Capítulo 2

“Os mais belos vestidos servem para ser retirados.”

Jean Cocteau

Fiquei batendo a ponta da minha caneta favorita no teclado em movimentos rítmicos e fingindo que

estava lendo o longo texto na tela do computador. Se alguém estivesse me observando com cuidado,

notaria que eu não descia a barra de rolagem há algum tempo. Mas ninguém estava me observando.

Ninguém nunca me observava.

Tirar aquele homem da cabeça tinha sido uma tarefa particularmente impossível. Eu sabia que era

só um sonho, mas não era um daqueles que vira uma névoa confusa e transparente assim que você

acorda e que, antes da hora do almoço, já desapareceu completamente sem deixar quaisquer

vestígios. Não… Não ia conseguir esquecê-lo tão cedo, de modo que acabei resolvendo aceitar que o

dia não seria produtivo.

Mirella veio até minha mesa pela terceira vez no dia pedir a mesma coisa. Não consegui evitar o

pensamento: Que inferno! Quando eu sou a pessoa mais trabalhadora dessa droga, ninguém nota.

Nenhum parabéns para Nahia. Mas é só eu ter um dia ruim e todo mundo está lá para apontar o dedo.

– Espero não estar incomodando, mas é porque realmente preciso disso pra ontem – ela sorriu

com falsidade.

– Não, de modo algum. Acho que não estou muito bem hoje.

Colin passou nos cumprimentando. Eu ia devolver o olá, mas algo no jeito que ele e Mirella

sorriram um para o outro e o modo como ele deu um beliscão carinhoso em seu braço e lhe ofereceu

uma piscadela pouco inocente me disseram que o cumprimento tinha sido muito mais para ela do que

para mim.

Mirella se virou e se foi. Se ela tinha estado preocupada com o meu bem-estar, ela certamente

escondeu a preocupação muito bem.

Joguei meu queixo na palma da mão e contei os segundos pra sexta-feira acabar. Os minutos

ficavam cada vez mais longos. Agora, não só a imagem do meu irreal visitante noturno dançava na

minha mente, afastando minha concentração, mas também sempre que Colin se aproximava da mesa

de Mirella (que, para a minha infelicidade, era estrategicamente posicionada alguns metros à minha

esquerda), eu parecia incapaz de fazer qualquer outra coisa fora observá-los. Em uma ocasião, ela

me olhou de volta e eu fingi estar particularmente interessada na primeira coisa que vi: um cinzeiro

de vidro que nunca tinha sido utilizado. Devo ter ficado instantaneamente vermelha, como era do

feitio das minhas bochechas traidoras, porque quando arrisquei uma olhada para cima, Mirella estava

me encarando com um sorriso arrogante e satisfeito, que só aparece em lábios de mulheres que sabemque têm o que outras apenas desejam.

O ponteiro dos minutos se aproximava do 12, indicando que o turno estava acabando. Como a

funcionária exemplar dentro de mim que só ia embora quando o trabalho estivesse concluído estava

dormindo profundamente, resolvi sair assim que o grande relógio azul na parede marcasse 18h.

Estando o trabalho concluído ou não.

Fechei minhas gavetas, desliguei o computador, desejei um bom fim de semana para a faxineira

Ana Maria e seu aspirador barulhento. A porta do elevador estava fechando e eu corri para alcançálo. De jeito nenhum eu ia passar meia hora esperando aquela porcaria subir de volta. Enfiei o braço

na abertura que se fechava preguiçosamente e, assim que tocaram minha pele, as portas de metal se

abriram mais uma vez.

Três colegas estavam lá dentro e me cumprimentaram com a cabeça ou com os olhos. Matt era um

garoto de estatura mediana e olhos cinza, o novato para quem todos sempre empurravam as tarefas

menos agradáveis. Todos menos eu. Mirella estava lá, em toda a imponência de seus longos cabelos

de cachos dourados e seus olhos verdes. Pendurada no ombro de Colin, ela dizia algo em voz baixa.

Virei de frente para o painel e foquei os olhos no grande T iluminado. “Ignore-os, Nahia”, disse

para mim mesma. A voz melodiosa de Mirella atrás de mim tentava ser discreta – ou fingia tentar –,

mas era perfeitamente audível ainda assim.

