Ponto de Vista: Helena
Meus dedos doíam de tanto apertá-los. Eu estava relendo as postagens antigas de Larissa nas redes sociais, um buraco se formando no meu estômago. Tudo era público, exposto para o mundo ver, mas eu tinha sido cega.
Suas postagens eram uma crônica de um amor perdido, um anseio por algo que ela havia abandonado. Havia fotos borradas de um Arthur mais jovem, o braço em volta dela, um sorriso genuíno no rosto. As legendas falavam de um futuro compartilhado, de sonhos desfeitos.
Uma postagem, com data de quatro anos atrás, chamou minha atenção. Uma foto dela em um avião, o rosto manchado de lágrimas, mas resoluta.
"Deixando tudo para trás. Pelo futuro dele. Mesmo que signifique sacrificar o meu. Algumas dívidas nunca podem ser pagas."
Dívida? Que dívida?
Outra postagem, da mesma época: "Ele se meteu em tantos problemas por minha causa. A família dele... eles ficaram furiosos. Mas ele me defendeu. Ele sempre me defende."
Um pavor gelado se infiltrou em minhas veias. Isso não era apenas uma amizade de infância. Era algo muito mais profundo, muito mais emaranhado. Ela falava de sua felicidade sendo sacrificada pelo potencial dele, uma mártir no amor.
Então, as postagens mudaram. Um ano atrás, uma enxurrada de atividades, todas centradas em um divórcio conturbado. "Meu coração dói, não pelo que perdi, mas pelo que ele pode perder por minha causa. Ele merece muito mais."
E então, o golpe final. Um comentário de um amigo em comum, respondendo ao lamento de Larissa: "Fica tranquila, seu Arthur vai casar logo. Faz parte do plano. Você vai ficar segura."
Meu sangue gelou. O meu Arthur? Casando logo?
Rolei a tela mais para baixo, meu polegar um borrão. Uma semana depois, outra postagem de Larissa. "Livre. Mas a que custo? Ele escolheu outra. Eu deveria estar feliz. Mas me sinto... vazia."
A data. A data do divórcio dela. Era exatamente o mesmo dia do meu casamento com Arthur.
Uma dor lancinante, aguda e súbita, rasgou meu peito. Não era uma metáfora. Foi um rasgo físico, um horror visceral. Eu não era casada com Arthur porque ele me amava. Eu era um peão. Uma condição. Ele se casou comigo para que Larissa pudesse se libertar de um casamento ruim, um casamento que aparentemente tinha algo a ver com os "problemas" em que Arthur se meteu por ela.
Eu era o preço. A ferramenta. A solução conveniente para a culpa dele e a fuga dela.
Levei as mãos à boca, abafando um grito. Senti-me usada, barata, descartada. Cada gesto grandioso, cada ato aparentemente amoroso, se transformou em uma zombaria grotesca.
Minha mente girava. Saí de casa, sem nem me lembrar de pegar as chaves do carro. Apenas andei. Minhas pernas se moviam sozinhas, me levando pelas ruas desconhecidas de Lisboa, o vento frio cortando minha pele exposta. Eu estava entorpecida. Desorientada.
Tentei chamar um táxi, mas minha voz não saía. Eu não tinha nada. Nem carro, nem carteira, nem senso de direção. Eu estava verdadeiramente perdida. Dependente.
Naquele momento, um carro preto elegante parou ao meu lado. O carro de Arthur. Ele e Larissa estavam dentro, seus rostos iluminados pelos postes de luz. Larissa olhou para mim, um sorriso fugaz, quase imperceptível, em seu rosto, antes de virar rapidamente a cabeça e pressionar a mão na testa.
"Arthur", ela murmurou, com a voz fraca. "Minha cabeça... está latejando."
A expressão de Arthur mudou imediatamente de preocupação para alarme. "Larissa? O que foi? Você está bem?" Ele a puxou para mais perto, sua mão acariciando seu cabelo.
