Capítulo 2

- Não toque em mim. - Ordenou com ódio, até ver que a pessoa que empurrou sequer saiu do lugar, seja pela altura, ou o peitoral largo que tocou.

Ela deu alguns passos para trás erguendo o olhar para chegar ao homem ao seu lado, e estava claro que a sombra dele lhe cobriu por inteira. Seus lábios abriram para soltar um intenso palavrão, mas se fecharam quando conseguiu chegar aos olhos verdes do homem, olhos brilhosos e verdes atrás de óculos transparentes, combinado a sobrancelhas grossas e o cabelo negro penteado para o lado.

Lumiar suspirou alto descendo o olhar para os lábios, o peitoral, e voltou a diretora que reclamava da sua saia curta, das botas de salto que não era permitido, do cabelo solto, da sua camisa aberta como se estivesse indo para uma festa e não para a escola... Quem aquela mulher estava querendo difamar.

- Eu me visto como bem entender - Devolveu após acordar do seu transe, olhou para o homem que dobrou o pescoço erguendo uma mão para colocar no bolso esquerdo da calça... Quem era aquele homem? - Você não tem que ditar o que tenho que usar aqui dentro.

- Mas é claro que eu tenho, sou a diretora e temos uniformes. Mandarei entregar um na sua casa, por conta da escola, apenas para você ter o prazer de usar. - Declarou a mais velha outra vez, cruzou os braços. - Me desculpe professor Michel, não se preocupe com essas declarações, ah algumas alunas que não dão valor a nossa escola.

- Você é professor? - Isa riu passando para frente do homem - E é professor de que? Luta? Você está querendo bater na gente nas aulas agora? Aí diretora, não precisa ser violenta.

- Eu não sou professor de luta - Sua voz era grossa, fez com que Isa recuasse na mesma hora para de trás de Lumiar que mantinha o olhar concentrado naquele homem, desde os lábios grossos e a altura que chamava atenção, sem contar com os braços largos que se mostraram rebeldes na camisa.

No fim, chegou aos olhos e se assustou quando notou estarem simplesmente voltados a si como se ela fosse o que exatamente? Desviou para a diretora que terminava de dar seu sermão:

- E se mesmo assim não resolver, colocaremos um fim na sua vida acadêmica nessa escola porque não vamos aceitar desrespeito com diretos e professores, senhorita Sindel. Passar bem... Vamos professor.

A garota calada assistiu quando o homem passou por si, ainda a encarando friamente, será que ele queria lhe dizer algo? Iria reclamar só porque foi empurrado? Mas ele nem saiu do lugar?

- Que cara idiota. - Isa murmurou - Viu como ela para a gente? Ele vai nos bater isso sim. Preciso contar isso ao meu namorado; ele jamais vai permitir que outro homem fique me olhando como se eu fosse um alvo a ser abatido e humilhado. Professorzinho de merda! - Deu as costas voltando pelo mesmo corredor.

Entretanto, Lumiar permaneceu ali e avistou ao longe quando eles pararam para falar sobre o quadro diante deles, porém, o professor ainda olhou para trás... O que ele estava olhando? Era um desafio? Encarou de volta, ela não era uma garota que se intimidaria fácil.

- Nessa escola há muitos alunos importantes, eles acham que são a realeza, mas sempre deixamos claro que essa escola tem regras a seguir - Contou trazendo a atenção outra vez do professor - Então fique tranquilo e seja bem vindo outra vez. Ter outro Michel dando aula nessa instituição é grande importância.

- Acredito que sim. Você esteve na época do meu pai, Daniel, não é? - A mulher assentiu. - Eu dei aulas em muitos lugares, e conheci muito bem essa minoria de adolescentes ricos que acham que podem crescer em cima dos professores apenas porque seus pais são importantes.

- Temos uma aqui também, Lumiar Sindel, filha da prefeita da cidade - O homem cruzou os braços, interessado - Briga com todos os professores e alunos bolsistas, responde, grita e se veste como bem entende, conseguimos a mandar para a detenção, mas nenhum professor aguenta sua zombaria. Sem contar que as notas caem cada vez mais e sua mãe acha que a culpa é nossa.

- Hm... E ela dar assistência a algum professor? - A mulher quis rir. Entraram outra vez na sala da diretora que trilhou seu caminho até a mesa principal.

