Eva Matos POV:
Sua mão disparou e bateu na parede ao lado da minha cabeça, o impacto ecoando no corredor silencioso. "Não me venha com sermão sobre família, Eva! Estou tentando proteger a nossa! Isso é uma bagunça, e você está piorando tudo com esse sentimentalismo idiota. Assine a porcaria dos papéis, ou eu faço você ser declarada emocionalmente incompetente e assino eu mesmo."
A ameaça pairou no ar, vibrando com malícia. Este não era o homem com quem me casei. Era um estranho, um predador usando o rosto do meu marido.
Ele me fuzilou com o olhar por mais um segundo, o peito arfando, depois virou nos calcanhares e se afastou. "Volto em uma hora", ele gritou por cima do ombro. "É melhor você ter recuperado o juízo até lá."
Eu o vi partir, seus sapatos caros batendo um ritmo raivoso no piso de linóleo. Ele não olhou para trás.
Ele não me amava.
O pensamento não era uma pergunta ou um medo. Era um fato, tão sólido e frio quanto a mesa do necrotério lá embaixo. Ele não me amava. Provavelmente nunca amou. Nosso casamento, minha devoção, nosso filho — tudo era uma transação para ele. E meu pai, Francisco Escobar, um bibliotecário aposentado e despretensioso com problemas nas costas, tinha sido um passivo em seu balanço.
Apoiei-me na parede, a frieza do gesso penetrando em minha blusa fina. Pensei nos meus pais. Depois que me formei em direito, eles venderam a casa espaçosa onde cresci, a casa com o grande carvalho no quintal e as marcas no batente da porta registrando minha altura. Eles se mudaram para um minúsculo apartamento de dois quartos para que pudessem nos dar o dinheiro — a ele o dinheiro — para começar seu escritório. João Carlos Mendes, Advogado. Soava bem. Um som de sucesso. Um som construído sobre o sacrifício deles.
E João Carlos havia esquecido. Ou, mais provavelmente, ele nunca considerou um sacrifício. Para ele, era apenas capital inicial. Um investimento que rendeu muito para ele, mas pelo qual ele não sentia gratidão. Apenas desprezo pelas pessoas que o tornaram possível.
Ele achava que meu pai, um homem que lia histórias para meu filho até ficar com a voz rouca, um homem que ainda me chamava de sua garotinha, se jogaria na frente de um carro por dinheiro. A crueldade disso era de tirar o fôlego. Não era apenas um erro de julgamento; era uma doença fundamental da alma.
O som do meu próprio nome me tirou do meu torpor. Olhei para cima e o vi. João Carlos. Ele estava do outro lado do estacionamento, ao lado de uma Mercedes preta e elegante que eu não reconheci. Ele estava conversando com uma jovem. O cabelo loiro dela era um corte brilhante no crepúsculo sombrio, e mesmo à distância, eu podia ver o inchaço de sua barriga sob o vestido justo.
Ela estava grávida.
Ela pousou a mão no braço dele, sua expressão suplicante. Ele respondeu puxando-a para um abraço reconfortante, acariciando seu cabelo. Foi um gesto de intimidade tão profundo que roubou o ar dos meus pulmões.
Enquanto eu observava, congelada, ele se afastou e entrou no carro. Ele não olhou para o hospital. Ele não olhou para mim. O motor rugiu e, ao sair em alta velocidade do estacionamento, seus pneus atingiram uma poça, lançando uma onda de água suja e marrom na calçada, encharcando a barra da minha calça.
Foi um insulto final e apropriado.
Não sei quanto tempo fiquei ali. Eventualmente, o ar frio da noite mordeu minha pele, e forcei minhas pernas a se moverem. A caminhada para casa pareceu interminável. Cada passo era um esforço monumental.
Quando finalmente abri a porta da frente, Léo, meu doce filho de cinco anos, veio correndo, o rosto sujo de chocolate. "Mamãe! Você chegou!"
Ele envolveu meus joelhos com seus bracinhos, e eu quase desabei sob o peso de seu amor inocente. Ajoelhei-me, abraçando-o com força, inalando o cheiro de leite e biscoitos, um cheiro de lar que de repente parecia estranho.
