Capítulo 2

Andrew abriu a porta do carro para Nora com um gesto suave, mas calculado. Seus olhos cruzaram por um breve segundo, e ele fez questão de manter a compostura, ainda que algo dentro dele estivesse em constante alerta desde o momento em que haviam começado a trabalhar juntos.

"Obrigada pela gentileza", Nora disse, sorrindo enquanto entrava no carro com a mesma elegância discreta que ele havia notado desde o início.

Andrew deu um leve aceno de cabeça, fechando a porta atrás dela antes de dar a volta e entrar no lado oposto. O motorista já os aguardava, e assim que ambos se acomodaram, o carro começou a seguir em direção ao restaurante. Durante o trajeto, o silêncio se instalou entre eles, mas não era um silêncio desconfortável, pelo menos não para Andrew.

Enquanto o carro deslizava pelas ruas de Paris, ele não conseguia evitar o olhar que lançava de forma sutil para Nora. A postura ereta dela, a maneira como os cabelos caíam suavemente sobre os ombros, a delicadeza de suas expressões. Havia algo fascinante na força que ela emanava, mesmo nos momentos de calmaria. Nora era uma mulher de presença, alguém que conseguia cativar uma sala inteira sem esforço, e Andrew, apesar de seu autocontrole usual, se pegava pensando em como ela conseguia equilibrar essa força com uma suavidade quase hipnotizante.

Ele deixou os olhos se demorarem um pouco nas curvas do corpo dela, em como o vestido elegante que usava acentuava sutilmente sua figura, sem ser vulgar. Havia uma elegância natural em cada movimento que ela fazia, e isso o atraía de uma maneira que ele tentava evitar.

Ela é linda, ele pensou, o olhar fixo na janela, fingindo observar a cidade ao redor. A verdade era que a presença dela o deixava inquieto, mas não pelo motivo que ele gostaria. Era o fato de saber que ela era noiva de outro homem que o fazia lutar para controlar os pensamentos que surgiam. Por mais que sentisse uma leve excitação crescendo em seu peito, Andrew sabia que havia uma linha clara entre eles - uma linha que ele, por mais que quisesse, não deveria cruzar.

Ela pertence a outro, lembrou-se, apertando levemente os punhos, escondidos no colo. Era frustrante, mas ele sabia que precisava manter o foco. Afinal, estavam ali por trabalho, por uma missão muito maior do que qualquer impulso momentâneo.

Quando o carro parou suavemente em frente ao restaurante chique, Andrew saiu rapidamente e, com a mesma elegância de antes, abriu a porta para Nora. Ela desceu do carro com um sorriso educado, mas assim que seus ohos captaram uma figura familiar saindo do restaurante, o sorriso sumiu de seu rosto.

O coração dela afundou no peito. Ali, diante dela, estava Victor, seu noivo, abraçado a outra mulher.

Por um segundo, Nora congelou, tentando processar a cena lamentavel que se desenrolava diante de seus olhos.

Victor ria, distraido, até que seus olhos se encontraram com os dela. O sorriso dele desapareceu instantaneamente, e a expressấo de choque tomou conta de seu rosto. Ele afastou-se da mulher ao seu lado, mas ja era tarde demais.

Nora, ainda atordoada, caminhou na direção dele, sua voz embargada pela dor e pela indignaçấo. "Victor, quem é essa? O que você está fazendo aqui?" Ela questionou.

A mulher ao lado dele, que ainda não havia percebido a gravidade da situaçấo, ohou de um lado para o outro, confusa. Victor, por sua vez, abriu a boca para falar, mas nada saiu por um segundo. Quando finalmente conseguiu, a voz dele saiu baixa e trêmula. "Nora, não é o que você esta pensando."

Ela soltou uma risada incrédula, seu olhar oscilando entre ele e a mulher ao lado. "Não é o que eu estou pensando? Ta na cara que você encontrou uma amante!" Ela deu um passo à frente, com os olhos marejados. "Você tem estado distante nos ultimos dias, e agora tudo faz sentido. Nos íamos almoçar hoje, você se lembra?"

Victor engoliu em seco, tentando manter a compostura. "Mas... você disse que não poderia mais almoçar. Eu so... eu só..."

"Eu te mandei uma mensagem ha ums quinze minutos atrás, Victor!" Nora respirou fundo, a voz dela quase quebrando. "Não teria dado tempo de você ter saído do seu trabalho, está na cara que você já estava aqui com ela."

