcão. O granito rachou.
Ele pegou o celular. "Olhe."
Instagram. Uma foto da noite anterior. Ele e Isabella. Legenda: Minha força. Meu futuro. Minha Luna.
Milhares de curtidas. O mundo dos lobisomens aplaudindo meu funeral.
Olhei para ele. O homem que segurou meu coração e apertou até estourar.
Peguei meu celular. Com as mãos trêmulas, abri os comentários.
Digitei uma frase.
Reis também caem.
Ele me ensinou essa frase quando eu tinha doze anos. Ele disse que significava que o poder é passageiro.
Apertei enviar.
Então, fiz o impensável.
Concentrei-me no fio dourado em minha mente. O Laço de Companheiros.
Não, minha loba gritou. Suicídio!
Melhor morta do que isso.
Visualizei um par de tesouras.
Fechei-as com força.
SNAP.
Parecia um aneurisma. Uma agonia branca e quente explodiu atrás dos meus olhos. Arfei, sangue jorrando do meu nariz.
Dante cambaleou para trás, agarrando o peito. A cor sumiu de seu rosto. Ele sentiu o vazio. O silêncio súbito onde eu costumava estar.
"O que você fez?", ele sussurrou.
Limpei o sangue do meu lábio. O zumbido constante de sua presença havia sumido. Estava quieto.
"Eu te libertei, Alfa", eu disse. Voz morta.
Saí.
Fui direto para o galpão do jardim. Encontrei o pote de pasta de acônito. Venenoso para lobos. Em pequenas doses, mascara o cheiro. Em grandes doses, mata.
Eu precisava desaparecer.
A festa de aniversário dele era em dois dias.
Era quando eu iria fugir.
Os pesadelos estavam ficando criativos. Dante como um lobo, lambendo minha mão, sua língua arrancando a carne dos meus ossos.
Acordei gritando em silêncio. A coleira estava me sufocando, a infecção se espalhando.
Dois dias restantes. Eu tinha que higienizar minha existência.
Lobos fazem ninhos. Acumulamos coisas que cheiram como nossos entes queridos. Meu quarto era um santuário para Dante. Suéteres velhos, livros, flores secas. Âncoras.
Eu tinha que cortar a corda.
Arrastei um saco de lixo preto escada abaixo. Tum. Tum.
"Indo a algum lugar?"
Dante estava parado perto da porta, uísque na mão. Ele parecia diminuído. Desde que cortei o laço, ele estava perdendo energia.
"Levando o lixo para fora."
"Cheira a... mim." Ele se aproximou. "Roubando minhas coisas? Construindo um ninho em outro lugar?"
Sua arrogância era uma doença. Ele achava que eu estava roubando suas roupas para cheirá-las em segredo.
"Verifique."
Ele hesitou. Ele não queria ver meu desespero.
"Queime", ele disse aos guardas.
"O quê?"
"Você quer que suma? Vamos fazer direito." Ele abriu a porta. "Leo! Toca fogo nisso."
Leo arrastou o saco para a fogueira.
Dante ergueu a mão. Uma bola de Fogo de Alfa cintilou em sua palma. Ele a jogou.
Whoosh.
Observei minha infância queimar. O ursinho de pelúcia. O diário. O suéter que cheirava a segurança.
"Eu fiz os arranjos", disse Dante, com os olhos nas chamas. "Um internato na Suíça. Você parte na próxima semana."
"Exílio", eu ri. Seco, rachado.
"Segurança", ele recitou. "Isabella... ela é territorial. Se você ficar, ela vai te machucar. E eu não posso... não posso te vigiar 24 horas por dia."
"Você quer dizer que não suporta a culpa."
Ele se virou, os olhos em chamas. "Estou salvando sua vida! Você é fraca! Você é uma Ômega sem lobo! Você não pode sobreviver a este mundo sem mim!"
"Você está certo", sussurrei. "Eu não consigo sobreviver com você."
Ele se encolheu.
"Vá para o seu quarto. Fique lá até a festa."
Eu me afastei.
Ele não sabia que acabara de me fazer um favor. Um lobo sem ninho é um Renegado.
E Renegados não têm mais nada a perder.
Ponto de Vista de Sofia:
A noite da Gala foi apocalíptica. Uma tempestade vinda do Atlântico. Chuva como balas.
Perfeito.
Eu estava na cozinha, vestida de empregada. Invisível.
Ouvi Dante na biblioteca com Guilherme, seu Beta.
