Capítulo 2

Ponto de Vista de Alice Lobo:

Caio não disse uma palavra sobre o divórcio por dias. Ele apenas me observava, uma presença silenciosa e sombria em nossa casa em ruínas, como se minhas palavras não tivessem cortado o ar. Era quase pior do que a raiva dele. O silêncio. A antecipação.

Então, os telefonemas começaram. Não dele. Da minha mãe.

— Alice, que absurdo é esse sobre divórcio? — A voz dela, estridente e carregada de veneno, arranhou meus nervos em carne viva. — Você perdeu o juízo? O Caio é um partidão! Um milionário! Você acha que pode simplesmente jogar isso fora?

Apertei o telefone com mais força.

— Ele me traiu, mãe. E eu perdi o bebê por causa dela.

— Um bebê pode ser substituído! — ela gritou, as palavras um golpe de marreta no meu peito. — Mas um marido como o Caio? Nunca! Se você se divorciar dele, juro por Deus, Alice, eu vou... eu vou acabar com tudo. Seu pai e eu, não sobreviveremos à vergonha!

Meu pai, ao fundo, interveio com sua habitual submissão covarde.

— Sua mãe está certa, querida. Pense em nós. Pense na nossa reputação. O que as pessoas vão dizer?

Caio estava parado na porta, ouvindo, um leve sorriso presunçoso brincando nos lábios. Ele não interveio. Ele não me defendeu. Ele simplesmente deixou meus pais me despedaçarem, usando as ameaças deles como alavanca, um cúmplice silencioso na chantagem emocional deles.

— Deus, Alice, por que você simplesmente não mandou eles pro inferno? — perguntou Camila agora, a voz tensa de frustração enquanto estávamos sentadas no banco de trás do carro preto elegante de Caio. Ele insistiu em nos levar para casa, e Camila, sempre pragmática, aceitou para evitar uma cena. A postura rígida dele ao volante era quase cômica, um contraste gritante com seu comportamento suave anterior.

— Você não entende, Camila — suspirei, esfregando as têmporas. — Você não tem pais como os meus. Eles não teriam simplesmente "deixado pra lá". Eles teriam feito da minha vida um inferno. Eles teriam ido a público. Eles teriam destruído tudo.

Lembrei-me das inúmeras vezes que tentei deixá-los orgulhosos. As noites estudando, as notas perfeitas, a empresa de design de interiores de prestígio que construí do zero. Nunca foi o suficiente. Apenas Caio, sua riqueza, seu status, pareciam satisfazer a ganância insaciável deles. Ele era a "vaca leiteira" deles, como minha mãe colocou tão delicadamente. Eu era apenas o recipiente.

— Ele me prometeu o mundo, sabe — murmurei, as palavras com gosto amargo. — Antes do casamento. Ele disse que tinha encontrado sua alma gêmea. Que me protegeria de tudo, até da minha própria família.

Camila zombou.

— E que ótimo trabalho ele fez.

Minha memória vagou para uma noite fria de inverno, pouco depois de nos casarmos. Eu tinha chegado tarde de um projeto, exausta. Caio já estava na cama. Quando tentei me aconchegar, ele recuou.

— Alice — disse ele, a voz monótona. — Você engordou. Você não está tão... radiante como costumava ser. Não é atraente.

As palavras pareceram gelo nas minhas veias, frias e cortantes, uma contradição gritante com os doces sussurros de amor que ele proferira poucos meses antes.

Um arrepio repentino percorreu meu corpo, apesar do calor do carro. O ar condicionado estava no máximo, mas parecia um pavor frio.

— Você está bem? — A voz de Caio cortou meus pensamentos. Ele encostou o carro no meio-fio, a preocupação gravada em suas feições. Ele se virou para trás, um gesto quase terno, para ajustar a saída de ar. Os dedos dele roçaram meu braço.

Uma parte de mim, a parte velha e ferida, queria se inclinar para aquele toque fugaz, acreditar na ilusão de cuidado. Mas a nova Alice, forjada no fogo, sabia melhor. O toque dele parecia uma mentira. Um ato calculado.

Lembrei-me de outro momento, depois de termos nos reconciliado de um de seus "erros" anteriores. Ele se ajoelhou diante de mim, os olhos cheios do que pareciam lágrimas. "Alice, você é meu tudo. Não posso viver sem você. Vou te amar para sempre." Essas palavras foram tão doces, tão convincentes. Assim como as que ele sussurrou no ouvido de Bia, provavelmente.