– Umas oito horas, pode ser?

– Pode. Claro.

– Obrigada pela carona. Eu iria sozinha, mas não tenho certeza se sei o caminho.

– Eu te pego. Não é problema algum. Além do mais, não gosto de chegar nesses lugares sozinho.

Eles riram um para o outro e eu respirei fundo.

Minha porta ia receber minha frustração mais uma vez. Claro, não era culpa dela, então me

segurei. Não era culpa de Mirella ou Colin. Não era culpa de ninguém. Era culpa minha. Todas as

minhas frustrações. A pessoa só pode se frustrar quando tem expectativas e eu tinha expectativas

demais e ações de menos.

Alinhei minhas posses no aparador e me joguei embaixo do chuveiro. A água quente escorreu pelo

meu corpo com delicadeza e eu me lembrei do toque do meu visitante. Meu amigo no sonho. Talvez

eu fosse dormir e sonhasse com ele de novo. Sim… isso seria bom.

Enxuguei meus braços e procurei um pijama confortável. Ia comer bobagens sentada no sofá

assistindo à reprise de algum seriado de comédia e dormiria lá mesmo.

Vesti o pijama e observei a mim mesma no espelho de corpo inteiro no canto do meu quarto e, de

repente, senti uma raiva imensa. Não de Colin, Vicent, Mirella, do elevador ou da minha porta. Senti

raiva de mim. Lá estava eu, vestindo pijamas confortáveis e preparada para mais uma noite de

autocomiseração.

Você tem que aprender a dizer “sim”.

Olhei determinada para o meu reflexo e arranquei o pijama. Se meus colegas de trabalho podem se

divertir sexta à noite, eu também posso.

Mordi meu lábio inferior com a excitação do momento. Vesti uma saia colada e uma blusa com um

decote profundo. Usei quase todos os itens do meu estojo de maquiagem e penteei meus longos

cabelos negros. Sorri para mim.

Okay, Nahia… Vamos lá!

***

Sentei em um banco elevado beirando o bar e comecei a me arrepender do que fiz. Não tinha

amigos do tipo que saem pra bares e vir sozinha tinha sido uma péssima ideia. Tentei me lembrar da

coragem que senti quando resolvi arrancar o pijama e do meu reflexo determinado me olhando de

volta. Mas nenhuma das duas lembranças era clara o suficiente e eu fiquei ali sentada, em silêncio,

tentando não ficar no caminho de ninguém.

O lugar estava apinhado de gente. Aparentemente tinha um jogo de basquete acontecendo e um

grupo de torcedores estava reunido ali. A partida terminou e os fãs começaram a esvaziar o local

assim que o comentarista anunciou a derrota do time da casa. Olhei ao redor, a calmaria tornou o

lugar bem mais agradável.

Dei mais um gole na taça de vinho e respirei fundo. Certo… quanto tempo ainda teria que ficar ali

até provar para mim mesma que eu podia fazer isso? Seja lá quanto tempo fosse, eu esperava que não

demorasse muito. Assim, eu poderia correr de volta para minha casa, para o meu chuveiro e a

segurança do meu edredom.

– Longo dia?

A voz não era familiar, e de início não achei que estivesse falando comigo. Levantei os olhos

despretensiosamente e quase congelei onde estava.

Ele estava ali. O homem que eu tinha visto no meu sonho. O mesmo rosto, os mesmos olhos verdes,

o mesmo cabelo loiro, o mesmo topete. Maldição. Até a camisa de basquete era a mesma.

As palavras fugiram e eu fiquei ali prendendo a respiração. Ele sorriu confuso.

– Ah…Você tá legal?

Acho que devo ter balbuciado algumas coisas sem sentindo antes de finalmente conseguir dizer:

– Não. Não. É só que… – olhei ao redor para me certificar de que ele estava realmente falando

comigo e não com alguém atrás de mim. – A gente se conhece de algum lugar? Você é muito familiar.

Ele se virou no banco elevado na minha direção.

– Isso foi uma cantada? – sorriu.

– Não! Não! – abanei as mãos na minha frente em rendição. Esperava profundamente que ele não

tivesse entendido errado. Mas uma voz lá no fundo da minha mente, uma voz que definitivamente não

era minha, recitou “E qual o problema se fosse uma cantada?”.