"É só... um pouco de tontura", ela sussurrou, encostando-se nele. "Todo esse... drama. Eu só quero ir para casa."
Os olhos de Arthur, cheios de uma ternura profunda e protetora, encontraram os meus por um breve e fugaz momento. Ele parecia dividido, mas apenas por um segundo.
"Claro", disse ele, sua atenção de volta em Larissa. "Vamos para casa. Não se preocupe com nada." Ele olhou para mim então, sua expressão endurecendo. "Helena, vou mandar um motorista para você. Apenas espere aqui."
Ele não esperou minha resposta. Nem mesmo olhou para mim de verdade. Ele apenas puxou Larissa para mais perto, sussurrou garantias e depois partiu, me deixando parada na calçada.
Larissa virou a cabeça enquanto eles se afastavam, a mão ainda pressionada na testa, mas seus olhos, frios e triunfantes, encontraram os meus. Uma mensagem silenciosa. Ela havia vencido.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios. Ele havia mandado um motorista para mim. Como se eu fosse um pacote a ser entregue. Fiquei ali, a fumaça do escapamento ardendo em meus olhos, observando as luzes traseiras deles desaparecerem na distância.
Finalmente consegui chamar meu próprio táxi, muito mais tarde. O motorista que Arthur prometera nunca apareceu. Ele havia esquecido. Assim como havia me esquecido.
Paguei o motorista e entrei em casa. Risadas. A risada dele. Ecoava pelos corredores, quente e genuína.
Ele estava na sala de estar, abraçando Larissa, acariciando seu cabelo. Ela estava aninhada contra ele, um cobertor em volta dos ombros. Ele murmurava palavras reconfortantes, sua voz tão gentil, tão cheia de cuidado.
"Você deveria descansar um pouco, Lena", disse ele, sem nem virar a cabeça quando passei. "Você parece cansada."
Eu apenas assenti, meu coração uma concha oca. Eu não pertencia aqui. Não mais. Subi a grande escadaria, cada degrau um testemunho da ilusão em que eu havia vivido.
No meio do caminho, um arrepio percorreu meu corpo. Espirrei, um som fraco e patético. Eu estava com frio. Tão completamente fria.
Abri a porta do nosso quarto, o santuário que nunca foi verdadeiramente meu. Minha decisão estava tomada.
"Arthur", eu disse, minha voz cortando a calma forçada da casa. Ele ergueu os olhos, surpreso. "Eu quero o divórcio."
Ponto de Vista: Arthur
As palavras pairaram no ar, pesadas e afiadas. "Eu quero o divórcio."
Larissa, aninhada em meus braços, enrijeceu. Ela se afastou, seus olhos arregalados, depois se virou para mim, seu lábio inferior tremendo. "Arthur, o que você fez?"
Meu maxilar se contraiu. O que eu fiz? Esta era Helena. Minha esposa. Ela estava apenas sendo dramática.
Olhei para Helena, parada ali, o rosto pálido, os olhos distantes. Ela deve estar cansada, pensei. Ou talvez estivesse apenas me testando. Ela já tinha feito isso antes, à sua maneira. Forçando limites, buscando atenção.
Ela não queria dizer isso. Não de verdade.
Lembrei-me dos primeiros dias do nosso casamento, do jeito que ela se iluminava quando eu cedia às suas acrobacias mais loucas. O jeito que ela sorria, os olhos brilhantes, depois de um salto particularmente perigoso. Ela me amava. Eu sabia que sim. Essa foi a única razão pela qual ela concordou em se casar comigo, não foi? Depois daquele acidente de carro, depois que arrisquei minha vida por ela, ela havia prometido.
Ela me ama. O pensamento foi um bálsamo reconfortante, acalmando o súbito mal-estar que se instalara em meu peito. Ela só está com raiva. Ela sempre volta.
