Ele ouviu ruídos dentro de uma igreja abandonada. Estava procurando a irmã desde a madrugada e até agora não tinha tido nem um sinal que mostrasse que ela estava viva. Seguindo sua intuição, ele caminhou para a entrada do prédio em ruínas, adentrando lentamente e desviando-se dos escombros no chão.
Makva tentava vestir uma de suas roupas na garota loira mas tudo ficava apertado demais ou folgado demais em seu busto. No fim, ela pega uma camisa larga, branca com botões e passa pela cabeça da outra.
— Vai ser isso — decide e pega uma calça. — Se não servir o problema é seu.
A outra tenta passar a calça pelas pernas, choramingando. A diferença de altura das duas era muita, porém mesmo sendo pequena a força física de Makva é surpreendente e ela provou isso ao domar a pantera.
— Por que você quer me ajudar? — indaga, depois de conseguir vestir as calças, contudo ficaram curtas, deixando a maior parte de suas canelas a mostra.
Makva estava olhando para as peças de roupa e jogando dentro do baú.
— Tenho pena de pessoas feias e, preciso do dinheiro para comprar algo para comer, já que você fez eu me distrair e provavelmente outro animal comeu o que seria o meu almoço — responde, tirando sua camisa suja de sangue.
A loira estava de boca aberta, chocada.
— Você me chamou de feia?!
Jogando a camisa de qualquer jeito no chão, Makva pega um vestido justo e preto que ia até metade de suas coxas.
— Não leve para o lado pessoal, eu até gosto de pessoas de aparência crítica, tá?
— Eu era considerada uma beldade no meu antigo vilarejo! — se defende.
— Bom, dá para ver que eles não tinham nenhum senso crítico — deu de ombros.
Antes que a outra pudesse retrucar, um homem de vestes pretas adentra o corredor em que estavam se arrumando.
— Abigail! — se apressa indo em direção a irmã abraçando-a afetivamente.
— Ah, que lindo — fez uma expressão de nojo.
Isso chamou a atenção dele, fixando o olhar flamejante nela.
— Você sequestrou a minha irmã! — acusa. — Por isso que ficou curiosa sobre a foto!
Makva faz uma careta.
— Sou conhecida por salvar muitas criaturas mas com certeza eu não sequestrei a infeliz da sua irmã.
Abigail chama a atenção dele.
— Irmão, você me acha feia?
— Quê?! Claro que não! — se apressa em tranquilizar a outra.
— Ela disse que minha aparência é duvidosa — choraminga.
Ele volta seu olhar para a garota pequena.
— Você disse isso para ela?!
— Acha que ela mentiria? — arquea a sobrancelha. — Sem contar que nem foi necessariamente uma ofensa.
— Então gostaria que alguém a chamasse de feia?
Makva enruga a testa.
— Por que eu me importaria com mentiras?
Ele passa os dedos pela temporã.
— Só... pare de chamar minha irmã de feia, ok?
— Eu só estava sendo sincera — encolhe o ombro.
Abigail choraminga, fazendo seu irmão ir em seu encontro, segurando-a pelos ombros.
— Não leve o julgamento dela a sério. Quando eu a vi mais cedo a vi ela olhar com aversão para todas as mulheres que cruzavam seu caminho.
— Era uma lástima, as aparências delas estava desgastante — suspira.
— Viu como ela é? — consola a irmã que o olhava sem entender nada. — Ela é narcisista — conclui, o rosto de Abigail se iluminando.
— Ei! Eu não sei o que significa isso mas com certeza não é algo bom já que ela ficou feliz — resmunga.
— Está vendo? Narcisista e estulta.
Makva semicerra os olhos.
— Muitas palavras difíceis meu cérebro bugou — diz. — Enfim, vamos acabar com isto. Quero meu pagamento.
— Pagamento?!
— Sim. Sua irmã quase foi morta e eu a salvei — responde o óbvio.
— Você não poderia ao menos ter feito isso apenas porque é uma pessoa boa?
Makva o encara, entediada.
— Eu tenho cara de quem faz boas ações? Eu faço negócios e se você não me der o que quero irei levá-la de volta comigo e deixar que a pantera termine o que começou — ameaça.
Ele cruza os braços em frente ao corpo.
— Você não faria isso.