"Ela está agindo de forma estranha, Dante. Quieta demais. E aquela coleira... o pescoço dela está apodrecendo."
"Ela está bem", Dante descartou, embora sua voz estivesse tensa. "Apenas emburrada."
"Será?", Guilherme perguntou. "Ou ela está quebrada? Dante, ela é sua-"
"Não diga!", Dante rugiu. "Ela é uma criança humana e fraca! Se eu a reivindicar, os Anciões a despedaçarão! Estou fazendo isso para protegê-la!"
"Você está a protegendo até a morte", disse Guilherme.
Saí para o terraço.
Isabella estava no centro das atenções em um vestido vermelho-sangue. Ela me viu e sorriu com desdém.
Ela se aproximou, fingiu um tropeço e derramou seu vinho em mim.
"Ops", ela riu. "Olhe para você. Limpando a bagunça. Combina com você."
Ela me empurrou. Com força.
Escorreguei na pedra molhada e caí para trás, na lama e na chuva.
Dante saiu correndo.
"O que aconteceu?"
"Ela me empurrou!", Isabella chorou. "Ela tentou me atacar!"
Dante olhou para mim, tremendo na lama, a coleira brilhando. Ele sabia que ela estava mentindo.
Mas ele era o Alfa. Ele não podia ficar do lado da serviçal contra a Luna.
"Levante-se", ele latiu. "Suma da minha vista."
Ele tirou o paletó.
Meu coração fez uma coisa estúpida e esperançosa.
Ele o envolveu em torno de Isabella.
"Vamos entrar, amor."
Eles viraram as costas.
Fiquei deitada na lama. O frio se infiltrando na medula.
Bzzzz.
Meu celular descartável.
Fronteira aberta. Setor 4. Meia-noite.
23:00.
Levantei-me.
Uma onda de calor me atingiu. Não era a prata. Era interno.
Meu sangue ferveu. Ossos rangeram. Minha visão se aguçou, rastreando gotas de chuva individuais.
Minhas unhas se alongaram em garras.
Agora não.
Mas minha loba não estava mais se escondendo. Ela estava acordando.
A febre aumentou. Eu não estava tremendo de frio; estava tremendo de poder.
"Feliz aniversário, Dante", sussurrei.
Corri para a floresta.
Eu não corri como uma humana. Movi-me com uma velocidade impossível.
Eu estava correndo em direção aos Renegados.
Eu não era mais Sofia, a órfã. Eu era a tempestade.
A lama estava escorregadia, mas eu não caí.
Eu havia esfregado a pasta de acônito nos meus pulsos e tornozelos. Anestesiou minha pele e deixou minha loba lenta, mas para as patrulhas, eu cheirava a musgo molhado.
Cheguei à cerca do perímetro. Quatro metros de altura, eletrificada.
Eu conhecia o ponto fraco. Coelhos cavavam sob a fundação perto do cano de drenagem.
Rastejei pela lama. O concreto arranhou minhas costas.
Saí do outro lado.
Liberdade.
Um sedan preto esperava na estrada de acesso.
Corri. Minhas pernas queimavam com a febre da transformação.
Uma sombra se destacou das árvores.
Um lobo.
Guarda de patrulha. Uma besta marrom enorme, rosnando, bloqueando meu caminho.
Ele se agachou. Ele me reconheceu. O animal de estimação do Alfa.
Ele abriu as mandíbulas para uivar.
Não.
Eu não me encolhi.
Parei. A febre subiu mais quente que a prata.
"Saia", eu disse.
Não foi um grito. Foi uma vibração. Imitei o tom que Dante usava quando comandava as legiões. Joguei cada grama da minha raiva reprimida na minha aura.
Uma onda de energia explodiu para fora.
O lobo marrom congelou. Ele choramingou. O instinto superou o dever. Confrontado com a frequência de um predador superior, ele se submeteu.
Ele recuou, com o rabo entre as pernas, a barriga na lama.
Não questionei. Mergulhei no carro.
"Vai!"
Aceleramos em direção à rodovia.
Atravessamos a fronteira territorial.
Deixar uma Alcateia não é como cruzar fronteiras estaduais. É uma amputação espiritual.
Snap.
"Argh!", arfei, agarrando meu peito.
O gancho foi arrancado da minha alma. O zumbido de fundo da Alcateia desapareceu.
Silêncio. Frio, silêncio solitário.
Mas então... oxigênio.
Pela primeira vez em dez anos, eu podia respirar.