Capítulo 2

O e-mail de confirmação da Vértice Sigilo Absoluto chegou uma semana depois. *Fase Um Concluída. Seus novos documentos de identidade estão sendo processados. Conclusão estimada: 4-6 semanas.* Uma onda de alívio, tão potente que pareceu uma liberação física, tomou conta de Clara. Ela não era mais apenas uma vítima; era a arquiteta de sua própria fuga.

Paris. A palavra ecoava em sua mente. Não a Paris que ela conhecia com Bernardo — a de hotéis cinco estrelas e restaurantes com estrelas Michelin. Esta seria a sua Paris. Um pequeno apartamento em Le Marais, uma vida tranquila, um emprego em uma pequena galeria de arte independente. Uma vida onde ninguém conhecia o nome Randolph.

Ela começou o lento e doloroso processo de desmantelar sua vida. Moveu-se pela cobertura como um fantasma, separando quinze anos de memórias compartilhadas. Escondido em uma caixa de veludo no fundo de seu armário estava um colar de diamantes, a joia da família Randolph que Bernardo lhe dera no dia do casamento.

"Isso pertenceu à minha avó", ele lhe dissera, com os olhos sinceros. "Representa o futuro da nossa família. É seu agora, para sempre."

Para sempre. A palavra era uma piada amarga. Ela olhou para as pedras frias e brilhantes. Não eram um símbolo de um futuro; eram o preço de seu silêncio, o pagamento por sua cumplicidade em seu próprio coração partido.

Ela foi a uma casa de leilões de caridade próxima e o doou anonimamente. O formulário de liberação parecia mais pesado que o próprio colar.

Outras coisas, ela não conseguia doar. Os álbuns de fotos cheios de memórias sorridentes e fraudulentas. As lembrancinhas bobas de suas primeiras e mais felizes viagens. Os bilhetes manuscritos que ele costumava deixar em seu travesseiro.

Naquela noite, ela os levou para a grande lareira da sala de estar. Um por um, ela os alimentou para as chamas. Observou enquanto seus rostos, capturados em momentos de felicidade fingida, se enrolavam, enegreciam e viravam cinzas. O fogo consumiu seu passado, uma pira para um amor que havia sido uma mentira.

Bernardo voltou de sua "viagem de negócios" no dia seguinte, cantarolando uma melodia que ela não reconheceu. Ele notou o espaço vazio na lareira onde a foto do casamento deles costumava ficar.

"Onde está nossa foto, Clara?", ele perguntou, a testa franzida em leve confusão.

"Mandei para emoldurar de novo", ela mentiu suavemente. "O vidro estava trincado."

Ele aceitou a explicação sem pensar duas vezes. Estava muito distraído, muito cheio de sua vida secreta. Ela podia sentir o cheiro nele — um perfume floral fraco que não era o dela. Viu um único e longo cabelo escuro na gola de seu casaco de caxemira. As evidências estavam por toda parte, mas ele se movia pela casa com a ignorância feliz de um homem que acreditava estar se safando de tudo.

"Tenho uma surpresa para você", ele anunciou alguns dias depois, o braço envolvendo sua cintura. "Uma festa. Pelo seu aniversário, para compensar minha ausência. Convidei todo mundo."

Seu verdadeiro aniversário tinha sido semanas atrás, aquele que ela passara sozinha. Esta festa não era para ela. Era para ele. Uma performance para o círculo social deles, uma maneira de manter a fachada do casal perfeito.

"Isso é... atencioso", disse ela, a voz desprovida de emoção.

Ela foi à festa com um vestido preto simples, um contraste gritante com os vestidos brilhantes das outras mulheres. Sentia-se como uma observadora em sua própria execução. A cobertura estava cheia de flores, o champanhe fluía livremente e um quarteto de cordas tocava no canto. Era um quadro perfeito de opulência e felicidade.

E então ela a viu.

Alice Dias. Perto do piano de cauda, parecendo perdida e deslocada em um vestido vermelho vibrante que era um tamanho menor.