Então, pouco antes da traição final, ele rosnou para mim: "Você é tão ingênua, Alice. Você realmente achou que eu ficaria com apenas uma mulher, quando o mundo está aos meus pés? Você é chata. Ela é excitante." A memória era uma ferida purulenta, ainda capaz de me fazer estremecer.

Puxei meu braço bruscamente, quebrando o contato.

— Estou bem, Caio. Só com frio.

A mão dele pairou no ar por um momento, depois caiu no volante. Um lampejo de algo, decepção talvez, cruzou o rosto dele antes que ele o mascarasse. Ele suspirou, um som pesado e teatral.

— Você sempre amou chocolate quente depois de um longo dia — disse ele, a voz mais suave, quase nostálgica. — Com chantilly extra. Eu me lembro.

Camila, que estava fumegando silenciosamente, interveio:

— Ah, é mesmo? Você se lembra disso? Engraçado, não me lembro de você se lembrar de muito mais sobre a Alice quando importava. — O sarcasmo dela pingava como ácido.

O silêncio voltou, mais pesado desta vez. Caio apertou o volante, os nós dos dedos brancos. Ele olhou pelo espelho retrovisor, os olhos encontrando os meus por uma fração de segundo, um apelo silencioso em suas profundezas.

Então, o celular dele vibrou no console. Ele olhou para a tela e o rosto endureceu instantaneamente. Era a Bia.

Ele atendeu, colocando no viva-voz.

— O que foi, Bia? Estou ocupado. — A voz dele era curta, impaciente.

— Ocupado? — A voz de Bia, estridente e distorcida pelo alto-falante, arranhou meus ouvidos. — Ocupado com ela, não é? Não minta para mim, Caio! Eu sei que você está com a Alice! Eu vi vocês! Como você ousa me deixar sozinha depois do que passamos? Você está tentando me machucar de novo? Você está tentando me fazer perder este também? — A voz dela escalou para um lamento histérico.

Meu estômago revirou. *Este também?* As palavras pairaram pesadas no ar, um eco arrepiante do meu próprio filho perdido. Ele estava fazendo fertilização in vitro com ela. Ele estava tentando dar a ela a família que destruiu tão descuidadamente comigo.

O carro se encheu com os gritos angustiados dela, as acusações pintando a imagem de uma mulher paranoica e desesperada.

— Você é obcecado por ela, não é? — Bia gritou, a voz tremendo de raiva. — Você ainda a quer! Eu vi o jeito que você olhou para ela! Você é um mentiroso, Caio Bittencourt! Um mentiroso patético e traidor!

Caio estremeceu, o rosto uma máscara de irritação e raiva crescente. Essa era a vida perfeita dele agora. A fachada cuidadosamente construída do marido devoto, desmoronando sob o peso de sua própria criação. O som do choro desesperado dela, ecoando no espaço confinado do carro, era uma sinfonia de sua própria autoria.

Ele ainda estava ouvindo, ainda suportando a tirada dela. E eu só queria sair. Eu queria correr e nunca mais olhar para trás. Ele fez a cama dele, agora tinha que deitar nela. Mas as palavras dela, "perder este também", pousaram como um soco. Isso era uma tragédia esperando para acontecer.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Alice Lobo:

O carro estava sufocante. As acusações frenéticas de Bia ecoavam, cada palavra um corte novo, não apenas para Caio, mas para mim. O ar ficou denso com a paranoia dela, o ciúme dela. O silêncio do banco de trás, de Camila e eu, só parecia alimentar a fúria dela.

O maxilar de Caio endureceu. Os nós dos dedos, brancos contra o volante, eram o único sinal externo de sua frustração crescente.

— Bia, acalme-se — disse ele, a voz tensa. — Você está sendo irracional.

— Irracional? — A risada dela foi um som áspero e quebrado. — Você me chama de irracional depois do que você fez? Depois do que ela fez? Você me deixou sozinha! Sozinha, Caio! Você sabe o quanto estou com medo?

Mari, que estava ouvindo silenciosamente do banco do passageiro da frente, finalmente falou, uma risada nervosa escapando dela.

