Capítulo 2

O cheiro a metal queimado e a fumo enchia a cabine do carro. Tentei mexer-me, mas uma dor aguda no meu cinto de segurança prendeu-me ao assento. Lá fora, o som de sirenes misturava-se com gritos e o crepitar de chamas. A autoestrada A1 estava um caos, um emaranhado de carros destruídos.

A minha mão tremia enquanto procurava o telemóvel na mala. A primeira pessoa em quem pensei foi o meu marido, Miguel. Ele era médico no hospital mais próximo. Ele ia salvar-me.

Estava grávida de oito meses. Uma dor surda começou a pulsar no meu ventre.

"Estou aqui, meu amor," sussurrei para a minha barriga, tentando acalmar a mim mesma e ao bebé.

O telemóvel de Miguel chamou uma, duas, três vezes. Finalmente, ele atendeu. O barulho de fundo era de uma sala silenciosa, não de um hospital movimentado.

"Clara? O que foi? Estou ocupado."

A sua voz era fria, distante.

"Miguel, sofri um acidente. Na A1. É grave. Preciso de ti." A minha voz saiu rouca, quebrada pelo pânico.

Houve uma pausa. Ouvi um soluço feminino no fundo.

"Um acidente? Deves estar só presa no trânsito. Há sempre confusão nessa zona."

"Não, Miguel, é um incêndio, há carros capotados. Eu estou presa. E estou a sangrar."

"Sangrar?" ele repetiu, o tom de voz incrédulo, quase aborrecido. "Não exageres, Clara. A Sofia está a ter um ataque de pânico. O gato dela fugiu e ela não para de chorar. Preciso de cuidar dela."

Sofia. A sua meia-irmã.

"Miguel, por favor," implorei, as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto. "O bebé..."

"O bebé está bem, és sempre tão dramática," ele cortou-me. "Liga para o 112 como toda a gente. Tenho de ir. A Sofia precisa de mim."

Ele desligou.

O som do "clique" foi mais alto do que as sirenes. O telemóvel caiu da minha mão. Olhei para a frente, para o fumo que se tornava mais denso. Estava sozinha. Ele tinha-me deixado sozinha.

Capítulo 3

Um bombeiro com o rosto coberto de fuligem partiu o vidro da janela.

"Consegue ouvir-me, menina?"

Assenti, incapaz de falar. Ele trabalhou rapidamente, cortando o meu cinto de segurança com uma ferramenta.

"Está ferida? Dói-lhe alguma coisa?"

"A minha barriga," consegui dizer. "O meu bebé."

Ele olhou para a minha barriga proeminente e a sua expressão tornou-se ainda mais séria. "Vamos tirá-la daqui. A ambulância está à espera."

Enquanto me puxavam para fora dos destroços, o meu corpo protestava com dor. Deitaram-me numa maca. O paramédico começou imediatamente a verificar os meus sinais vitais.

"Qual é o seu nome?"

"Clara."

"Clara, precisamos de a levar para o Hospital de São João. É o mais próximo."

O hospital do Miguel. Uma onda de náusea percorreu-me.

"Contacto de emergência?" perguntou o paramédico, com uma caneta sobre um formulário.

Hesitei. O nome do meu marido estava na ponta da minha língua, mas parecia veneno.

"Miguel Bastos," disse por fim. "Ele é médico... nesse hospital."

O paramédico assentiu, anotando a informação. "Vamos contactá-lo assim que chegarmos."

Durante o trajeto na ambulância, com a sirene a uivar, tentei ligar para o Miguel mais dez vezes. Todas as chamadas foram diretas para o voicemail. Ele tinha desligado o telemóvel ou bloqueado o meu número.

A dor na minha barriga intensificou-se, transformando-se em cãibras agudas e rítmicas. Fechei os olhos com força. O medo era uma coisa física, fria e pesada no meu peito. Eu não estava a pensar no acidente, no fogo ou nos outros carros. Estava a pensar no silêncio que se seguiu ao "clique" do telefone.

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