Não havia mais como ele negar. O silêncio dele disse tudo. Victor baixou a cabeça por um momento antes de finalmente admitir, com uma voz quase inaudivel. "Eu me apaixonei por outra pessoa... Não tive coragem de te contar porque você parecia tão feliz, planejando o nosso casamento."

A confissão foi como um golpe no peito de Nora. Ela respirou fundo, lutando contra as lagrimas que ameaçavam cair. "Eu te perdou Victor, porém acabou, tudo. E quando você se arrepender não me procure, não tente me reconquistar e nunca mais olhe nos meus olhos!" Sua voz estava firme, mas o peso das palavras parecia esmagar seu coração.

Sem olhar para trás, ela se virou e começou a andar, suas pernas tremendo levemente sob a pressão da emoção.

Andrew, que havia observado a cena, não pôde se controlar. Algo dentro dele se acendeu, uma furia que ele não sabia que existia. Em um movimento rapido e decidido, ele caminhou até Victor e, antes que o homem pudesse se defender ou falar mais alguma coisa, Andrew acertou um soco direto no rosto dele.

Victor cambaleou para tras, a mão na mandibula, surpreso com o golpe. A mulher ao lado de Victor, atordoada, gritou: "Quem você pensa que é para fazer isso?"

Andrew, no entanto, não deu a menor atenção para ela. Sem dizer uma palavra, ele virou as costas e seguiu em direção a Nora, que ja estava distante, caminhando rapido e tentando segurar as lagrimas. Ela nao tinha ideia de que Andrew tinha presenciado tudo, muito menos que ele havia se envolvido. Ele acelerou os passos, sem saber exatamente o que diria quando a alcançasse, mas algo dentro dele sabia que não podia deixa-la sozinha naquele momento.

Nora, com o rosto molhado pelas lagrimas, andava sem rumo. A dor da traição ainda reverberava em cada parte de seu corpo. Foi quando ouviu passos rapidos atras dela e, antes que pudesse se virar, sentiu a presença de Andrew ao seu lado.

"Nora... você está bem?" Sua voz saiu baixa, mas cheia de preocupação.

Ela parou de andar, ainda respirando fundo para tentar controlar as emoções. Por um instante, olhou para ele, seus olhos ainda marejados. "Senhor Haart... você se importaria se deixássemos isso para outro dia? Não estou com cabeça para continuar hoje."

Andrew assentiu imediatamente, respeitando o pedido dela. "Claro que não, Nora. Tire o dia para pensar um pouco e distraír a mente. Não se preocupe com o trabalho, nós podemos retomar quando você estiver pronta."

Ela sorriu fracamente, em agradecimento. Então, sem dizer mais nada, Nora se afastou, caminhando lentamente pela calçada, tentando digerir o que havia acabado de acontecer.

Andrew ficou parado por um momento, observando-a desaparecer na distância. Ele sentiu um misto de alívio e uma pontada de satisfação ao saber que, a partir daquele momento, ela não estava mais comprometida. Não que ele desejasse a infelicidade de Nora, mas o fato de ela ser livre agora despertava algo dentro dele, algo que ele não podia ignorar. Andrew queria se aproximar dela, descobrir mais sobre aquela mulher fascinante que, em tão pouco tempo, tinha despertado sentimentos que ele achava estarem adormecidos.

Ele sabia que seu tempo era curto, mas queria aproveitar a vida enquanto ainda podia. E, de alguma forma, sentia que Nora seria parte disso.

Capítulo 3

A água quente caía sobre o corpo de Andrew, escorrendo pelos músculos tensos, mas sua mente estava em outro lugar. As gotas quentes não conseguiam afastar os pensamentos insistentes que voltavam para Nora. Ele fechou os olhos e a imagem dela surgiu nítida em sua mente. Ele imaginou os dois ali, no banheiro, juntos, a água misturando-se com seus corpos entrelaçados, o calor aumentando. Sentiu o desejo pulsar, crescendo a cada detalhe que sua mente criava, e, por um instante, quase pôde tocá-la.

Mas de repente, uma forte tontura o tomou de assalto. Andrew segurou-se na parede do chuveiro, respirando fundo enquanto a visão se tornava embaçada. O coração acelerou, e ele soube que não era apenas cansaço.

Com esforço, ele desligou a água e saiu do chuveiro, pegando a toalha às pressas. Ainda com a cabeça girando, vestiu-se rapidamente e pegou o celular. O médico precisava vir.

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"Dr. Ramos? Sou eu, Andrew. Eu preciso que venha me ver. Agora."