"Eva? Está tudo bem?" Minha mãe, Ana, saiu da cozinha, secando as mãos em um avental. Meu pai, Francisco, estava logo atrás dela, o rosto marcado pela preocupação.
"Ouvimos sobre o acidente", disse ele, a voz suave. "O Gilberto..."
Ele não precisou terminar. Eu vi a dor em seus olhos. Ele e Gilberto haviam se tornado bons amigos, dois avôs se unindo por seu amor compartilhado por Léo.
"Como o João Carlos está?", perguntou minha mãe, a mão pousada no meu ombro.
Olhei para seus rostos gentis e preocupados, e a mentira veio facilmente. Tinha que vir. "Ele está... arrasado. Está cuidando dos preparativos."
Eles assentiram, suas expressões cheias de simpatia pelo genro que, naquele exato momento, estava confortando a amante grávida que acabara de matar seu pai.
"Não se preocupe com nada, querida", disse meu pai, tirando um cartão do banco da carteira e pressionando-o em minha mão. "O que você precisar. Custos do funeral, qualquer coisa. Estamos aqui."
Olhei para o cartão, para o plástico gasto que representava suas economias de uma vida, os restos da venda de sua casa. Uma nova onda de náusea me atingiu.
Divórcio. A palavra floresceu em minha mente, escura e final. Eu tinha que deixá-lo.
Mas como eu poderia contar a eles? Como eu poderia explicar que o genro deles, o homem por quem eles sacrificaram tudo, era um monstro? Que ele tentou vender a honra da família deles por cem mil reais e uns trocados?
A verdade os destruiria.
Segurando meu filho, agarrando o cartão do banco do meu pai, senti um novo tipo de determinação se solidificar dentro de mim. João Carlos achava que eu era sentimental e fraca. Ele achava que podia me controlar.
Ele estava prestes a descobrir o quão errado estava.
Eva Matos POV:
João Carlos não voltou para casa naquela noite. Fiquei acordada em nossa cama fria e vazia, Léo aninhado ao meu lado, seu corpinho uma âncora quente na tempestade dos meus pensamentos. Finalmente adormeci em um sono agitado pouco antes do amanhecer, apenas para ser acordada pelo som da porta da frente se abrindo.
Eu não me mexi. Ouvi-o subir as escadas na ponta dos pés, o ranger das tábuas do assoalho do lado de fora do nosso quarto. Ele parou, depois se afastou em direção ao quarto de hóspedes.
Levantei-me e fui para a cozinha, meus movimentos robóticos. Fiz café. Servi cereal para o Léo. Eu era um fantasma em minha própria casa. Quando João Carlos finalmente apareceu na porta da cozinha, ele parecia exausto. Ele usava o mesmo terno de ontem, agora amassado e triste.
"Eva. Precisamos conversar."
Eu não me virei. Continuei mexendo o mingau de aveia do Léo. Foi então que notei, uma leve mancha rosa-avermelhada no colarinho de sua camisa branca. Batom.
Ele pigarreou, um som nervoso e culpado. Ele caminhou até a mesa e colocou um novo conjunto de documentos. Eram diferentes dos da noite anterior.
"Não vou mentir para você, Eva", ele começou, a voz tensa. "Existe outra pessoa."
Finalmente me virei para olhá-lo, meu rosto uma máscara em branco.
"O nome dela é Daiane Gouveia", disse ele, evitando meus olhos. "Estamos nos vendo há alguns meses. E... ela está grávida. Já está avançado demais para... bem, ela vai ter o bebê."
Daiane Gouveia. O nome me atingiu, conectando a peça final e horrível do quebra-cabeça. A jovem motorista grávida. Sua amante.
Ele a estava protegendo. Ele estava disposto a destruir a reputação do meu pai, a pisar no meu luto, tudo para proteger a mulher que havia matado seu próprio pai. O absurdo puro e monstruoso disso era tão profundo que uma risada histérica ameaçou borbulhar do meu peito. Eu a engoli, o gosto de bile queimando minha garganta.
