Capítulo 2

Ponto de vista de Perséfone.

Durante o café da manhã. Eu tentava alimentá-lo, mas Ícaro franziu a testa, apertados os lábios em recusa quando eu tentei lhe dar um pouco de iogurte grego. 

— Coma mais um pouco — murmurei, passando o polegar em seu queixo.

Ele afastou minha mão com um muxoxo mal-humorado. Ícaro queria ir pra escola e brincar com os amiguinhos, mas ficou chateado quando soube que passaria a ter aulas em casa.

A professora Léa e o Apolo não estavam sentados à mesa conosco. Provavelmente, eles deviam estar bem íntimos no escritório.

A governanta surgiu à porta com passos leves e silenciosos, trazendo mais um recado:

— Perséfone… — falou, mantendo a postura ereta e as mãos unidas na frente do avental. — O senhor Apolo está perguntando pelo filho.

— Ícaro ainda não acabou de tomar o café. Mas está pronto — acariciei os cabelos dele, depois me levantei com cuidado. — Vamos! — falei, guiando-o pela mão.

A governanta saiu e desapareceu no corredor. Suspirei antes de me abaixar, ficando na altura do meu pequeno.

“Um dia, vou tirar você daqui e te levar para longe de todo este horror.” Prometi em meus pensamentos.

— Vamos ver a professora Léa? — sugeri, tentando animá-lo com um sorriso.

Segurando sua mão pequena e quente, conduzi Ícaro até a sala de estudos. Era um cômodo amplo, com janelas abertas que deixavam entrar a luz da manhã francesa. Sobre a grande mesa de carvalho, repousavam livros infantis, lápis de cor e um globo antigo que girava lentamente com a brisa.

Ícaro fitou a professora com olhos aflitos e balançou a cabeça negativamente. 

— Quero ir para a escola — A voz embargada do meu filho mal disfarçava o choro iminente.

Ícaro correu na direção contrária, buscando uma saída, mas parou abruptamente quando dois seguranças surgiram no final do corredor, bloqueando o caminho. Não havia para onde fugir.

Ao chegar perto dele, eu me abaixei, abraçando-o com força. 

Meu filho era apenas uma criança que sentia falta da rotina, dos coleguinhas, dos sorrisos que não precisavam ser contidos e monitorados dentro daquela casa. Mas a escolha havia sido retirada de nós, não havia mais liberdade.

— Hoje a aula será aqui, querido.

Mas Ícaro já estava aos prantos. Suas mãos pequenas agarraram a minha cintura com força, enquanto a boca se escancarava em um choro alto e inconformado. A cada soluço, o corpinho estremecia, e eu o abracei mais forte, sentindo sua dor como se fosse a minha.

“É por sua causa que eu estou aqui, meu anjo. Por sua causa, eu aceito ser chamada de babá.”

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Ponto de vista de Apolo.

Sentado atrás da minha mesa do escritório, eu prestava atenção no monitor do laptop que transmitia a cena de Ícaro agarrado à babá, chorando. Fechei o notebook e respirei fundo quando comecei a sentir aquela maldita dor na perna, quando empurrei a cadeira para trás. O rangido das rodinhas foi abafado pelo toque da ponta no mármore.

Eu me levantei com esforço. A perna boa recebia meu peso, enquanto eu colocava todo o meu peso na outra.

Mancando, eu atravessei o escritório. Do corredor, ouvia o choro do meu filho. 

Quando me aproximei, ele parou de chorar e começou a soluçar. 

Não disse nada de imediato. Endireitei a postura, apoiando o punho sobre o cabo entalhado da bengala de madeira escura. Meus dedos apertavam a peça com uma força que canalizava a dor.

— O que está acontecendo aqui? — perguntei.

— Ícaro queria ir à escola hoje — disse Perséfone.

Desviei os olhos para o rosto do meu filho, que estava escondido na lateral da mãe. O Ícaro não era mais um bebê. Ele precisa de disciplina, não de mimos.