"Helena", eu disse, com um tom apaziguador na voz. "Você está claramente chateada. Vá tomar um banho quente. Podemos conversar sobre isso pela manhã."
Ela apenas me encarou, um olhar estranho e vazio em seus olhos. Então, sem uma palavra, ela se virou e foi embora.
Na manhã seguinte, eu estava no meu escritório, revisando alguns relatórios, quando meu telefone tocou. A assistente de Helena.
"Sr. Montenegro", ela parecia nervosa. "Sinto muito, mas o evento de aniversário da Sra. Montenegro... foi cancelado."
Minhas sobrancelhas se franziram. "Cancelado? Por quê?"
"O local, as licenças... tudo foi revogado ontem à noite. Sem aviso."
Um pavor gelado se instalou no meu estômago. Helena vinha planejando este evento de base jump há meses. Era seu projeto de paixão, sua maior emoção do ano. Eu havia prometido a ela que tudo seria perfeito.
Lembrei-me de sua empolgação, do jeito que ela havia planejado meticulosamente cada detalhe. Minha promessa a ela.
Isso não podia ser uma coincidência.
Entrei na sala de estar, onde Larissa folheava uma revista casualmente. "Larissa", eu disse, minha voz mais áspera do que eu pretendia. "Você sabe alguma coisa sobre o evento de aniversário da Helena ter sido cancelado?"
Ela ergueu os olhos, um leve sorriso brincando em seus lábios. "Ah, isso? Sim, é uma pena. Ouvi dizer que era uma acrobacia bem perigosa que ela estava planejando." Ela fez uma pausa, seus olhos brilhando. "Sabe, eu te disse que era arriscado demais. Fico feliz que você tenha colocado um fim nisso."
"Eu não 'coloquei um fim nisso'", retruquei. "Eu apenas aconselhei cautela." Minha mente disparou. "E por que você sabe que foi cancelado?"
Ela deu de ombros, uma imagem de indiferença inocente. "Ah, sabe como é, essas coisas se espalham. Além disso, eu só pensei que, com todas as ideias malucas dela, provavelmente é melhor que ela fique com os pés no chão. Ela mencionou algo sobre querer comemorar o aniversário dela com um jantar elegante este ano, em vez de... bem, você sabe."
Meus olhos se estreitaram. "Ela disse isso?"
"Sim, claro", disse Larissa suavemente. "Ela até sugeriu que juntássemos com a minha festa de boas-vindas. Já que faz tanto tempo que não volto, e tudo mais."
Um nó se apertou na minha barriga. Juntar o aniversário dela com a festa de boas-vindas da Larissa? Isso soava exatamente como algo que Helena faria, em sua maneira excessivamente generosa, às vezes ingênua. Mas o momento parecia estranho.
"Helena não é 'frágil', Larissa", eu disse, as palavras de repente com um gosto amargo. "Ela é uma atleta de esportes radicais. Ela vive do risco."
Os olhos de Larissa se arregalaram, um olhar de mágoa passando por seu rosto. "Arthur, como você pode dizer isso? Depois de tudo... Ela quase me matou ontem."
"Aquilo foi um passeio, Larissa, não um mergulho de penhasco!", retruquei, minha paciência se esgotando.
Ela fungou. "Pareceu perigoso. E depois ela foi tão má comigo ontem à noite. Eu só queria me sentir segura."
Suspirei, passando a mão pelo cabelo. Larissa havia passado por muita coisa. A ruína de sua família, seu casamento difícil. Eu devia a ela. Eu sempre prometi cuidar dela.
"Olha, eu vou falar com a Helena", eu disse, tentando acalmá-la. "Ela só... ela pode ser um pouco demais às vezes."
Larissa assentiu, um leve sorriso voltando aos seus lábios. "Eu sei. Mas tenho certeza que ela vai entender. Um jantar agradável e tranquilo, uma chance de conhecer todos os seus contatos importantes... é muito mais apropriado para uma esposa."
