Recuei para o quarto de hóspedes no final do corredor.
Era menor, mais frio — o tipo de espaço estéril reservado para um primo distante ou um servo que você mal queria reconhecer.
Sentei-me na beirada do colchão, o silêncio da casa pressionando meus ouvidos.
Minhas mãos agarraram os lençóis duros, segurando até que meus nós dos dedos ficassem brancos.
Por oito anos, eu fui o seu santuário.
Era eu quem limpava a guerra de sua pele quando ele voltava com sangue nas mãos.
Eu era a âncora que o segurava quando os pesadelos da crueldade de seu pai o acordavam gritando no escuro.
Mas na hierarquia brutal do Sindicato, uma amante era apenas um tapa-buraco.
Uma viúva carregando um "herdeiro de sangue", no entanto? Ela era uma santa.
A porta do meu quarto se abriu com um clique.
Não levantei o olhar, presumi que era Dante vindo oferecer outro pedido de desculpas embrulhado numa caixa de veludo.
"Aconchegante", uma voz arrastou-se.
Levantei a cabeça bruscamente.
Viviane estava na porta.
Ela havia descartado o avental do hospital. Agora, estava envolta em um dos roupões de seda preta de Dante, as mangas arregaçadas para acomodar seus braços finos.
Era o roupão que eu usava nas manhãs de domingo.
"O que você quer, Viviane?", perguntei, minha voz tensa.
Ela entrou no quarto, arrastando um dedo com a unha feita pela cômoda empoeirada.
"Só queria ver onde a criadagem dorme", disse ela, exibindo a enorme esmeralda em seu dedo anelar.
O anel da Família Moraes. O anel da Dona.
"Você deveria estar de repouso", eu disse, levantando-me.
"E você deveria ser um segredo", ela rebateu, invadindo meu espaço pessoal.
"Você sabe como os homens te chamam, Estela? O colchão do Don. Confortável, descartável e fácil de substituir."
"Saia", eu disse, um tremor percorrendo minhas palavras.
"Esta casa é minha agora", ela sibilou, seus olhos se estreitando em fendas venenosas.
"Meu filho será o Rei desta cidade. E você? Você é só um cheiro ruim que ficou para trás."
Ela recuou de repente, seu calcanhar prendendo na beirada do tapete.
Mas ela não tropeçou.
Ela se jogou para trás.
Foi uma rendição calculada à gravidade, uma performance digna de um Oscar.
Ela atingiu o chão com um baque surdo e imediatamente quebrou o silêncio com um grito.
"Estela, não! Não machuque o bebê!"
A porta se abriu violentamente antes que eu pudesse sequer inspirar.
Dante entrou correndo, arma em punho, seu olhar de predador varrendo o quarto em busca de uma ameaça.
Ele viu Viviane no chão, agarrando a barriga, soluçando histericamente.
Então ele me viu, de pé sobre ela.
Ele não perguntou o que aconteceu.
Guardou a arma e cruzou a distância num piscar de olhos.
Ele me bateu contra a parede.
Minha cabeça bateu no gesso, estrelas explodindo em minha visão num clarão branco e ofuscante.
"O que você fez?", ele rugiu, cuspe voando no meu rosto.
"Eu não toquei nela!", gritei de volta, agarrando meu crânio latejante. "Ela se jogou no chão!"
"Mentirosa!", Viviane gemeu do chão, sua voz tremendo com medo ensaiado.
"Ela disse que ia matar! Ela disse que não deixaria o filho de Arthur tomar o lugar dela!"
Dante virou-se para olhá-la, a cor sumindo de seu rosto.
Ele a pegou no colo, seus movimentos frenéticos e desesperados.
"Chame o médico!", ele berrou para os guardas que pairavam no corredor.
Ele olhou de volta para mim, e pela primeira vez em oito anos, o homem que eu amava se foi.
Em seu lugar estava um estranho frio e letal.
"Se o sangue do meu irmão for derramado", ele disse, sua voz um rosnado baixo e aterrorizante, "não haverá piedade. Nem mesmo para você."
Ele a carregou para fora, deixando-me sozinha com o eco de sua ameaça.
Dez minutos depois, o médico particular do Consigliere chegou.
Fiquei na porta da Suíte Master, observando Dante andar de um lado para o outro ao lado da cama como um animal enjaulado.
"O batimento cardíaco está estável?", Dante perguntou, limpando um brilho de suor frio da testa.
"Está forte, Don Moraes", o médico o assegurou. "Mas ela precisa de silêncio absoluto. O estresse pode desencadear um descolamento."
Dante assentiu, soltando um suspiro que parecia estar segurando por uma hora.
Ele acompanhou o médico para fora e retirou-se para o banheiro para lavar o pânico do rosto.
Entrei no quarto.
Viviane abriu os olhos.
Ela me viu e sorriu — um esticar lento e predatório dos lábios que não alcançou seus olhos.
"Ele é tão fácil de manipular", ela sussurrou.
"Tudo o que você precisa fazer é mencionar 'Honra da Família' e ele para de pensar."
"Você é doente", eu respirei. "Você arriscaria seu próprio filho por isso?"