– Certo – ele acenou em compreensão. – Não foi uma cantada – brincou com minha negativa

enfática, antes de voltar para sua cerveja. – Uma pena.

Bebi um longo gole de vinho. Será que ouvi direito? Por acaso ele teria dito que era uma pena eu

não estar dando em cima dele?

Você tem que dizer “sim” para o homem certo.

Respirei fundo. Passei as mãos nos cabelos. Vire-se para ele, Nahia. Sorria. Puxe algum assunto

interessante. Eu repetia as informações para mim mesma como um mantra. Mais um pouco de vinho e

me virei. Não conseguia pensar em nada interessante para dizer, mas estava plenamente consciente

do sorriso estúpido que deveria estar plantado na minha cara. O sorriso estúpido que ele sequer

chegou a ver, porque acabou sua cerveja e se levantou. Vi suas costas enquanto ele caminhava em

direção ao banheiro.

Minha mente começou a argumentar comigo em uma tentativa desesperada de quebrar minha

inércia. Certo, Nahia. Ele vai voltar. E quando ele voltar você vai fazer algo louco. Vai dar em cima

dele e vai dizer sim. É! Vai fazer isso, sim. E ou vai dar certo, ou vai dar errado. E se der errado, o

que é o pior que pode acontecer?

Bem, ele pode ser um estuprador psicopata.

Ótimo! Então, ele vai te comer bem gostoso. Hã? Essa não era minha voz. Não era minha mente.

Minha consciência nunca me dizia coisas desse tipo.

O loiro na camisa de basquete estava de volta. Ia estar ao meu lado mais uma vez em poucos

segundos. Olhei para frente e tentei me recompor. Os segundos passaram e ele não chegou. Arrisquei

olhar para trás. E lá estava ele. Tinha encontrado uma mesa com duas garotas, estava sentado,

conversando e sorrindo.

A frustração tomou conta de mim mais uma vez. O que eu podia fazer agora? Passei a mão nos

cabelos e terminei minha taça de vinho. Levantei e coloquei o dinheiro em cima do balcão. Uma boa

gorjeta para o garçom e um “boa noite” atravessado.

Olhei uma última vez para a mesa com as duas mulheres. Mas elas estavam sozinhas, o homem

loiro estava de pé mais uma vez. Estava voltando para o balcão.

Eu estava de pé. Nahia! Ou você sai do bar, ou senta de volta na cadeira! Só não fique aí em pé

com essa cara de pastel e com essas bochechas explodindo. Eu queria obedecer minha consciência,

juro que queria. Mas estava parada. Meu corpo queria fugir dali, a começar pelas minhas bochechas

vermelhas e desesperadas. Mas tinha algo dentro de mim que me segurava de pé. Talvez eu pudesse

explicar para ele o meu problema.

Vai dizer o quê? A voz dele estava de volta em meus ouvidos. Sussurrando instruções e sugestões.

Estou insatisfeita e malcomida. Será que o senhor pode me ajudar? Eu queria que ele parasse de

falar, tudo aquilo não estava fazendo bem para as minhas bochechas, nem para as minhas pernas

frouxas que não paravam de tremer.

A voz voltou para mim mais como uma lembrança. E por que ele iria querer uma mulher que

precisa pedir?

Eu podia fingir que era um sonho. Na noite passada, consegui ir até ele e dizer o que eu queria, não

consegui? E por que agora não?

Não sei de onde minhas pernas tiraram coragem para se mexer, mas eu as agradeci eternamente por

isso. Dei dois passos em direção a ele, e senti minha boca tremendo. Mas havia algo novo dentro de

mim, algo forte que não ia me deixar desistir.

– Olá – ele me cumprimentou. Sua expressão era confusa mais uma vez.

– É o seguinte – eu tinha que dizer de uma vez ou não ia dizer nada. – As pessoas têm necessidades

físicas. É super comum, mas todo mundo trata como se fosse algo secreto, digno de muita discrição.

Eu inclusive. Mas e se as pessoas simplesmente dissessem exatamente o que querem dizer?

– Bem – ele se virou para mim. Estava intrigado. Minha pausa tinha sido para respirar, não para

que ele respondesse. Mas ele estava falando e eu resolvi escutar. – Quando você é um homem e é

claro com uma mulher, corre o risco de levar um tapa na cara.