Do outro lado da linha, o médico respondeu rapidamente, já acostumado com a urgência. "Estou a caminho, Andrew. Fique calmo e não faça nenhum esforço até eu chegar."

Quando o médico chegou, Andrew já estava sentado, tentando manter a calma.

"Andrew, eu já te disse antes. Você precisa desacelerar. Não pode continuar com esse ritmo. Seu corpo está te avisando que o tempo está se esgotando. Fique em casa, descanse, aproveite a vida. O trabalho pode esperar."

Andrew ouviu, mas sua mente estava dividida. Ele sabia que o médico tinha razão. Por um momento, pensou no que o doutor dissera. Aproveitar a vida enquanto ainda podia. Uma ideia começou a se formar em sua cabeça, e logo ele já tinha o celular em mãos novamente.

Ligou para Nora. A voz dela parecia forte, apesar do que havia acontecido no dia anterior.

"Alô? Andrew?" a voz de Nora surgiu do outro lado, surpreendendo-o com sua firmeza.

"Nora... eu só queria saber se você está bem. Depois de tudo o que aconteceu ontem... com o Victor."

Ela fez uma pausa, e Andrew pôde imaginar sua expressão séria. "Eu estou bem. Não vou ficar sofrendo por alguém que não vale a pena. A vida continua. E o trabalho também. Eu estava pensando em te encontrar na empresa hoje."

Andrew sorriu levemente, impressionado com a força dela. "Eu admiro sua força, Nora. Mas hoje não estou no escritório. O médico mandou eu repousar. Estou em casa."

"Ah..." Ela pareceu surpresa, mas não desanimada. "Então, talvez outro dia."

"Ou... talvez hoje. Meu motorista pode te buscar, se você não se importar. Que tal vir aqui e trabalharmos de casa mesmo ?"

Houve uma breve hesitação. "Tudo bem, pode ser. Vou te passar o endereço e esperar pelo seu motorista."

Andrew sorriu enquanto anotava. Ele desligou, sentindo-se estranho por estar ansioso. Mais do que o trabalho, ele queria a presença de Nora naquele momento, talvez pela primeira vez sem as pressões de um ambiente de escritório, mas também sem esquecer o fardo que carregava. O relógio dele estava correndo, e cada momento ao lado dela parecia mais precioso.

Andrew estava inquieto. Do alto da escada, ele observava o carro de Nora se aproximando pela entrada de vidro. A leve tensão que sentia era nova para ele, algo que não acontecia com frequência. Quando o veículo finalmente parou, ele desceu as escadas com pressa e abriu a porta antes mesmo que o motorista pudesse se mover.

Nora saiu do carro, sua expressão tranquila, mas com uma firmeza nos olhos que Andrew admirava. Ele sorriu e, enquanto trocavam um cumprimento rápido, notou a força que ela tentava manter.

"Entre, Nora. Vamos conversar no sofá," Andrew disse, gesticulando para o espaçoso e acolhedor ambiente da sala.

Ela entrou, e o ar entre os dois parecia mais leve. Sentaram-se no sofá, um de frente para o outro, como se a formalidade de outrora estivesse ficando para trás. Ele ofereceu algo para beber, mas ela recusou gentilmente. "Obrigada, mas estou bem."

"Você trouxe o primeiro capítulo?" Andrew perguntou.

Nora pegou da bolsa um pequeno maço de folhas impressas. "Aqui está. É o primeiro rascunho da sua biografia."

Ele pegou as páginas e as folheou brevemente, impressionado. "Está excelente, Nora. Depois de tudo o que você passou ontem, ainda conseguiu trabalhar tanto assim?" Seus olhos se fixaram nos dela, com um respeito genuíno.

Nora soltou um leve riso, mas sua voz era firme. "Eu não ia perder tempo sofrendo por um cara que não merece uma gota de lágrimas minhas. Tenho coisas mais importantes para focar."

Andrew assentiu, respeitando ainda mais a força que ela exalava. "Eu sabia que você era determinada, mas isso... é admirável."

O ambiente entre eles parecia se aquecer. A formalidade e a tensão deram lugar a uma conversa mais descontraída, quase íntima. Eles se conheciam há pouco tempo, mas a conexão entre os dois crescia de forma natural. Havia uma proximidade que não precisava de palavras, algo que ambos sentiam e, ao mesmo tempo, tentavam evitar admitir. O tempo parecia desacelerar enquanto conversavam sobre a vida, o trabalho e as dificuldades que enfrentaram.