Viviane riu, um som seco e quebradiço que me irritou os nervos.
"Que filho?", ela sussurrou, seus olhos brilhando com malícia.
"Eu o droguei, Estela. Droguei o Dante há três semanas. Eu precisava de uma data que batesse."
Ela fez uma pausa, saboreando a confusão no meu rosto.
"Mas o bebê? Não é um Moraes."
Meu sangue gelou.
"Você está mentindo."
"Estou?", ela sorriu com desdém, recostando-se nos travesseiros que eu costumava afofar.
"Arthur era estéril. Por que você acha que nunca tivemos filhos? Mas Dante não sabe disso."
Seu sorriso se alargou, cruel e vitorioso.
"E a palavra de uma amante não vale nada contra a alegação de uma viúva."
Eu a encarei, o quarto girando vertiginosamente ao meu redor.
Isso era traição.
No nosso mundo, fazer um filho bastardo passar pelo herdeiro da linhagem não era apenas uma mentira; era uma sentença de morte.
"Eu vou contar a ele", eu disse, dando um passo em direção à porta do banheiro, onde a água ainda corria.
Viviane nem sequer se abalou.
"Vá em frente", ela desafiou, sua voz pingando gelo. "Conte a ele. Diga a ele que a amante ciumenta e estéril está inventando histórias para magoar a viúva enlutada. Veja em quem ele acredita."
A água parou de correr.
Um momento depois, Dante saiu, secando as mãos numa toalha branca e macia.
Ele olhou entre nós, sentindo a tensão como eletricidade estática no ar.
"Dante", eu disse, minha voz firme apesar da batida frenética no meu peito. "Você precisa me ouvir. Ela acabou de admitir que te drogou. O bebê não é seu. Não é de Arthur."
Dante congelou.
Ele olhou para Viviane.
Viviane imediatamente começou a chorar, agarrando os lençóis e puxando-os até o queixo como se estivesse nua e vulnerável.
"Viu?", ela soluçou, apontando um dedo trêmulo para mim. "Ela está fazendo de novo! Está tentando me estressar para eu ter um aborto! Está inventando mentiras absurdas porque me odeia!"
"Não é mentira!", gritei, dando um passo à frente. "Arthur era estéril! Pergunte ao médico! Verifique os registros!"
"Pare com isso!", Dante rugiu.
O som de sua voz foi como um golpe físico.
Ele se interpôs entre nós, de costas para mim, protegendo-a de uma ameaça que não existia.
"Arthur não era estéril", disse Dante, sua voz tremendo de raiva contida. "Meu irmão era um homem. Não insulte a memória dele."
"Ela está te manipulando, Dante!", agarrei seu braço.
Ele arrancou o braço do meu aperto com força suficiente para me fazer tropeçar para trás.
"Chega!", ele gritou. "Não me importo com suas teorias da conspiração, Estela. Eu me importo com a estabilidade. Eu me importo que meus homens vejam um herdeiro. Eu me importo que o Sindicato não desmorone numa guerra civil porque você não consegue lidar com seu ciúme!"
Ciúme.
Ele achava que eu estava com ciúmes.
"É isso que você acha que é?", perguntei, minha voz mal um sussurro.
"Olhe para ela", Dante gesticulou para Viviane, que tremia teatralmente. "Ela é a mãe do futuro desta família. Você vai mostrar respeito a ela."
Ele se virou para Viviane, sua voz suavizando instantaneamente.
"Me desculpe, Viv. Ela está chateada. Não vai acontecer de novo."
Viviane fungou, enxugando os olhos.
"Eu só quero estar segura, Dante. Talvez eu devesse ir embora... ir para a casa de campo..."
"Não", disse Dante com firmeza. "Você fica aqui. Onde eu posso te proteger."
Ele se virou de volta para mim.
"Nós temos um acordo", ele disse, seus olhos duros. "Assim que a criança nascer, Viviane vai para a propriedade na Sicília. Então, e somente então, poderemos falar sobre nós. Sobre casamento."
"Casamento", repeti, a palavra com gosto de cinzas.
"Eu juro", ele disse. "Apenas espere mais alguns meses. Deixe-me pagar minha dívida com Arthur."
Ele enfiou a mão no bolso e tirou um cartão de crédito preto.
"Vá à butique amanhã", ele disse, enfiando o cartão na minha mão. "Compre um vestido de noiva. Compre o que quiser. Apenas... mantenha a paz."
Olhei para o plástico preto na minha mão.
Era dinheiro.
Era um suborno para calar a boca e deixá-lo brincar de casinha com uma traidora.
Olhei para Viviane. Ela piscou para mim por trás das costas de Dante.
Algo dentro de mim se partiu.
Não foi um estalo alto. Foi o som silencioso de uma amarra se rompendo.
"Ok", eu disse suavemente.
Dante piscou, surpreso com minha súbita submissão.
"Ok?"
"Eu vou comprar um vestido", eu disse, meus dedos se apertando em torno do cartão. "Vou manter a paz."
Eu não ia deixá-lo se afogar em suas mentiras.
Eu ia deixá-lo queimar nelas.