Eu concordei. Fazia sentido.

– Você vai me dar um tapa? – perguntei.

– Claro que não – a surpresa da minha pergunta fez com que ele entalasse com a cerveja.

– Eu achei você um gato e estou com tesão – pronto, falei. Os quatros segundos que ele levou para

processar o que eu tinha dito foram, provavelmente, os mais longos que eu já tinha vivido até então.

– Certo… – ele tinha um sorriso de descrença estampado no rosto e balbuciou a palavra como se

estivesse reaprendendo a falar. Será que ele não tinha entendido?

– Quero dizer que se você não for comprometido e não tiver nada pra fazer agora, gostaria de ir

pra cama com você.

Se ele estivesse bebendo cerveja naquele segundo, provavelmente teria cuspido fora.

Eu não parei para pensar sobre como era louco o que eu estava fazendo. Sinceramente? Se eu

parasse para pensar, ia sair correndo e chorando de vergonha. Então, fiquei ali. Parada, esperando o

veredicto.

Ele limpou a garganta e sorriu para mim.

– Na minha casa ou na sua?

***

Ele morava a dois quarteirões do bar. Guiou o caminho com a mão na minha cintura e perguntou

meu nome. Mas como eu já estava na chuva, resolvi me molhar e falei que preferia não dizer. Ele

então abriu a porta do prédio, e disse que por ele tudo bem.

Aquilo era tão novo e estranho. A sensação de controle. Estava ali porque eu queria. Eu tinha

decidido, feito o convite e estava ali. O controle era meu e, por Deus, era gostoso. A sensação de

poder era mais orgásmica que qualquer coisa que eu já tinha experimentado, e eu me deliciei por

todo o breve percurso de elevador até o quarto andar, onde ele morava.

Ele fechou a porta atrás de nós e eu notei, pela primeira vez, como sua bunda era gostosa por baixo

do jeans surrado. Escorreguei minha mão pelo bolso traseiro dele e o puxei para mim. Entre um

sorriso e uma exclamação, ele deve ter pedido calma. Mas, ah… eu estava na casa dele, não estava?

Para ir pra cama com ele, não era? Chega de calma. Essa versão inconsequente de mim tinha

assumido a direção e ela queria aquela bundinha deliciosa em suas mãos.

– O quarto fica ali atrás – ele tinha se virado e eu tinha minha boca sobre a dele.

– Aqui já está bom.

É isso aí, meu bem. Sou eu que vou resolver onde você vai me comer. É assim que funciona agora.

Não, eu não sabia se isso ia durar. Mas eu ia aproveitar enquanto durasse. A embriagante sensação

de controle.

Ele deu de ombros e não conseguia parar de sorrir. O que passava pela cabeça dele eu podia

apenas imaginar.

Ele tirou minha roupa com pressa e eu o imitei. Estávamos nus e abraçados na sala de estar.

Minhas bochechas queriam ficar com vergonha, mas minha cabeça mandou-as calarem a boca e gritou

um sonoro “Que se dane!”. Hoje eu ia só curtir.

– Camisinha – eu instruí.

Ele se virou obediente e correu pela sala. Observei aquela bunda maravilhosa a meio caminho de

onde o quarto deveria ser; ele voltou com um monte de pacotes na mão e eu pude observar seu corpo.

Era exatamente como eu tinha visto em meu sonho. Exatamente. Menos pela cicatriz. Seu membro

masculino estava imenso e rígido.

– Está gostando da vista? – perguntou, mostrando o monte de preservativos que tinha nas mãos.

– Está muito distante – reclamei com um sorriso.

Ele se aproximou rapidamente e jogou os pacotes no chão, menos um. Eu o puxei pelos ombros e

enfiei minha língua em seus lábios e meus dedos em seus cabelos. Ele apertava minha cintura e eu

sentia a pressão contra o meu quadril.

Senti sua mão descendo pela minha barriga até atingir uma região delicada entre minhas pernas e

acariciar meus pelos. Seus dedos começaram a cavar um caminho para dentro de mim. Eu soltei sua

boca e gemi. Ele respirava apressadamente em meu ouvido e eu me arrepiava ao sentir o calor em

meu pescoço.