— Ícaro, vá para a sala — ordenei.

Senti a dor na perna se intensificar, mas endireitei os ombros. A posição de autoridade era inegociável. 

Os olhos da professora buscaram os meus antes de dizer:

— Ele só está confuso. Foi tudo muito repentino.

— Confuso? — repeti, e a palavra saiu com a acidez de um limão grego. — Ícaro não está doente e nem mesmo com febre. E você não está aqui para justificar os caprichos dele, professora Léa.

Perséfone segurou a mão pequena de Ícaro e recuou um passo. O garoto se agarrou a ela com mais força.

— Ícaro — chamei, com o tom mais brando, mas ainda duro. — Olhe para mim.

Ele ergueu o rosto molhado e os olhos marejados. 

— Hoje você vai estudar aqui. A professora Léa já está esperando. Agora, vá para a sala.

Mesmo soluçando, Ícaro entrou com passos inseguros até a sala de estudos. Ele parou na porta e se virou. 

Fiquei em silêncio, observando-o desaparecer. Só então me voltei novamente para Perséfone.

— Não admito esse tipo de espetáculo nesta casa — disparei, frio. 

Ela era o problema. Vivia mimando o garoto e fazia tudo o que ele pedia.

— Crianças choram — Perséfone teve a audácia de me desafiar.

Mancando com dificuldade, parei a poucos centímetros e olhei para ela, examinando-a como um erro em minha organização meticulosa.

— Você é só uma funcionária nesta casa — articulei. — Ponha-se no seu lugar e pare de mimar o Ícaro.

A professora Léa surgiu na porta novamente e sorriu antes de propor:

— A babá do Ícaro pode ficar aqui durante a aula se o senhor permitir.

Espremi os olhos enquanto estudava Perséfone, sentindo o calor nos olhos dela, que queimavam de revolta. Desviei o rosto para Léa e, a contragosto, concordei com um leve movimento de cabeça. Mais uma desordem tolerada.

Virei-me com o mesmo movimento claudicante de sempre. O som da bengala tocando o chão preencheu novamente o corredor. 

Capítulo 3

Ponto de vista de Perséfone.

Contendo o choro, o meu filho continuou sentado em sua cadeira.

 O rostinho estava vermelho, os olhos marejados e com aquele soluço que me consternava.

A professora Léa ajeitou os óculos sobre o nariz e o observou. Suas roupas, discretas e impecáveis, pareciam gritar sua adequação ao universo opulento e frio de Apolo.

— Hoje faremos algo diferente, Ícaro — disse ela, pousando um livro ilustrado diante dele. — Você escolhe a história.

Ele olhou para a capa e, em seguida, para o fundo da sala, onde eu estava. Nossos olhos se encontraram por um instante. O meu filho buscava refúgio em mim, mas eu só podia observá-lo de longe.

— Eu estou aqui! — Balbuciei, esperando que a professora não me ouvisse.

— Quer esperar mais um pouco? — perguntou Léa, sentando-se ao lado dele.

Ele assentiu, calado.

“Meu menino. Sempre tão contido. Sempre se contendo pelo medo dos adultos.”

Poucos minutos depois, o som conhecido da bengala ecoou pelo corredor.

“Ah não, lá vem ele”, olhando para a porta, pensei. Aquele homem era a personificação de Hades e causava medo não só a mim, mas aos funcionários que trabalhavam naquela casa.

Apolo surgiu na porta. Erguido sobre a própria autoridade, com o rosto impenetrável, o corpo ainda mais rígido do que de costume.

— Professora Léa — chamou, com aquela voz que nunca se alterava, nem para o bem, nem para o mal.

Ela se levantou depressa. Os passos dela eram suaves, quase reverentes. Aproximou-se demais.

— Ele ainda está muito abalado — disse Léa, num tom doce. — E me perdoe se me excedi, monsieur Apolo, mas... por que esse apego tão intenso de Ícaro pela babá? Ele parece buscar nela algo que… — Ela parou.