Makva pega a mão de Abigail que ficou assustada, arrastando-a para longe. Antes que atravessasse o corredor o irmão da outra a chama.
— Eu vou dar o dinheiro — resmunga. — Vamos até a minha casa.
Ele caminha até elas, seguindo para fora. Contudo, Abigail para no meio do caminho.
— Só pra ter certeza... — começa. — Qual é o seu padrão de beleza? — indaga para Makva.
— O meu, por quê? — responde sem hesitar.
Abigail assente com a cabeça e encara o irmão.
— É, você estava certo.
{...}
Estavam agora em território do rei. As ruas de ouro que dava caminho para o Palácio brilhavam enquanto a grande torre se estendia por metade das ruas.
Mas havia algo errado.
Makva encarou os soldados que embora estejam de pé, parecia apenas ser armaduras vazias, contudo permaneceu calada, observando ao redor e tomando cuidado para não entrar em uma emboscada. Havia trago seu arco consigo porém ainda sim teria que tomar cuidado, subestimar seus inimigos é o pior erro de um principiante.
Dentro do Palácio tudo parecia ser feito de outro, embora as paredes sejam brancas assim como o teto, os as adornos e escadas em espiral estavam todos banhados com o dourado mais cintilantes que já havia visto. Ela se aproximou de um dos jarros, tocando sua superfície fria.
— Se vocês tem todo esse dinheiro em benefício próprio por que diabos não mandaram uma patrulha atrás dela? — perguntou, afastando-se do jarro.
— Meu pai não sabe, eu mesmo cuidei do assunto — responde, abrindo uma das diversas portas.
— Quero nem imaginar o que aconteceria com a sua cabeça se não a achasse — rir, tocando em outro jarro.
— Não toque em nada, por favor.
— Ora se eu não toco, quem me trouxeram foi vocês.
Ele suspira, derrotado.
— Falar com você é como se eu estivesse falando com uma das crianças pobres do reino.
Ela se afasta do jarro, jogando os cabelos para trás.
— Pois espero que essas crianças cresçam e o matem, apenas por essa frase idiota — diz, irritada. — Sua sorte que eu só vir pegar o dinheiro, senão já teria dado meia volta daqui.
Passos apressados podem ser distinguidos, automaticamente ela posiciona seu arco, apontando para o homem assustado que estava vindo em sua direção, vestido como um idiota de calças cheias e camisa branca, sem nada especial para chamar a atenção. Ele tinha uma expressão cansada e parecia desesperado para entregar informações. Abigail e seu irmão a encararam admirados por sua rapidez.
— Não me olha assim, fale logo o que quer antes que eu o acerte com uma flecha na testa — ordena.
— Senhora eu... — se embaralha com as palavras.
— O que se trata isso, senhorita? — o filho do rei pergunta.
— Senhorita uma ova! Eu vi como estar os guardas e não vou abaixar minha guarda e, se você tiver me trago pra uma armadilha os próximos que eu vou matar vai ser você e sua irmã! — ainda está olhando fixamente para o mensageiro.
— Do que você está falando?!
— Ela está certa, senhor — as mãos do outro estão tremendo. — Alguém botou nossos soldados para dormir e agora estamos sendo atacados — engoliu em seco.
Makva abaixa o arco.
— Quero meu dinheiro logo para vazar daqui.
— Você não pode ir embora! — desta vez é Abigail que fala.
— Claro que posso.
— Ele está dando ainda mais dinheiro para quem se ajuntar aos outros para proteger o reino — o mensageiro informa.
— Não ligo, minha vida vale mais que isso —retruca.
— Se você ajudar, eu pago mais do que eu pretendia oferecer a você — o irmão de Abigail entra nos negócios.
Ela olha pare ele, desconfiada.
— Eu tenho certeza absoluta que você tem força o suficiente para lutar.
— E eu vou, mas precisam de mais gente.
Todos a encaram em expectativa.
— Só podem tá de brincadeira com a minha cara.
Há uma horda inteira de monstros na muralha, tentando atravessar para o reino. Makva estava surpreendida, nunca havia lidado com tantas criaturas horripilantes na vida. Abigail estava ao lado de seu irmão, assustada com a visão debaixo. Estavam no alto da torre do castelo, tendo uma vista não tão privilegiada do que havia além.
— Ah, mas nem fudendo que vou me arriscar nisso! — sua boca estava escancarada.