Larguei minhas mãos pelas suas costas até sua bunda. Apertei e acariciei até me dar por satisfeita.

Ele se afastou apenas o suficiente para cobrir seu membro com o preservativo. Eu o guiei até o sofá e

o forcei a se sentar.

Parte de mim quis deitar de costas e abrir as pernas. Muitas mulheres acham sensual ficar em cima.

Eu, particularmente, sempre preferi ficar em baixo. Deixar o homem fazer todo o trabalho, deixá-lo

imprimir seu ritmo.

Mas ali, no calor daquele momento de controle, decisões e poder… eu queria ficar por cima.

Queria marcar o meu ritmo. Queria que ele me seguisse e gozasse sob minha direção.

Ele se sentou obediente e segurou minhas coxas enquanto eu me sentava por cima dele. Senti

quando ele entrou em mim. Fui devagar, queria sentir tudo, centímetro por centímetro. Levantei o

rosto para o teto e gemi baixinho. Senti suas mãos apertando minhas coxas. Ele estava gemendo

também.

Impulsionei-me com os joelhos contra o sofá. Subindo e descendo. E subindo e descendo mais umavez. Devagar e gentilmente. E então, ele tinha as mãos na minha bunda e me puxava forçando a

velocidade. Eu aceitei de bom grado. Ele parecia saber muito bem o que estava fazendo e movia seu

quadril, enfiando-se mais fundo em meu corpo. Mais fundo. Mais fundo. Minhas pernas abertas. Suas

mãos me apertando. Sua respiração rasa. Meus gemidos cada vez mais altos. Meus seios em sua

boca. Um movimento cada vez mais rápido, cada vez mais gostoso. Um breve segundo e uma grande

explosão. Senti meu corpo tremer e falhar. Silêncio antes de um gemido alto. E eu percebi que ele

estava gozando também.

Fiquei jogada contra seu peito recuperando o ar. Respirei fundo e me desvencilhei de seu abraço.

Levantei-me sorrindo e busquei minhas roupas.

– O que está fazendo? – ele quis saber.

Eu não entendi.

– Você não vai ficar?

Dormir com um estranho nunca tinha passado pela minha cabeça. Sorri para ele e lhe ofereci uma

piscadela. Meu problema era aprender a dizer “sim”. Nunca tive problemas em dizer “não”.

Cheguei em casa destruída, mas com um sorriso nos lábios. O banho foi rápido e cansado. Acho

que dormi antes que minha cabeça batesse no travesseiro. Meus olhos estavam fechados. Minha

mente estava aberta. Em poucos minutos, meus sonhos chegariam e, com eles, meu amigo.

Capítulo 3

“O prazer é a energia que une e agrega. Quanto vale uma noite de prazer absoluto?”

Jane Austen

Assim que fechei os olhos, ele já estava lá, esperando-me. Estava diferente mais uma vez, mas eu

sabia que era ele. Era aquele cheiro delicioso de homem. Isso e a longa cicatriz vertical que ele tinha

no meio do tórax rígido e delineado.

Hoje, ele era alto e musculoso. Loiro com os olhos cor de mel e um sorriso de garoto levado.

Usava uma calça social e um cinto. Estava sem camisa e os contornos dos seus músculos me

deixavam louca só de olhar.

– Você pode tocar se quiser – convidou. – Sabe que sou todo seu.

Sorri constrangida. Era estranho ouvir um homem falar assim. Ele me devolveu um sorriso largo e

descarado.

– Quem é você? – perguntei com um sussurro, sem tirar os olhos do corpo dele.

– Eu sou desejo, Nahia. Mas pode me chamar de Amadeo, se preferir. Diga-me: como foi sua

noite, ontem?

Aproximei-me com cuidado e levantei uma das mãos em sua direção. Amadeo segurou minha mão

com delicadeza e a repousou sobre seu peito. Sua pele era macia e quente. Deslizei meus dedos até

suas costelas e fechei os olhos.

– Sim – ele murmurou em meu ouvido. – Você se divertiu muito ontem à noite, não foi? – ele

passava as mãos pela minha cintura enfiando os dedos por baixo da minha blusa, sua boca nunca

abandonava minha orelha. – E não se preocupe: nós ainda vamos nos divertir muito mais.

