Ponto de Vista: Sofia
A pequena luz noturna de gato de cerâmica estava na minha mesa de cabeceira, seu brilho suave um conforto familiar contra a escuridão. Por dez anos, ela havia afugentado meus pesadelos. Hoje à noite, parecia uma zombaria.
Estendi a mão e arranquei o plugue da parede. O quarto mergulhou em uma escuridão opressiva, tão densa que senti como se estivesse sufocando. Bom. Eu queria sentir isso. Eu queria que a escuridão me engolisse por inteiro.
Meus pés descalços deslizaram pelo chão de madeira frio até meu armário. Puxei uma mala de lona empoeirada da prateleira de cima. Um por um, juntei os fantasmas da minha vida com Dante. O pequeno medalhão de prata com o brasão dos Moretti que ele me deu no meu décimo quinto aniversário. O frasco de perfume "Mar de Coral" que ele me comprou porque disse que cheirava a um lugar para onde me levaria um dia, um lugar sem sangue e sem segredos.
Todos foram para a mala. Relíquias de uma fé morta.
Debaixo da minha cama havia uma caixa de madeira trancada. Dentro estava meu diário. Folheei as páginas, meus dedos traçando a caligrafia frenética e feminina. Era uma história patética da minha devoção. Cada palavra gentil, cada pequeno gesto dele, era registrado e analisado como escritura sagrada.
Então eu encontrei. Uma página de anos atrás, depois que um rival tentou me enviar uma "mensagem" fazendo seus capangas me seguirem da escola para casa. Dante cuidou deles. Eu nunca mais os vi. Naquela noite, ele encontrou meu diário aberto na minha escrivaninha. Ele não disse nada, mas na manhã seguinte, encontrei uma nova entrada escrita com sua caligrafia afiada e agressiva. Não era com tinta. Era com sangue.
*Sofi é propriedade dos Moretti. Toque nela e morra.*
Propriedade.
A palavra me atingiu com força, tirando o ar dos meus pulmões. Não uma irmã. Não uma protegida. Nem mesmo uma pessoa. Eu era uma coisa. Um bem a ser protegido, como seus carros ou sua coleção de armas antigas. Sua proteção não era sobre amor. Era sobre posse.
Um soluço rasgou minha garganta, cru e feio. Com mãos frenéticas e trêmulas, comecei a arrancar as páginas do diário. Rasguei cada memória querida, cada esperança secreta, até que tudo o que restou foi uma pilha de pedaços do tamanho de confete do meu próprio coração tolo.
No dia seguinte, Isabela se mudou oficialmente para o quarto ao lado do de Dante. Meu quarto. O que eu costumava ter antes de ser transferida para a ala de hóspedes no ano passado porque estava "virando uma mulher".
Ela me convocou para a sala de estar. A família inteira — os capos de Dante, seus tenentes — estava lá, uma audiência silenciosa para minha humilhação.
Isabela sorriu, uma expressão condescendente e plácida. "Sofia, querida. Um presente de boas-vindas."
Ela ergueu um colar. Não era a prata ou o ouro delicado a que eu estava acostumada. Era uma faixa grossa e extravagante de algum metal escuro e barato, cravejada de pedras brilhantes que formavam o brasão da família Vescovi. Não era um colar. Era uma coleira.
Minha respiração falhou. Eu era alérgica a ligas baratas. Dante sabia disso. Ele uma vez jogou fora uma pulseira que uma amiga da escola me deu, seu lábio se curvando em nojo ao ver a erupção vermelha se formando no meu pulso.
Eu olhei para ele, implorando com os olhos. *Não faça isso. Por favor.*
Seu rosto era uma máscara de indiferença. Ele encontrou meu olhar, seus olhos escuros frios e vazios, e proferiu a sentença.
"Pegue."
Sua voz era monótona. Final. Era uma ordem. Na frente de todos, ele estava mostrando a eles meu novo lugar na hierarquia. Abaixo dele. Abaixo dela.
Minhas mãos tremiam enquanto eu pegava a coleira. Os dedos de Isabela roçaram nos meus enquanto ela a prendia em volta do meu pescoço. O metal estava frio, pesado.
"Combina com você", ela ronronou, alto o suficiente para todos ouvirem. "Todo bichinho de estimação deveria ter uma coleira."
As risadas foram educadas, mas pareceram pedras sendo atiradas em mim. Fiquei ali, de cabeça baixa, enquanto o metal começava a aquecer contra minha pele. A coceira familiar e ardente começou quase imediatamente, um anel de fogo se apertando em volta da minha garganta.
Eu não cocei. Eu não chorei. Apenas fiquei ali e deixei queimar, me marcando com a verdade. Eu era propriedade. E acabara de ser entregue a um novo dono.