No meio da conversa, enquanto a atmosfera leve entre eles pairava no ar, Nora hesitou por um momento, olhando para Andrew com uma mistura de curiosidade e preocupação. Ela sabia que aquele era um assunto delicado, mas algo em sua mente a fazia questionar.

" Senhor Haart," ela começou, a voz suave mas firme. "Posso te perguntar algo? Quanto tempo faz que você descobriu... o câncer?"

Ele a olhou nos olhos, notando a sinceridade em sua pergunta. Não havia piedade ali, apenas um desejo genuíno de entender. Ele suspirou levemente, relaxando um pouco mais no sofá antes de responder.

"Faz um ano que comecei a sentir dores de cabeça terríveis. Tão fortes que, às vezes, eu nem conseguia formular as palavras certas." Ele fez uma pausa, como se revivendo os momentos em que percebeu que algo estava seriamente errado. "Eu fiz uma série de exames e... foi quando descobriram o glioblastoma."

Nora assentiu, absorvendo as palavras dele. "Mas... seus cabelos não caíram, e você não parece debilitado. Por isso fiquei surpresa."

Andrew deu um leve sorriso, mas não havia humor ali. "Eu recusei os tratamentos."

Ela franziu a testa, confusa. "Por que você faria isso?"

Ele respirou fundo antes de responder, olhando para algum ponto distante, como se estivesse ponderando sobre o tempo. "Para ser sincero, Nora... quando o médico me deu o diagnóstico, ele disse que eu tinha seis meses de vida. Isso foi há dois meses. O que significa que agora eu tenho, teoricamente, quatro meses."

Nora abriu a boca para dizer algo, mas ele continuou, sua voz firme, como se já tivesse se acostumado com a ideia. "Mesmo com tratamento, eu poderia viver de um a dois anos... talvez. Mas eu vou morrer de qualquer jeito, Nora. O tratamento não vai me salvar, só vai prolongar o inevitável. Eu prefiro viver esses meses com o máximo de dignidade possível, sem me submeter à quimioterapia, aos hospitais e ao desgaste."

Ela ficou em silêncio, absorvendo aquelas palavras. Havia algo de profundamente triste, mas também admirável, na aceitação dele. "Então você decidiu... não lutar?"

Andrew olhou para ela, seus olhos revelando mais do que ele dizia. "Eu decidi lutar do meu jeito. Vou aproveitar o tempo que me resta da forma que eu quero. Sem ser escravo de tratamentos que vão me roubar o pouco de vida que ainda tenho. E enquanto estiver aqui... eu vou ser o Andrew Haart. O homem, não o doente."

Nora sentiu um aperto no peito ao ouvi-lo falar com tanta convicção. Ela sabia que ele estava certo em sua escolha, mas aquilo não tornava a situação menos dolorosa.

Nora ficou um pouco tensa com tudo que Andrew havia acabado de compartilhar. Ela se levantou, lembrando que, dentro de poucos meses, ele provavelmente não estaria mais vivo. O pensamento a perturbou de uma forma inesperada. Por que ela estava pensando tanto no tempo de vida dele? E por que isso a afetava tão profundamente?

Enquanto esses pensamentos a dominavam, Andrew se levantou e tocou levemente em seu ombro, fazendo-a sair do devaneio. "Você está bem?" ele perguntou, com uma expressão genuinamente preocupada.

Ela respirou fundo e tentou disfarçar a inquietação que sentia. "Está muito quente aqui," ela disse, usando a temperatura do ambiente como uma desculpa.

Andrew sorriu, assentindo com a cabeça. "Realmente está muito quente," ele concordou, e então, em um gesto inesperado, acrescentou: "Quer saber de uma coisa? O que você acha de tomarmos um banho de piscina para refrescar esse calor?"

Nora ficou surpresa com o convite, não esperava que ele fosse sugerir algo tão informal. Ela hesitou por um momento, pensando no que responder, e então recusou educadamente. "Agradeço, mas acho que vou passar."

Andrew a olhou por um instante, avaliando sua resposta, e então ela, tentando mudar o foco da conversa, sugeriu: "Eu posso continuar escrevendo a biografia enquanto você aproveita o mergulho. Parece uma boa ideia, não?"

Ele soltou uma leve risada, percebendo o desconforto dela, mas sem insistir. "Você realmente é dedicada ao trabalho, Nora." Ele deu de ombros, aceitando a sugestão. "Está bem. Eu vou me refrescar um pouco, e você pode ficar à vontade."

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