Ele passou a ponta da língua no meu queixo, subindo a linha da minha mandíbula até chegar na

minha orelha, que mordiscou com suavidade. Suas mãos estavam dentro da minha blusa e geravam

eletricidade onde quer que tocassem. Eu mantinha os olhos fechados, apreciando as sensações.

Era possível que ele conseguisse me fazer gozar apenas com seu toque. Mas eu não queria esperar

para ver. Queria que ele me tomasse e me possuísse como ele não tinha feito na noite anterior.

Queria ouvi-lo gemer e gozar.

E então um pensamento tomou conta de minha mente: e se eu não conseguisse? Não tinha muita

experiência, e a pouca que tinha não era muito boa. Fora, é claro, a da noite anterior. Abri os olhos e

levei minhas mãos até os seus ombros, hesitando por alguns segundos, sem saber se o afastava ou se

o trazia para ainda mais perto de mim.

– Não precisa temer sua falta de experiência – sussurrou, como se ouvisse meus pensamentos. E

algo no seu tom de voz me fez ter certeza de que ele ouvia. – Todo mundo tem que começar de algum

lugar, não é?

Eu quis sorrir. Sim… todo mundo tinha que começar de algum lugar. Mas eu não era um pouco

velha demais para começar?

– Você ainda está na metade dos vinte, Nahia – ele sorriu.

– Pare de fazer isso! – recriminei, sem conseguir esconder um sorriso. – É constrangedor.

– Eu estou aqui para te ajudar, querida. Não posso ajudar se você não for honesta. E não há nada

em você mais honesto que seus pensamentos – ele deu de ombros. – Tenho que ficar atento a eles. É

meu trabalho.

– Você fala como se fosse uma entidade independente e não apenas fruto da minha imaginação… –

não era exatamente uma pergunta. Mas também não era exatamente uma afirmação. Se ele era só um

sonho, por que parecia que era ele e não eu quem estava no controle? E se não era só um sonho, o que

seria?

Ele sorriu, misterioso, e colocou o indicador sobre os lábios, pedindo silêncio.

– Você precisa praticar – falou, ainda escondido atrás de seu indicador.

Ele fazia parecer fácil. Eu, definitivamente, não tinha em mim forças para ir até aquele bar mais

uma vez. Para dar em cima de um homem mais uma vez. Precisava experimentar outras coisas.

– Existem homens que podem te ajudar.

Demorei mais do que deveria para entender o que ele queria dizer e forcei minha personificação

no sonho a fechar a boca.

– Você quer dizer um acompanhante?

– Quero dizer um gigolô, Nahia. É uma profissão sabe?

– É ilegal! Eu poderia ser presa.

– Você ainda está morando em sua velha cidade, Nahia? Isso aqui é Amsterdã. Não é proibido

aqui. Nada é proibido aqui. Ou melhor… quase nada.

– Então, eu faço o quê? Eu vou até o Blue Light District e peço um homem?

– Você é muito tímida. Acho que buscar um gigolô no meio da rua não seria adequado. Quem sabe

um dia. Mas por hoje, eu recomendaria que você ligasse para algum serviço. Eles atendem em casa,

sabia?

Estiquei meus braços empurrando-o para longe de mim. Meu novo personal trainer para assuntos

da vida estava me desafiando. Eu sentia em seu olhar. Se alguém pudesse ouvir suas palavras,

entenderia tudo aquilo como uma simples conversa. Mas eu sentia em seu olhar que não era só isso.

Havia um brilho em seus olhos cor de mel que dizia “Vamos lá, Nahia. Jogue a timidez pra longe de

você. Arranque a dúvida do seu corpo como você arrancou aquele pijama. Olhe pra si mesma no

espelho e ouse. Ouse, Nahia”.

Eu podia não concordar com o que ele dizia, mas… Nossa! Como era bom sentir aquela segurança.

– Ah, sim! – ele sorriu de uma orelha a outra. – E para evitar constrangimentos futuros… O Blue

Light District é onde ficam os travestis, não os homens.

Meu queixo caiu um pouco.

– Mas eu achei que o Red Light…

– O Red Light é com mulheres, o Blue Light com travestis.

– Você tem certeza?

Ele sacudiu a cabeça afirmativamente de um jeito adorável.