Minha esposa. A palavra ecoou na minha cabeça.
De repente, uma voz, fria e clara, cortou a tensão. "Então, você cancelou mesmo."
Helena estava na porta, seus olhos, geralmente tão vibrantes, agora opacos e feridos. Havia olheiras escuras sob eles, e seu rosto estava ainda mais pálido do que na noite anterior. Ela parecia... quebrada.
Meu coração deu um salto. "Helena, eu..." Minha mente procurava uma explicação. "Eu só achei que era mais seguro. E você parecia tão cansada ontem à noite. Eu pensei... que você preferiria um jantar tranquilo."
"Um jantar tranquilo que também serve como festa de boas-vindas da Larissa e um evento de networking para seus contatos de negócios?", ela perguntou, sua voz desprovida de emoção. "Que conveniente."
Larissa interveio, sua voz doce e inocente. "Helena, eu só achei que seria legal comemorarmos juntas. E os negócios do Arthur são tão importantes. Você não gostaria de colocar isso em risco, gostaria?"
Vi um brilho de algo nos olhos de Helena. Não raiva, nem mesmo mágoa. Apenas... uma tristeza profunda. E então, uma centelha de resolução.
"Eu vou realizar meu evento", disse ela, com a voz firme. "Com ou sem sua permissão, Arthur."
Meus olhos se estreitaram. "Helena, não seja ridícula. Eu posso fechar qualquer local, cancelar qualquer licença. Você sabe disso." Minhas palavras eram uma ameaça, uma clara demonstração de poder.
Ela apenas olhou para mim, uma risada amarga e sem humor escapando de seus lábios. "Você realmente não se importa, não é?" Sua voz falhou. "Você nunca se importou." Lágrimas escorriam por seu rosto, mas ela não tentou enxugá-las. Apenas as deixou cair. "Isso não é sobre segurança, Arthur. É sobre controle. Sobre garantir que eu me conforme. E você está usando a Larissa como desculpa."
Uma frieza se instalou em mim. Eu odiava vê-la chorar. Isso me deixava... profundamente desconfortável. Mas suas palavras, sua acusação, me atingiram.
"Helena, isso não é justo", comecei, estendendo a mão para ela. "Eu só estou tentando te proteger."
Ela se afastou do meu toque. "Me proteger? Você me deixa pular de montanhas, Arthur. Você me deixa flertar com a morte. Mas você cancela meu evento porque pode deixar a Larissa 'frágil'?" Ela riu de novo, um som áspero e quebrado. "Isso é hilário, Arthur. Realmente hilário."
"Helena, pare com isso!", ordenei, minha paciência no limite.
"Parar com o quê, Arthur?", ela perguntou, sua voz de repente calma, assustadoramente calma. "Parar de ver a verdade? Não. Eu não vou."
Ela se virou para Larissa, seus olhos afiados. "E você", disse ela, um novo veneno em sua voz. "Você é uma sanguessuga. Uma parasita. Sempre se fazendo de vítima, sempre se agarrando a ele."
Os olhos de Larissa se arregalaram, um suspiro teatral escapando de seus lábios. "Como você pode dizer isso? Depois de tudo que Arthur e eu passamos por você?"
"Por mim?", Helena zombou. "Você quer dizer, por sua causa." Ela balançou a cabeça, uma resignação cansada se instalando em seu rosto. "Tudo bem. Você quer meu evento? Pegue. Você quer meu marido? Pode ficar com ele também."
Ela se virou para mim, seus olhos desprovidos de todo calor. "Eu cansei, Arthur. Cansei dessa farsa. Cansei de você."
Ela saiu, me deixando parado ali, uma dor estranha e oca no peito. Suas palavras, suas lágrimas, sua acusação... ecoavam no silêncio. Mas foi a frieza em seus olhos que realmente me gelou. Suas lágrimas eram por seu coração partido, não por mim.