“Diga. Diga o que pensa, vadia”.

Apolo ergueu uma sobrancelha como se estivesse escutando os meus pensamentos.

— As crianças se apegam a quem cuida delas — ele respondeu. — Perséfone cuida dele desde que nasceu.

É isso o que eu sou? Uma babá, não uma mãe.

— Ela o acolhe como se fosse a mãe do seu filho — insistiu Léa. — E o senhor parece permitir. O que é curioso vindo do senhor.

O canto da boca dele se ergueu.

“Ah, Léa… você não faz ideia do que provoca quando toca o orgulho dele.”

— O seu horário terminou, professora — disse Apolo, seco.

— Mas eu nem consegui dar a aula.

— Volte amanhã, no mesmo horário, madame Roux. — Praticamente ordenou e se virou, mancando.

Léa o acompanhou com os olhos semicerrados. Eu juro que vi fascínio.

“Você acha que entende, professora Léa, mas não conhece o abismo de onde ele veio.”

Quando ele desapareceu no corredor, ela sorriu. Virou-se para Ícaro, tentando recompor a doçura.

— Você está liberado, Ícaro. Amanhã, vou contar uma história sobre dragões…

Ícaro assentiu, com o queixo apoiado nas mãos.

— Vamos. — Estendi a mão para ele.

Ele levantou-se sem protestar. Quando chegamos à porta, senti um toque em meu ombro. Virei-me para Léa.

— Amanhã, a sua presença não será permitida durante a aula. — A professora enfatizou.

“Vadia!” Quis responder. As palavras queimavam na língua. Mas as câmeras estavam ali, penduradas como olhos que jamais piscavam.

Contida, eu dizia para mim mesma, “‘Não dê a ele motivo. Fica quieta.”

— Vamos, mamãe! — Ícaro me chamou, de longe.

Léa arqueou as sobrancelhas, surpresa.

“É isso aí, sou a mãe e não a babá do meu filho”

Saí da sala com as mãos cerradas e o coração latejando. O som dos passos de Ícaro era leve e saltitante. Fui atrás dele, guardando a raiva no fundo da garganta, junto de tudo o que me proíbo de sentir.

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Ao cair da tarde, eu quis ficar um pouco no jardim, já que a casa inteira parecia respirar ódio. Minhas mãos estavam entrelaçadas no colo, os olhos perdidos entre as flores lilases e o meu filho que brincava com o carrinho no meio das pedras. 

Anos atrás, Apolo se recuperou, mas com ajuda do pai, ele me impediu de ir embora com Ícaro. Numa manhã de verão em Atenas, o meu filho foi tirado de mim e levado por uma decisão judicial quando Apolo exigiu a guarda total de Ícaro. 

Era óbvio que ele usou a influência de Eros Velentzas para tomar a única coisa mais preciosa que eu já tive na vida. A mim, ele concedeu apenas um trabalho de ser a babá do meu filho e dormir na ala dos empregados. Não houve um dia que não amaldiçoasse Eros por ter mandado Apolo pra aquela casa na França.

E O rosto se contraiu por um instante, e uma lágrima escorreu. Sentia o gosto salgado da dor ao tocar o queixo. Após secar o meu rosto com as costas das mãos, tomei um gole do meu chá preto, que já estava completamente frio.

Foi então que ouvi o som ritmado dos passos e o toque seco da bengala. Nem precisava olhar pra saber que era Apolo.

— Está no seu horário de folga? — perguntou, a voz grave e rude.

Não me virei.

— Sim, senhor.

Ele caminhou até ficar ao meu lado, com o olhar voltado para o mesmo jardim onde o sol tocava o rosto dele de lado, acentuando o seu rosto com queixo proeminente mandíbula quadrada. 

— O que disse para a professora do Ícaro? — Ele perguntou, sem me encarar.

Virei o rosto só o suficiente para vê-lo de relance. A barba sombreava-lhe o maxilar. Os olhos profundos ainda estavam fixos no jardim onde o nosso filho brincava.

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