– Bem! – bateu palmas. – Acho que devo ir agora.

Minha boca abriu mais uma vez. Eu realmente tinha que aprender a controlar essa coisa.

– Mas… Mas nós nem…

Amadeo acariciou meu queixo e sorriu para mim de um jeito proibido.

– Tudo a seu tempo, querida. Agora você deve acordar. Tem uma ligação pra fazer, não tem?

– O quê? No meio do dia? Eu não sou um animal! Não vou ligar pra um gigolô vir pra minha casa

no meio do dia!

Amadeo olhou para mim com uma apatia que contrastava enormemente com a minha indignação.

– Você deve algo a alguém? Dinheiro, favores, satisfação… Deve?

– Não, mas…

– Então, se você quiser passar o dia fodendo loucamente com um homem contratado

exclusivamente para lhe dar prazer é da conta de alguém?

– Eu sei que não, mas é que…

– Nahia, você se preocupa mais com desculpas do que com ações. Acorde e decida. Se você

quiser uma companhia durante o dia, o problema é só seu.

***

Não tinha comida na minha despensa ou geladeira que conseguisse tirar minha mente do meu

sonho.

Sim, eu podia ligar para um serviço de acompanhantes.

Sim, era uma ideia interessante, diferente e sensual.

Sim, era permitido nesse país e eu não seria presa.

Mas havia algo dentro de mim que gritava que aquilo era errado. Um tremor passou rapidamente

pelo meu corpo e eu sacudi os ombros tentando espantá-lo. Sentei à mesa da copa encarando a grande

janela que mostrava uma vista perfeita dos apartamentos do prédio vizinho. Passei as mãos nos

cabelos.

Meu apartamento era amplo com ares de flat e uma mobília minimalista. Tudo em seu devido lugar

e propriamente limpo. Sempre. Era como uma lei que mantinha meu mundo girando. Pela milésima

vez, fui até o fogão verificar se todos os botões do gás estavam desligados, e passei um pano na

bancada da pia.

Ia sentar à mesa mais uma vez e voltar a sacudir a perna compulsivamente. Mas, em vez disso, fui

calmamente até a janela. Além dela eu podia ver o apartamento dele.

Você deve estar se perguntando quem é ele. Bem, eu não sei. Ele mora no prédio ao lado. Seu

apartamento fica no mesmo nível que o meu e nossas janelas só não são conjuntas por causa de alguns

poucos metros que nos separam.

Ele parecia livre e feliz. Sempre. Gostava de observá-lo e, em mais de uma ocasião, já o tinha

pegado me observando. Acho que é um artista de algum tipo. Talvez arquiteto. Com frequência, eu o

via sentado em uma mesa daquelas de designers, trabalhando em algo. Mas hoje ele não parecia estar

em casa.

Respirei fundo e sacudi os cabelos mais uma vez. Precisava de um motivo para sair. Dar uma

volta. Certo! O que eu não tenho em casa? Leite, não tenho leite. Abri a geladeira. Droga… Tenho

leite. Mas nunca é demais. Vamos lá, Nahia, vamos comprar leite.

Peguei a bolsa e abri a porta antes que mudasse de ideia. Parado no hall, esperando o elevador,

estava Nathan. Ele tinha alguns vários anos a mais do que eu, mas tinha envelhecido muito bem. Não

sei se ele era professor de alguma coisa ou talvez advogado. De um jeito ou outro, sempre andava

muito alinhado e com muitos papéis.

– Bom dia, Nathan – cumprimentei.

– Olá, Nahia. Está linda como sempre – ofereceu uma piscadela na minha direção. Ele era

simpático. Flertava comigo sempre que nos encontrávamos. Era agradável. A porta se abriu e

entramos no elevador.

– Planos para este belo sábado? – perguntei sem realmente querer saber a resposta.

– Meu filho acabou de chegar de viagem. Ele mora nos Estados Unidos com a mãe. Quero dizer…

ele saiu de casa já faz uns anos, eu acho. Mas ainda mora do outro lado do Atlântico. Estou indo ao

aeroporto buscá-lo.

– Ah! Ótimo, Nathan. Ele já conhece a cidade?

– Veio aqui algumas vezes, mas nunca consigo levá-lo para fazer nada particularmente cultural…

Sorri.