Ponto de Vista: Sofia
Naquela noite, os sons do quarto de Dante vazavam pelas paredes. Risadas abafadas, o murmúrio baixo de vozes, o ranger das molas da cama. Eu estava deitada na minha própria cama, rígida como um cadáver, encarando o teto. A coleira de metal barato queimava minha pele, um lembrete constante e agonizante do meu lugar.
Finalmente desisti de dormir e fui para a varanda, acendendo outro cigarro. A fumaça ainda era áspera, mas a queimação nos meus pulmões era uma distração bem-vinda do fogo ao redor do meu pescoço. Fumei o maço inteiro, um após o outro, até que o sol começou a manchar o horizonte de um cinza doentio.
Na manhã seguinte, encontrei Isabela na sala de jantar, tomando chá como se morasse ali a vida inteira.
Ela olhou para mim, seus olhos demorando no meu cabelo massacrado e na ferida vermelha e em carne viva no meu pescoço. Um sorriso pequeno e cruel brincou em seus lábios.
"O aniversário de Dante é em algumas semanas", disse ela, sua voz como mel misturado com veneno. "Também será nossa festa de noivado. Estava pensando em um tema. O que você acha que ele gostaria? Você o conhece há tanto tempo."
A pergunta foi um golpe calculado. Ela estava me pedindo para planejar a celebração da minha própria ruína.
Uma memória surgiu, sem ser convidada. Uma noite chuvosa, anos atrás. Dante tinha acabado de voltar de uma "reunião de negócios", seus nós dos dedos machucados e um corte recente sobre o olho. Ele me encontrou na cozinha e, por um raro momento, a máscara escorregou. Ele parecia cansado, quase assombrado.
Ele se encostou no balcão, sua voz mal um sussurro. "Quando eu terminar com tudo isso, Sofi, quando todos os meus inimigos se forem, vou te levar para minha ilha particular. Ninguém nunca nos encontrará lá."
A memória era tão vívida que doía. Eu a empurrei para baixo, para o fundo do buraco negro onde guardava todas as outras lindas mentiras.
"Eu não saberia", eu disse, minha voz oca. "Não me preocupo com os assuntos do Don Moretti."
Nesse momento, Dante entrou. Ele olhou de mim para Isabela, seu olhar impassível.
"Meus assuntos", disse ele, sua voz cortando o ar, "não são da sua conta." Ele estava falando comigo, reforçando a fronteira que havia traçado.
Virei-me para sair, minhas bochechas queimando de vergonha.
"Onde você vai?", ele exigiu.
"Ao consulado", eu disse, minha voz tensa. "Preciso resolver meu visto para a faculdade." A mentira veio fácil. A carta de aceitação universitária falsificada de Buenos Aires estava guardada em segurança na minha bolsa.
A postura inteira de Dante mudou. A indiferença desapareceu, substituída por um lampejo de posse violenta. Ele atravessou a sala em duas passadas, agarrando meu queixo e me forçando a olhá-lo. Seus dedos cravaram na minha mandíbula, com força.
"Que faculdade?", ele sibilou. "E com quem? Não pense que eu não sei o que você é, Sofia. Se você se atrever a começar a andar por aí com algum vira-lata imundo de fora desses muros, eu quebrarei as pernas dele. Depois quebrarei as suas."
Suas palavras estavam carregadas de um ciúme familiar e aterrorizante. O mesmo ciúme que uma vez me fez sentir segura, querida. Agora, parecia apenas uma corrente.
Isabela se adiantou, colocando uma mão gentil em seu braço. "Dante, querido, solte-a. Você está a assustando. Ela é apenas uma criança."
Ele me soltou, seus olhos ainda cravados nos meus. Eu recuei, a vontade de tocar minha mandíbula machucada avassaladora. Eu resisti. Não mostraria fraqueza. Não na frente dela.
Mais tarde naquele dia, em frente ao Consulado Argentino, meu celular vibrou. Era uma notificação da conta de mídia social privada de Dante, uma que eu tinha o privilégio de seguir. Ele havia postado uma foto.
Era uma foto profissional dele e de Isabela. Ele estava em um terno perfeitamente ajustado, ela em um deslumbrante vestido de noite, em pé diante do enorme brasão esculpido da família Moretti no grande salão. Eles pareciam um rei e uma rainha.
A legenda eram duas palavras.
*Minha Rainha.*
Minha visão turvou. Parecia que o mundo tinha virado de cabeça para baixo, me desequilibrando. Aquela palavra. Rainha. Ele havia matado a princesa e coroado uma nova rainha, tudo de uma só vez.
Meus dedos se moveram por conta própria, digitando um comentário de uma nova conta anônima que eu havia criado apenas para isso. Escrevi em latim, uma língua que ele me forçou a aprender, uma língua de impérios e fins.
*Sic transit gloria mundi.*
*Assim passa a glória do mundo.*
Então, eu o bloqueei. Bloqueei sua conta, apaguei seu número e limpei todos os vestígios digitais dele da minha vida. Tinha acabado.