- Nem as aulas ela assiste, acha que viraria assistente de algum professor? Lumiar ainda está aqui por causa do dinheiro de sua mãe, caso contrario, não precisaríamos de uma aluna péssima manchando nossa reputação.

- Entendi.

- Aqui está sua grade de horário, espero que goste de dar aulas e fique por mais tempo - O homem pegou e assentiu rapidamente.

- E sobre o laboratório - A mulher estreitou o olhar - Sou professor de biologia e química - Contou como se fosse obvio.

- Infelizmente houveram muitos acidentes no laboratório e depois de algumas discussões, ele foi fechado para reforma, mas não temos verba para isso.

- Acabaram de reformar o campo de futebol, pelas terceira vez em dois anos - A diretora levantou. - Tanto o campo de futebol como o laboratório é uma sala de aula, precisam ter o mesmo valor.

- Mas os doadores não querem ver tubos e explosões em uma sala no último andar do prédio - David cruzou os braços - querem ver adolescentes se formando em atletismo... O campo é um investimento tanto para os adolescentes quanto para a cidade.

- Ah, eu entendi. Obrigado, mesmo assim vou dar uma olhada no laboratório e irei dar a minha primeira aula.

- Fique a vontade, a escola é sua como já disse. E qualquer coisa pode me avisar, às vezes os alunos pegam pesados demais com os professores e dar advertências agora não resolve nada.

David assentiu e saiu sem dizer mais nada. Seguiu pelos corredores e escadas até chegar a seu cantinho de amor mais profundo, que no momento estava empoeirado, escuro e totalmente inabitável. Era incrível como as pessoas deixavam a ciência de lado para correrem atrás de uma bola em busca de fama e dinheiro.

Conhecimento?

Educação?

Onde ficava?

Sorriu de canto ao parar diante de uma das janelas e abrir uma fresta na cortina para que tivesse luz.

- Se eu conseguir um bom investidor eu posso reabrir essa droga... - Sorriu malicioso. - E sei bem o que fazer.

Capítulo 3

- Sim, e ele é enorme - Isa continuava com seu relato para o namorando quando Lumiar passou por ela se sentando ao lado.

Endireitou-se sobre a cadeira olhando para o celular, o tanto de mensagens que sua mãe passou a mandar desde aquele dia estava começando a lhe deixar ainda mais transtornada. Não podia falar alto, reclamar da comida, intimidar ou responder professores... Porque tinha que ir para a aula então, e fingir que era uma boa moça.

Ela não era uma boa moça

Olhou ao redor onde todos os seus colegas brigavam, sorriam, gritavam, namoravam... Engoliu outro xingamento com a nova mensagem "Não me traga problemas para o trabalho".

Subiu o olhar outra vez a tempo de ver a porta da sala, abrir e por ela passar aquele homem novamente. Agora trazia uma bolsa de couro que atravessava suas roupas simples, com um olhar avaliador ele estudou toda a sala e parou de andar quando lhe avistou.

Lumiar se arrepiou inteira deixando o celular de lado, sustentar aquele olhar era de esquentar seu corpo, mas esquentar por quê? Porque tinha ódio de homens grandes e fortes com um olhar brilhoso e lábios grossos?

- Bom dia - Até a voz dele soou baixa enquanto se encaminhava para a mesa. Colocou as mãos na cintura olhando par a turma que não lhe deu atenção. Suspirou.

Já havia trabalhado em escolas de ricos, escolas de pobres, particulares, públicas, internatos, só para meninas, meninos, mas nenhuma se comparava com a de Seant. O fato das classes se misturarem não deveria ser preocupante, mas os jovens com mais dinheiro acham que vão mandar herdar o mundo fazendo dos outros seus escravos desde novos.

- Eu sou David Michel - Murmurou, e novamente, foi ignorado por todos... Tornou a olhar para cada um e parou em Lumiar, a filha da prefeita. Não havia sorriso em seu rosto, mas tinha um olhar, um olhar desafiador.

Será que ele deveria rir? A menina era bonita, os cabelos loiros e curtos, os olhos castanhos e sua pele bronzeada, tinha a cara de ser aquela que chegava primeiro e era a ultima sair... Mas só a cara mesmo.