Uma convidada, uma mulher mais velha pingando diamantes, passou por Clara. "Minha querida, você está deslumbrante esta noite", disse a mulher, com os olhos fixos em Alice. "Esse vermelho é uma escolha ousada para você!"

A mulher deu um tapinha no braço de Clara e seguiu em frente, deixando Clara paralisada. Eles achavam que Alice era ela. A substituta era tão descarada, tão óbvia, que as pessoas estavam confundindo a cópia com o original.

Alice parecia apavorada. Ela segurava uma pequena bolsa contra o peito como um escudo, os olhos arregalados e percorrendo a sala. Era uma criança brincando de se vestir em um mundo que não entendia.

Bernardo, vendo sua angústia, imediatamente interrompeu sua conversa e foi para o lado dela. Ele colocou uma mão protetora na base de suas costas, sussurrando algo em seu ouvido que fez um leve rubor subir por suas bochechas.

Clara caminhou até eles, seus passos pesados, como se estivesse andando na água.

"Bernardo", disse ela, a voz baixa e uniforme. "O que ela está fazendo aqui?"

Bernardo se encolheu, mas se recuperou rapidamente. Ele estampou um sorriso encantador. "Clara, querida! Eu queria que você conhecesse a Alice direito. Pensei que, já que ela está carregando nosso filho, deveria se sentir parte da família."

Ele se virou para a multidão que começara a notar a pequena cena. "Pessoal", anunciou ele, a voz ressoando com falsa bonomia. "Esta é Alice Dias. Ela é uma querida amiga da família que graciosamente se ofereceu para ajudar a mim e a Clara a começar nossa família. Pensem nela como a... irmãzinha da Clara."

Irmãzinha. As palavras foram um rebaixamento público. Ela não era mais a esposa, a outra metade do casal poderoso. Era a benevolente irmã mais velha, aceitando graciosamente esta mulher mais jovem e mais fértil em suas vidas. A humilhação era uma coisa física, um rubor quente que se espalhou de seu peito para o rosto.

A atenção de Bernardo já estava de volta em Alice. Ele a guiou pela multidão, apresentando-a a seus amigos poderosos, a mão nunca deixando suas costas. Clara os observava, um par orbitando seu próprio sol, deixando-a na escuridão fria e externa.

Ela o viu rir, uma risada genuína e sem esforço que não via há anos. Observou-o colocar uma mecha de cabelo solta atrás da orelha de Alice, um gesto tão íntimo e terno que fez seu próprio coração se apertar.

Ela se forçou a socializar, a sorrir, a aceitar condolências por seu "braço torcido" e elogios pela "festa adorável". Mas seus olhos continuavam voltando para eles.

Duas mulheres, amigas dela do conselho do museu, sussurravam atrás de suas taças de champanhe.

"Você acredita na cara de pau?", disse uma. "Trazer a amante para a festa de aniversário da esposa?"

"Eu os vi", sussurrou a outra, com os olhos arregalados. "Semana passada, na clínica de fertilidade do Dr. Matos. Eles estavam de mãos dadas na sala de espera. Todo mundo estava olhando."

Dr. Matos. O especialista em fertilidade mais exclusivo e caro da cidade. Aquele que Bernardo havia afirmado ser "impossível de conseguir uma consulta".

As peças do quebra-cabeça se encaixaram, formando uma imagem de traição tão vasta e elaborada que era de tirar o fôlego. Isso não era apenas um caso recente. Era um engano calculado e de longo prazo. Uma vida dupla vivida à vista de todos. Seu casamento perfeito não estava apenas rachado; era uma casca oca desde o início.

Capítulo 3

O sorriso no rosto de Clara parecia uma máscara de gesso, rachando nas bordas. Um suor frio brotou em sua testa, e as vozes tagarelas dos convidados da festa se transformaram em um rugido surdo. Ela precisava fugir.