— Uau, parece que alguém está tendo uma noite difícil. Talvez você deva ligar para ela de volta quando as coisas estiverem mais calmas, Caio.

Caio lançou a Mari um olhar fulminante. O rosto dele era uma nuvem de tempestade, a irritação claramente transbordando. Sem outra palavra, ele pegou o telefone do console e encerrou a chamada, o clique abrupto reverberando pelo carro. Ele nem olhou para nós.

— Bem — disse Mari, tentando aliviar o clima —, isso foi... um final dramático para a festa. — Ela se virou no banco. — Obrigada pela carona, Caio, mas acho que vou chamar meu próprio táxi daqui. Isso parece uma conversa privada. — Ela saiu rapidamente do carro, sua fuga um comentário silencioso sobre o caos que acabara de testemunhar.

A tensão no carro aumentou um nível. Caio permaneceu em silêncio, o olhar fixo na estrada à frente.

— Posso deixar vocês duas em casa — ofereceu ele, a voz desprovida de emoção. — É caminho.

— Não, obrigada — retrucou Camila. — Vamos pegar um táxi também. Preferimos não ficar no meio das suas disputas domésticas, Caio. — Ela alcançou a maçaneta da porta.

— Esperem. — A voz de Caio soou repentinamente urgente. — Alice, podemos conversar? Só por um minuto?

Camila parou, depois suspirou, olhando para mim.

— Alice, o que você quer fazer?

Hesitei. Uma parte de mim só queria correr, colocar a maior distância possível entre mim e esse homem. Mas outra parte, a parte teimosa e resiliente, sabia que a fuga não o faria desaparecer. Não esta noite, de qualquer maneira.

— Tudo bem — disse eu, minha voz mal passando de um sussurro. — Mas seja rápido.

Camila me lançou um olhar que gritava silenciosamente: *Não se atreva a cair na conversa fiada dele*. Mas ela fechou a porta, sinalizando para eu fazer o mesmo.

Caio colocou o carro em ponto morto, desligando o motor. O silêncio repentino foi ensurdecedor. Ele se virou para me encarar, os olhos suplicantes.

— Alice, eu... eu nunca quis que nada disso acontecesse. O que a Bia acabou de dizer... ela não está bem. Os tratamentos de fertilização in vitro, estão cobrando seu preço.

Camila zombou novamente.

— Ah, a pobre e delicada Bia. Sempre a vítima, não é? Assim como há cinco anos, quando ela empurrou uma mulher grávida da escada.

Caio estremeceu, o corpo ficando rígido. Ele fechou os olhos por um momento, uma onda do que parecia dor genuína lavando seu rosto.

— Foi um acidente! — ele disse com a voz rouca. — Alice, você sabe disso. Você estava com tanta raiva, você avançou nela. Ela apenas reagiu. Foi tudo um acidente terrível.

Balancei a cabeça, um gosto amargo enchendo minha boca.

— Um acidente? Você realmente acredita nisso, Caio? Você ficou lá, me vendo sangrar, enquanto a consolava. Você deixou sua assistente, a mulher com quem você estava dormindo, me dizer que eu estava histérica e acabada. Você a escolheu.

— Eu estava em choque! — ele rebateu, a voz subindo. — Eu não sabia o que fazer! Foi tudo um borrão!

— Não foi um borrão para mim — disse eu, minha voz fria e plana. — Lembro-me de cada segundo. A dor. O sangue. O jeito que o médico olhou para mim, me dizendo que não havia nada que pudessem fazer. Meu bebê, Caio. Nosso bebê. Se foi. — As palavras eram como cacos de vidro na minha garganta.

Camila alcançou minha mão, apertando-a com força. Os olhos dela estavam úmidos, transbordando de lágrimas não derramadas.

— Alice, você não precisa reviver isso.

— Não — insisti, puxando minha mão. — Ele precisa ouvir. Ele precisa lembrar. — Virei-me de volta para Caio, meu olhar inabalável. — Depois que perdi o bebê, eu disse que queria o divórcio. Eu não conseguia olhar para você, não conseguia respirar o mesmo ar que você sem ver o rosto dela, sem sentir aquele vazio doloroso dentro de mim. Você disse que entendia.

— Eu entendia! — insistiu ele, passando a mão pelo cabelo. — Eu estava horrorizado! Eu estava consumido pela culpa!

