Capítulo 2

Elease entrou no imenso closet. Era maior do que a maioria dos apartamentos da cidade.

Fileiras de vestidos, sapatos e bolsas de grife forravam as paredes. Hermès, Chanel, Dior. Eram troféus, não roupas. Kason os comprara para cobri-la, para torná-la palatável para sua imagem pública, mesmo enquanto a escondia.

Ela ignorou todos eles.

Ela foi para o fundo do closet, empurrando para o lado uma arara de casacos de pele. Lá, enfiada no canto, havia uma surrada mala de lona. Era uma relíquia do passado de Elease, uma mala que ela havia feito para um acampamento aos doze anos e nunca mais vira até ser devolvida anonimamente para a casa um ano depois, vazia.

Kason apareceu na porta, encostado no batente com os braços cruzados. Ele a observava, esperando pela fenda em sua armadura.

— Vai levar o saco de lixo? — ele perguntou. — Apropriado.

Elease não respondeu. Abriu uma gaveta e pegou duas camisetas pretas lisas e uma calça jeans. Dobrou-as com precisão militar e as colocou na mala.

Ela estendeu a mão para uma caixa de joias de veludo no balcão central.

Kason sorriu com desdém. — Esses diamantes ficam. Pertencem ao fundo fiduciário da família Stephens.

Elease abriu a caixa. Um colar de diamantes brilhou sob a iluminação embutida. Valia meio milhão de dólares.

Ela o ignorou completamente.

Seus dedos se fecharam em torno de um pequeno medalhão de prata manchado, aninhado no canto da caixa. Era barato, velho e sem valor para qualquer um, exceto para ela.

Ela o abriu. Uma foto minúscula e desbotada de uma mulher com olhos gentis a encarou de volta. Isolde Finch. Sua mãe.

Elease fechou o medalhão com um clique e o enfiou no bolso.

Ela se moveu para a prateleira onde seus eletrônicos eram guardados. Pegou um laptop. Parecia um modelo padrão, arranhado e velho, mas por dentro, o hardware havia sido modificado. A persona adormecida de Phoenix guiara suas mãos anos atrás, um impulso subconsciente para construir uma porta dos fundos, uma arma oculta que ela nunca soube conscientemente que possuía.

Ela colocou o laptop na mala e a fechou. A mala mal estava pela metade.

Ela se virou para Kason. Estava usando um pijama de seda.

— Vire-se — disse ela.

Kason revirou os olhos. — Já vi tudo isso antes, Elease. As cicatrizes não me assustam mais. Apenas me entediam.

Elease não discutiu. Simplesmente tirou a blusa de seda.

Kason desviou o olhar instintivamente, uma careta passando por seu rosto. As cicatrizes em suas costas eram diferentes da que tinha no rosto. Não eram do incêndio de cinco anos atrás. Eram mais antigas, uma treliça horripilante de linhas pálidas e salientes — algumas cirúrgicas, outras claramente de queimaduras e estilhaços, um mapa da explosão do laboratório e dos experimentos que haviam roubado um ano de sua infância. Era uma história sobre a qual ele não sabia nada, uma dor que não conseguia compreender.

Ela vestiu um moletom preto com capuz e uma calça legging. Calçou um par de tênis de corrida.

Ela pegou a mala.

Ela caminhou em direção à porta. Kason não se moveu. Ele bloqueava seu caminho, seu corpo preenchendo o batente.

— Você vai sair sem nada? — Kason perguntou. Sua voz estava mais alta agora, tingida de frustração. — Acha que esse ato de mártir vai me fazer sentir culpado? Porque não vai.

Elease olhou para ele.

— Culpa exige consciência, Kason — disse ela. — Você não tem nenhuma.

Ela deu um passo para o lado. Foi um movimento fluido, uma sutil mudança de peso que lhe permitiu deslizar por ele sem tocá-lo.

Kason estendeu a mão e agarrou seu braço. Seu aperto era forte, possessivo.

— Chelsea chega aqui em uma hora — ele sibilou. — Não fique perambulando pelo saguão como um cão de rua.

Elease olhou para a mão dele em seu braço. Seus músculos se contraíram. Sua mente, a Phoenix redespertada, calculou o ângulo do pulso dele, o ponto de pressão em seu polegar. Ela poderia quebrar o pulso dele em dois segundos. Era uma habilidade que ela não sabia que tinha até aquele exato momento, mas parecia tão natural quanto respirar.

— Solte — disse ela. Sua voz baixou uma oitava. — Ou eu quebro.

A ameaça foi proferida com uma calma tão absoluta que Kason a soltou instantaneamente. Ele recuou, olhando para a própria mão como se tivesse sido queimada.

Ele riu, um som nervoso e entrecortado. — Você enlouqueceu.

— Eu o encontrei — corrigiu Elease.

Ela caminhou pelo corredor. Seus passos eram silenciosos no piso de mármore.

Ela passou por uma grande foto de casamento pendurada na parede. Kason parecia um príncipe. Elease estava de costas para a câmera, escondendo o rosto.

Ela parou.

Kason a observou, pensando que ela estava reconsiderando.

Elease estendeu a mão e virou o porta-retrato com a face para baixo sobre o aparador.

— Feng shui ruim — ela murmurou.

Ela abriu a pesada porta da frente.