Ela murmurou uma desculpa e correu para o lavabo, o papel de parede dourado parecendo se fechar sobre ela. Encarou seu reflexo no espelho ornamentado. Seu rosto estava pálido, seus olhos assombrados. Esta não era a Clara Jensen confiante e equilibrada que todos conheciam. Era uma estranha, uma mulher esvaziada pela dor.

Ela jogou água fria no rosto, tentando conter a náusea que subia por sua garganta. A dor em seu peito era um peso físico, uma pressão esmagadora que dificultava a respiração. Parecia que seu coração estava literalmente se partindo.

Enquanto secava o rosto, ouviu um som suave vindo da sala de estar adjacente, um cômodo raramente usado durante as festas. Uma risadinha, seguida por um murmúrio baixo.

Seu coração parou. Ela conhecia aquele murmúrio.

Ela empurrou a porta, abrindo uma fresta. A sala de estar estava mal iluminada, mas ela podia vê-los claramente. Bernardo tinha Alice pressionada contra uma estante de livros, sua boca devorando a dela. Não era um beijo gentil; era faminto, possessivo.

Os gemidos suaves de Alice enchiam o pequeno espaço.

"Bernardo", ela sussurrou, as mãos emaranhadas no cabelo dele. "Alguém vai nos ver."

"Deixe que vejam", ele rosnou contra os lábios dela, a mão deslizando por suas costas, segurando sua bunda através da seda vermelha de seu vestido. "Eu quero te exibir." Ele se afastou um pouco, os olhos escuros com uma luxúria que Clara não via direcionada a ela há anos. "Com a Clara, é tudo sobre a mente, a alma. Com você... é isso." Ele gesticulou para seus corpos, pressionados um contra o outro. "Isso é o que é real."

As palavras cortaram Clara, uma confirmação final e brutal de seu medo mais profundo. Ela não estava apenas sendo substituída; estava sendo desvalorizada, seu amor e companheirismo descartados como algo cerebral e sem paixão.

"Seja uma boa menina para mim esta noite", sussurrou Bernardo, seus lábios traçando sua mandíbula. "E eu te compro aquela pulseirinha da Cartier que você queria."

"Sim, Bernardo", Alice ronronou, a cabeça inclinada para trás em submissão.

Ele lhe deu um último beijo forte e então eles se moveram em direção à porta. Clara recuou para o lavabo, o coração martelando contra as costelas. Ela os viu sair, o braço dele possessivamente em volta da cintura de Alice, e uma onda de agonia, tão profunda que era física, a atingiu.

Ela se lembrou de sua própria intimidade, como sempre fora cuidadosa, contida, quase reverente. Ele sempre alegou que era porque tinha muito medo de machucá-la, de uma paixão que pudesse levar a uma gravidez que a mataria. Era uma mentira. Ele não tinha medo da paixão. Ele simplesmente não a sentia por ela. Ele a estava guardando para outra pessoa. Para a garota jovem e dócil que se parecia o suficiente com ela para ser uma fantasia, mas diferente o suficiente para ser uma fuga.

Ela sentiu uma onda de compreensão fria e amarga. Claro que ele estava obcecado por Alice. Ela era a única coisa que Clara não podia ser: jovem, desimpedida e, na mente dele, fértil. Uma lousa em branco na qual ele poderia escrever seu próprio futuro, livre do trauma da família Randolph.

A dor era uma coisa viva dentro dela, uma fera arranhando suas entranhas. De alguma forma, ela conseguiu se recompor, voltar para a festa brilhante, a máscara da anfitriã perfeita deslizando de volta ao lugar.

Ela viu Alice do outro lado da sala, um rubor triunfante em suas bochechas. Uma pequena marca escura, um chupão, era visível logo acima da gola de seu vestido. A visão daquilo foi um novo tormento.

Alice a viu e, para o choque de Clara, veio em sua direção. Parecia nervosa, segurando uma taça de champanhe.