— Tão consumido pela culpa — continuei, minha voz pingando sarcasmo — que em semanas, a Bia tinha se mudado para o nosso apartamento. Nossa casa. Ela estava dormindo na nossa cama, usando minhas roupas, desfilando como se fosse a dona do lugar. Cheguei em casa um dia e ela estava lá, na minha cozinha, cantarolando, fazendo café para você. Como se ela pertencesse àquele lugar.

Meu estômago se contraiu. A memória era uma ferida aberta, mesmo depois de todos esses anos. Naquele dia, entrei em minha casa, o cheiro do perfume dela permeando cada cômodo, e encontrei Bia, bebericando chá casualmente no balcão da minha cozinha.

— Saia! — eu gritei, minha voz crua de luto e raiva. — Saia da minha casa, sua vagabunda!

Ela apenas sorriu, um olhar condescendente e de pena no rosto.

— Ah, Alice. Você realmente acha que esta é sua casa ainda? O Caio me trouxe para morar aqui. Ele disse que você não precisaria mais dela.

Avancei nela, um grito primitivo rasgando minha garganta. Eu só queria arrancar aquele olhar presunçoso da cara dela. Mas ela foi mais rápida. Ela deu um passo para o lado e eu tropecei, perdendo o equilíbrio. A mão dela disparou, me empurrando com força contra o batente da porta. Minha cabeça bateu na madeira com um estalo chocante. Desabei no chão, minha visão nadando.

Aquela não foi a queda que matou meu bebê. Aquela foi a queda que matou meu espírito.

Caio invadiu o local então, atraído pela comoção. Ele me viu no chão, atordoada, e Bia de pé sobre mim, parecendo angustiada. Previsivelmente, ele correu para o lado de Bia.

— O que você fez, Alice? — exigiu ele, a voz fria, desprovida de qualquer preocupação comigo. — Por que você está atacando ela?

— Ela se mudou! — engasguei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. — Ela está na nossa casa!

— Não é mais sua casa, Alice — afirmou ele, a voz monótona. — Você queria o divórcio, lembra? Começamos a papelada.

Naquela noite, deitada sozinha em um quarto de hotel, minha cabeça latejando, meu coração estilhaçado em um milhão de pedaços, eu soube. Não havia volta. Não havia mais "nós". Eu tinha que sair. Eu tinha que fazê-lo assinar aqueles papéis do divórcio. Não importava o custo.

— Voltei para o hospital, sabe — disse eu, minha voz pouco acima de um sussurro, puxando-me do passado. — Para o quarto onde perdi nosso bebê. Apenas sentei lá. E chorei até não haver mais lágrimas. A enfermeira me encontrou, largada no chão. Ela achou que eu estava tendo um colapso.

Caio fez um som sufocado, um ruído gutural baixo na garganta. Ele alcançou minha mão novamente, os dedos tremendo.

— Alice, por favor...

— Não — disse eu, me afastando, minha voz ganhando força. — Você não tem o direito de me tocar. Não mais.

— Eu sei que estraguei tudo — disse ele, a voz grossa com o que parecia angústia genuína. — Eu sei que te machuquei. Mas posso consertar. Juro, eu posso.

Olhei para ele, realmente olhei para ele. O homem que um dia fora meu tudo. Agora, ele era apenas um estranho implorando por uma segunda chance que não merecia. A dor ainda estava lá, um latejar surdo, mas não me consumia mais.

— Você não pode consertar o que quebrou, Caio — disse eu, minha voz calma, resoluta. — Algumas coisas estão além do reparo.

— Mas Alice, estou miserável agora — implorou ele, a voz falhando. — A Bia é... ela não é você. Ela é paranoica. Ela é obcecada. Cometi um erro ao deixar você ir.

Virei a cabeça, olhando pela janela para as luzes da cidade passando. A miséria dele não era problema meu. Era uma consequência, não um apelo.

— Você queria o divórcio depois daquilo — Camila incentivou, a voz suave, lembrando minha declaração anterior. — O que aconteceu então? Por que você não conseguiu?

Fechei os olhos, o peso daquela próxima memória pressionando sobre mim.

— Porque meus pais se envolveram — disse eu, as palavras pesadas de resignação. — Eles descobriram que eu estava tentando deixá-lo.

A próxima parte, o verdadeiro horror, ainda não havia sido dita. Foi a parte que deixou a cicatriz no meu pescoço.

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