— Saia por essa porta e você não receberá um centavo! — Kason gritou do corredor. Sua voz ecoou no espaço vazio.

A porta bateu com força.

O som foi definitivo. Foi o som de uma jaula se abrindo.

Capítulo 3

As portas do elevador se abriram no saguão. O porteiro, um homem chamado Henry que geralmente olhava para Elease como se ela fosse invisível, piscou surpreso.

Ele viu a bolsa de lona. Ele viu o moletom com capuz.

"Chamando o carro, Sra. Stephens?" Henry perguntou, com a mão pairando sobre o telefone.

"Sra. Finch," Elease corrigiu sem diminuir o passo. "E não."

Ela passou pela porta giratória e saiu para a calçada.

O barulho de Manhattan a atingiu instantaneamente. Buzinas soando, sirenes uivando, o zumbido baixo de milhões de pessoas se movendo. Era caótico. Era perfeito.

Ela caminhou até o meio-fio e pegou o celular.

Seus dedos voaram pela tela. Ela não estava abrindo um aplicativo de rede social. Estava acessando uma partição oculta no sistema operacional.

A interface colorida desapareceu, substituída por uma tela de terminal preta com texto verde rolando.

Protocolo SkyNet: Ativo.

Ela digitou uma sequência de comandos. Deu um ping em um servidor offshore seguro localizado nas Ilhas Cayman.

A consulta não era uma verificação de saldo. Era um comando de execução. O Phoenix redirecionou uma fração de um por cento das negociações globais de alta frequência através de um algoritmo fantasma, drenando simultaneamente três contas de garantia da dark web pertencentes a traficantes de armas. Levou doze segundos.

O resultado apareceu na tela.

Novo Saldo da Conta: $500.000.000,00

Eram os despojos de uma guerra que ela acabara de começar. Eram irrastreáveis, líquidos e inteiramente dela. Estavam adormecidos nos cantos escuros da web, esperando que uma predadora como ela os reivindicasse.

Ela não transferiu tudo. Isso acionaria alertas na NSA.

Ela ativou uma sub-rotina para canalizar um fluxo de dinheiro para uma conta de gastos genérica e irrastreável. Ela definiu o limite: cem mil dólares por dia.

Ela fechou o terminal e abriu um aplicativo de transporte. Ela falsificou sua localização de GPS para ricochetear em três satélites diferentes, tornando sua pegada digital um fantasma.

Um SUV preto parou no meio-fio trinta segundos depois. Era um despacho prioritário que ela havia hackeado para o topo da fila.

Lá no alto, na varanda da cobertura, Kason Stephens estava observando.

Ele agarrou o corrimão. Esperava vê-la chorando no banco. Esperava que ela parecesse perdida.

Em vez disso, ele a viu abrir a porta de um SUV de luxo. Ela se movia com uma postura militarmente ereta. Ela não olhou para trás. Nenhuma vez.

Seu celular vibrou no bolso. Ele o pegou.

"Querido, estou quase chegando," a voz de Chelsea ronronou pelo alto-falante.

Kason sentiu uma onda súbita de irritação. "Ótimo," ele rosnou e desligou. Ele encarou o lugar onde o SUV estivera, um estranho mal-estar se instalando em seu estômago.

Dentro do carro, o ar estava fresco e silencioso. Os vidros escuros transformavam a cidade em um borrão escuro e em movimento.

Elease viu seu reflexo no vidro.

A cicatriz em sua bochecha era um mapa da sobrevivência de Kason e de sua vergonha pública. Era irregular, repuxando o canto de seu olho.

"Primeira ordem do dia," ela sussurrou para si mesma. "Consertar o hardware."

Seu conhecimento médico redespertado, muito além de qualquer coisa ensinada em uma universidade, veio à tona. Ela conhecia a ciência da regeneração celular. Sabia o que comprar e onde encontrar.

Ela digitou uma busca em seu celular: Materiais para síntese de biogel. Fornecedor: Dark Web.

O motorista olhou para ela pelo espelho retrovisor. Ele viu uma mulher de moletom com capuz e o rosto com uma cicatriz. Sua expressão permaneceu profissionalmente neutra, seus olhos encontrando os dela por apenas uma fração de segundo antes de voltarem para a estrada.

"Destino?"

"O Hotel Pierre," disse Elease. Ela precisava de um terreno neutro. Precisava de luxo. Precisava de uma fortaleza.

Seu celular vibrou novamente.

A tela se acendeu. Identificador de Chamada: Pai.

Elease encarou o nome. Franklin Finch.

Ela deixou tocar.

O telefone silenciou, depois apitou indicando uma mensagem de voz.

Ela não discou para o sistema de correio de voz. Acessou o arquivo de áudio diretamente pelo terminal, reproduzindo-o na velocidade 2x.

A voz de Franklin era venenosa, distorcida pela velocidade, mas clara em sua intenção.

"Se você arruinou o acordo com Kason, nem se dê ao trabalho de voltar para casa. Você é inútil para mim se não for a esposa dele."

Elease deu um sorriso de canto. Era uma expressão sombria e perigosa.

"Casa?" ela disse para o carro vazio. "Não. Estou indo para um campo de batalha."

O SUV entrou no trânsito pesado, deixando o império Stephens para trás, comendo poeira.

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