"Sra. Randolph", ela começou, a voz um pouco trêmula. "O champanhe... está um pouco forte para mim. Você poderia... poderia me trazer um pouco de água?"

A audácia era de tirar o fôlego. A amante, recém-saída de um encontro secreto com o marido, pedindo à esposa para lhe buscar uma bebida.

As entranhas de Clara se contorceram em um nó apertado e furioso. Sua mão, a do braço torcido, tremeu.

E então, o desastre.

Alice, talvez sentindo a mudança no comportamento de Clara, deu um passo nervoso para trás. Ela esbarrou em uma alta torre de taças de champanhe, uma peça central da festa. A torre balançou precariamente. Por um segundo horrível, pareceu pairar no ar, e então desabou em uma cascata ensurdecedora de vidro quebrado e champanhe espumante.

Clara estava diretamente em seu caminho. Ela ergueu o braço bom para proteger o rosto, mas foi inútil. Cacos afiados de vidro choveram sobre ela, cortando seus braços e ombros. Um pedaço grande atingiu sua testa, e um jorro quente de sangue escorreu por seu rosto. Ela gritou, tropeçando para trás, e caiu com força no chão de mármore.

Através do zumbido em seus ouvidos, ela viu Bernardo. Ele estava correndo, o rosto uma máscara de terror. Por um momento fugaz e tolo, ela pensou que ele estava correndo para ela.

Mas ele passou direto por ela.

Ele foi até Alice, que havia sido salpicada de champanhe, mas estava ilesa. Ele a puxou para seus braços, protegendo-a com seu corpo como se ela fosse a que estava em perigo.

"Alice! Você está bem? Se machucou? O bebê!", ele gritou, as mãos verificando-a freneticamente.

Ele ignorou Clara completamente. Ela jazia no chão, sangrando e quebrada, invisível para ele. Ele olhou para ela uma vez, os olhos frios e irritados, como se ela fosse apenas um inconveniente, uma bagunça a ser limpa. Então ele virou as costas para ela, seu foco total em Alice, murmurando palavras suaves de consolo em seu cabelo.

Clara deitou no mármore frio e encharcado de champanhe, os cacos de vidro cravando em sua pele. Ela olhou para os destroços da torre de champanhe, uma metáfora perfeita para sua vida despedaçada. A dor de seus cortes era aguda, mas não era nada comparada à agonia de ser tão completa e totalmente abandonada.

Ela conseguiu se levantar, seu vestido preto agora manchado de sangue. Saiu da festa, deixando um rastro de pegadas ensanguentadas no mármore branco imaculado. Ninguém a parou. Ninguém pareceu notar que ela havia partido.

Ela pegou um táxi para o pronto-socorro mais próximo, o mesmo em que estivera apenas uma semana antes.

"A senhora está sozinha?", perguntou a enfermeira da triagem, os olhos cheios de pena profissional ao olhar para o corte na testa de Clara.

"Sim", disse Clara, a voz um sussurro oco. "Eu me viro sozinha."

De seu cubículo com cortinas, ela podia vê-los. Bernardo havia levado Alice para o mesmo hospital, para um quarto particular no final do corredor. Ele estava cuidando dela, ajeitando um cobertor em seus ombros, o rosto um retrato de terna preocupação.

Ele acariciou a bochecha de Alice, o polegar limpando gentilmente uma lágrima inexistente. "Não se preocupe com nada", ele murmurou, a voz ecoando pelo corredor silencioso. "Eu vou cuidar de tudo."

Era um eco doloroso das palavras que ele um dia dissera a ela. As enfermeiras do andar sussurravam, comentando sobre como ele era dedicado, que parceiro amoroso ele parecia ser.

Clara os observava, uma espectadora da vida que deveria ter sido dela. Ela o via como ele realmente era agora: um homem que não queria apenas uma substituta, ele já a havia substituído. Em seu coração, em sua vida, ela já havia partido.

E naquela sala de hospital fria e estéril, Clara soube que tinha que oficializar. Ela tinha que desaparecer. Para sempre.

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