— Eles não estão trabalhando sozinhos, seres deste tipo não tem consciência própria. Só precisamos que achem quem os está comandando — o comandante da guarda informa.
— Grande bosta, você já viu quantas criaturas tem alí? — aponta para fora em direção a muralha.
Uma risada profunda se distinguiu no silêncio ensurdecedor.
— E eu pensando que você era inteligente.
— Pare com isso, Romeu! — Abigail dá um tapa no braço do irmão.
— Não me importo, ela que faça o que quiser — diz. — Estou indo resolver essa bagunça — se retira sem olhar para trás.
— Ele insinuou que sou uma covarde? — exclamou, pasma.
— Não sei dizer bem, senhorita... — o comandante praguejou.
— Estúpido arrogante de merda! — joga seu manto no chão, raivosa.
— Ei! O que vai fazer? — Abigail a observa pegar seu arco e seu coldre de facas.
— Fique de olho na janela e me alerte se a ver algo de errado — ela abre as persianas, colocando seus pés para fora tentando se apoiar no vidro.
— Tem certeza que quer fazer isso? Vai acabar caindo — Abigail gesticula com as mãos, neurastenia.
— Pelo amor de Favks, eu sou Makva! — ela se abaixa apenas o suficiente para que os outros possam ver o seu rosto. — Não há nada que eu não possa fazer — pisca um olho, subindo para cima.
Os ventos estavam fortes, remexendo-a para todos os lados. Ela rangeu os dentes, tentando manter-se firme, embora seus dedos estejam vermelhos com a força que fazia para não cair.
— Maldita hora que conheci aqueles dois! — resmunga.
Quando finalmente atinge o pico da torre, ela se segura no mármore branco, botando suas pernas em cada lado, suas coxas fazendo pressão para se manter firme. Ela observa aos arredores, então fechou seus olhos, quando os reabriu suas órbitas haviam mudados, tornando-se a de uma águia, aguçada e focada ao longo alcance.
Ela conseguiu notar os soldados e Romeu em uma luta fervorosa por seu território. Ele lutava com uma espada longa de lâmina retorcida e afiada, suas táticas de lutas são impressionantes. Um grande manto negro feito de sombras o rodeava chicoteando aos que estavam em seu redor. Em uma distância ainda maior que as dos outros, Makva encontrou um grupo de soldados, vestidos com roupas vermelhas e armadura de ferro.
Seu coração parou por um instante.
Ela reconhecia aqueles senhores.
Oh, e como conhecia.
Suas veias se encheram de uma adrelina que a muito tempo não sentia. Para ser precisa, desde o dia que seu vilarejo havia sido destruído. Por aqueles mesmos homens de uniforme. Aqueles malditos uniformes. Vermelhos como a cor do sangue do povo que mataram por pura soberba. Ela engoliu em seco, tentou ao máximo se concentrar na missão, mas quando deu por si estava encima do pico, equilibrada em apenas um pé, com suas mãos firme no arco, pronta para tirar.
E foi o que fez.
Três flechas enterradas na cabeça de cada um.
O prazer de os ver morrendo foi instantâneo. Mas ainda conseguia sentir o ódio borbulhando dentro de si, causando-lhe dor de cabeça e consequentemente fazendo-a perder a concentração o que a fez perder o equilíbrio de onde estava, caindo para trás em uma queda livre de encontro ao chão. Contudo, antes que pudesse ser espatifar nas pedras pontudas, ela usou sua força sob-humana ao seu favor, pegando uma de suas flechas e enterrando fundo no meio dos tijolos deixando-a apenas alguns centímetros das rochas.
Quando seus pés encontraram o chão, ouviu palmas sendo direcionadas a ela. Sua cabeça se virou em direção ao som vendo um homem magro de cabelos loiros e olhos cintilantes. Se vestia como um mago, camisa aberta e calças curtas verdes. Duas mechas de seus cabelos estavam feita em uma pequena trança, deixando seus cabelos firmes.
— Estava prestes a ajudá-la, mas que bom que consegue se sair de situações arriscadas — elogiou.
— Obrigada, porém não preciso de alguém me bajulando, eu sei que sou auto-suficiente — mostra o polegar para ele, retirando-se de sua presença.
— Pelo visto as coisas aqui irão ficar interessantes — sorri maliciosamente antes de sumir nas sombras.