Aproximou-se dela a fim de lhe intimidar com o olhar, mas o que conseguiu foi apenas um brilho diferente e fazer com que os lábios dela se abrirem ao parar ao seu lado. Se de pé ela já ficava mais baixa, imagine sentada. Olhou dela para o celular com uma simplesmente mensagem com o contato intitulado mãe "tem um professor novo idiota, eu não vou fazer o que a senhora quer".

Ele riu. Então ele era o professor novo e idiota? Abaixou-se aos poucos ficando da altura de seus olhos, e lentamente, tomou o celular de suas mãos o desligando no movimento - Escolha interessante de palavras, mas eu não sou um professor idiota - apenas sussurrou para ela abrindo um sorriso. - Você parece ter mais autoridade aqui.

Lumiar apenas piscou... Porque seu corpo estava arrepiado com a presença dele ao seu lado? Não tinha mais voz? Era só gritar para que não fosse tocada. Logo todos viriam a para sua defesa, mas porque não saia nada?

Ele não conseguiu uma resposta dele, mas tinha seu olhar, sua atenção. Endireitou seu corpo e com um longo suspiro, David socou a mesa fazendo Lumiar se assustar com um grito agudo e todos lhe encararem em silêncio.

- Bom dia. Eu sou David Michel o seu novo professor de Química, ciências e biologia. - Escutou a correria para cada um se sentar em seu lugar e tornou a olhar pra baixo, onde os olhos bonitos da sua aluna principal estavam em sua mãe fechada sobre a bolsa nova.

Será que tinha quebrado algo? Ergueu-a devagar e ela se espantou... Os olhos voltaram a se encontrar de novo.

- Você disse que não era professor de luta - Isa murmurou ganhando atenção - Vai bater na gente agora?

- SILÊNCIO - A menina se assustou escondendo o celular. - Não sou professor de luta e não vou bater em vocês, mas nas minhas aulas eu gostaria de ter respeito. Prestem atenção se quiserem, estudem se desejarem, mas se não quiser nada disso, apenas faça silêncio.

Sua voz era grossa, rouca, como se um trovão cortasse a sala inteira deixando todos arrepiados, além da confiança e autoridade exalarem do homem. Deu as costas voltando a sua mesa onde largou o celular de ultima geração e apenas pequeno movimento fez os outros se endireitarem, conheciam bem aquele celular.

Durante os poucos minutos que se restaram ali, David explicou seus princípios antes da matéria, fez perguntas, respondeu perguntas e contou a parte fundamental de sua matéria fazendo com quem quisesse continuar na sua aula e ter uma boa nota, apenas prestasse atenção e se precisasse de aulas extras, ele estaria disponível.

Quando o sinal tocou, muitos alunos correram para fora querendo almoçar, outros porque o medo do professor era maior que ele... Entretanto, houve aqueles que permaneceram para fazer perguntas e escutaram que logo mais o laboratório seria a sala de aula, agradando os nerds e loucos pelo conhecimento da ciência.

No fim, quando respondeu as últimas perguntas, ele avistou Lumiar levantar ajeitando sua bolsa ao lado da amiga que lhe contava, provavelmente um segredo de estado.

- Senhorita Sindel - As duas lhe encararam - Podemos conversar?

- Sim. Ela quer o celular dela de volta, nenhum professor pode fazer isso, sabia? - Isa falou pela amiga e David sorriu. Aproximou-se das duas entregando a Isa m pequena folha. - Advertência? Mas o que foi que eu fiz?

- Passou a aula toda no celular. Eu disse para fazer silêncio e a sua risadinha atrapalhou. - Ela olhou do papel para o professor. - Você pode encher vários desses papéis, nenhum terá minha assinatura, ou da minha mãe, quem você acha que é?

- Eu cancelo a advertência se você sair daqui agora, eu gostaria de falar com a senhora Sindel e lhe devolver o celular, como você mesma pediu. - Isa sorriu cheia de si e saiu da sala batendo a porta.

David encarou a única garota que restou e deu as costas voltando a mesa e se sentou.

Aos poucos, viu a garota se aproximar com os olhos grandes em cima de si. Ela tinha um olhar felino, medroso e ódio... cheio de ódio com toda certeza.

- O que você quer? - Perguntou logo.

Era a segunda frase dela direcionada a si, e ambas com total falta de respeito.

- Eu quero que você seja minha assistente. - Foi direto.

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