Permaneci em silêncio, observando-o. Privado da reação dramática que provavelmente esperava, ele ficou sem graça. Sua compostura praticada e advocatícia começou a desmoronar.
"Olha, Eva, eu sei que isso é um choque", disse ele, seu tom mudando, tornando-se mais suave, mais suplicante. "Mas a Daiane... ela é só uma garota. Ela está apavorada. Ela cometeu um erro terrível. Por favor, não arruíne a vida dela. Era ela quem estava dirigindo o carro."
Ele estava me pedindo. Ele estava pedindo a mim, a nora do homem que ela matou, para mostrar misericórdia.
"Preparei um acordo de divórcio", disse ele, empurrando os papéis pela mesa. "É muito generoso. Você fica com a casa, a guarda total do Léo e uma pensão substancial. Tudo o que você poderia querer."
Ele estava tentando comprar meu silêncio. Ele estava tentando comprar a vida de seu pai.
"Tudo o que peço", ele continuou, sua voz baixando para um sussurro conspiratório, "é que você assine o acordo do acidente. Vamos apenas deixar tudo isso para trás."
Uma clareza fria e afiada se instalou sobre mim. Pensei no dia do nosso casamento, nas promessas que ele fez, na vida que pensei que estávamos construindo. Era tudo uma mentira. Uma fachada cuidadosamente construída para servir à sua ambição.
Lentamente, peguei os papéis do divórcio. Minhas mãos estavam firmes enquanto eu pegava a caneta que ele havia colocado ao lado deles. Virei para a última página e assinei meu nome, minha assinatura firme e clara.
Eva Matos. Em breve, apenas Eva Matos novamente.
Empurrei o documento assinado de volta para ele. Então olhei para os outros papéis, o acordo que marcaria meu pai como um fraudador e deixaria a assassina de seu pai sair impune com um tapinha no pulso.
"Não", eu disse.
Seu rosto se contorceu em descrença, depois em fúria. "Como assim, não? Estou te dando tudo!"
"Você está me dando coisas que já eram minhas, João Carlos. Esta casa foi comprada com o dinheiro dos meus pais. Léo é meu filho. E quanto ao acordo... não posso assinar." Encontrei seu olhar furioso, o meu calmo e inflexível. "Não sou a parente mais próxima da vítima. Você é."
A compreensão surgiu em seu rosto, seguida por uma fúria pura e animalesca. Ele achou que eu estava jogando. Ele achou que eu estava tentando extorqui-lo.
"Sua desgraçada", ele rosnou, sua máscara de civilidade finalmente se quebrando por completo. Ele pegou o pesado açucareiro de cerâmica da mesa e o atirou contra a parede, onde explodiu em cem pedaços. "Você acha que pode me chantagear?"
Ele se lançou sobre mim, suas mãos alcançando meu pescoço. Mas antes que pudesse me tocar, uma pequena voz cortou a tensão.
"Papai?"
Nós dois congelamos. Léo estava na porta, seu rostinho pálido, seus olhos arregalados de medo, agarrando seu ursinho de pelúcia.
As mãos de João Carlos caíram para os lados. Ele olhou para o filho, a respiração ofegante. A raiva em seus olhos foi substituída por outra coisa — um lampejo de vergonha, talvez, ou apenas irritação por ter sido interrompido.
Ele apontou um dedo trêmulo para mim. "Isso não acabou", ele sibilou. "Você vai se arrepender disso. Eu vou destruir você."
Então ele se virou e saiu de casa, batendo a porta com tanta força que toda a estrutura tremeu.
Corri para Léo, pegando-o nos braços. Ele enterrou o rosto no meu pescoço e começou a soluçar. Eu o segurei com força, sussurrando garantias que eu mesma não sentia.
Enquanto eu embalava meu filho chorando nas ruínas da minha cozinha, um fogo frio se acendeu em meu peito. Ele queria me destruir. Ele queria uma guerra.
Tudo bem. Ele estava prestes a ter uma.