– É o mal dessa cidade!

Disse um “até logo” já a meio caminho da calçada. A imagem do filho jovem de Nathan

procurando atividades não culturais na cidade mais louca do mundo não era uma imagem que eu

precisava no momento. Eu precisava comprar leite. Ou talvez chocolate ou outra coisa qualquer.

Precisava de um filme de Richard Gere e precisava esquecer essa loucura toda sobre gigolôs.

***

O sábado foi se esticando e eu não conseguia me concentrar no filme. Fiquei tamborilando os

dedos nos botões do controle remoto. Qual era o problema comigo?

Eu queria contratar um gigolô, não queria? Esses meus sonhos vívidos estavam me perturbando e

ficavam na minha mente o dia inteiro. Provavelmente era só o jeito que o meu subconsciente achou de

gritar comigo para que eu parasse de ser tão passiva. Mas eu queria ouvi-lo, não queria?

Ah, inferno… Se até o filho americano do Nathan conseguia se divertir nessa cidade, por que eu,

que já era residente há alguns anos, não conseguia abandonar meu preconceito?

Um movimento além da janela chamou minha atenção. Meu vizinho “arquiteto” tinha acabado de

sair do banho. Usava apenas uma toalha branca enrolada na cintura e ainda estava com o corpo

molhado. Meu coração pulou e eu me aproximei da janela, mantendo o corpo contra a parede para

evitar ser vista. Não foi muito correto da minha parte ficar espionando meu vizinho, eu sei disso. Mas

também não foi correto da parte dele sair andando pela sala só de toalha, foi?

Ele era oriental. Japonês, provavelmente. Tinha os olhos puxados e o cabelo negro extremamente

liso e arrepiado. Sei que é clichê dizer que ele devia praticar artes marciais, mas com certeza não se

mantém um corpo daquele sem praticar algum tipo de exercício físico com frequência. E ele tinha três

daquelas espadas samurais presas na parede, logo acima de um armário cheio de bonecos. Ele

também parecia colecionar revistas em quadrinho. Tinha algumas emolduradas espalhadas pela

parede. Era estranho, nunca tinha imaginado que um cara que coleciona bonecos e revistas em

quadrinho pudesse ser tão gostoso. É sério: dava pra contar os gominhos do seu abdômen, e quando

ele usou outra toalha para enxugar o cabelo molhado, dava para ver os músculos do braço se

contraindo deliciosamente. Ele tinha uma boca desenhada, um maxilar quadrado e um nariz afilado.

Ele se aproximou do que deveria ser a porta do seu quarto e tirou a toalha. Infelizmente, ela caiu

bem no segundo que ele atravessou a porta e eu não pude ver mais nada. Joguei as costas contra a

parede e encarei o meu teto. Eu estava começando a ficar molhada só de ver um homem de toalha

andando pela sua sala. Qual era o meu problema?

Certo… Vamos fazer isso! Corri até o meu computador e comecei a digitar algo como

“acompanhantes masculinos Amsterdã” e demorei poucos segundos para descobrir que o mundo é

extremamente masculino, para não dizer machista.

Todos os sites de acompanhantes disponibilizavam mulheres. E os poucos sites que mostravam

algum homem oferecendo o serviço de acompanhante eram voltados para o público gay.

Como o meu objetivo era não só aliviar minha tensão como aprender o que um homem gosta que

uma mulher faça, um acompanhante gay não me pareceu uma boa opção. Demorei mais tempo do que

imaginei até achar uma agência razoável. As fotos dos modelos eram incríveis, e um em particular

chamou toda a minha atenção. Dava para contar os gominhos do abdômen dele também e isso me

atraiu quase instantaneamente. O site dizia que ele era bissexual. Eu preferia um cara cem por cento

hétero para essa experiência em particular, mas como não havia muitas opções e eu estava com um

pouco de pressa, acabei optando pelo gominhos.

Tinha um e-mail e telefone.

E-mail era mais impessoal, telefone era mais rápido.

Respirei fundo e olhei pela janela. Meu vizinho usava uma calça comprida cinza de moletom e

estava sem camisa. Bebia algo quente de uma caneca escura. Nossos olhares se cruzaram e ele

levantou a caneca para mim em um brinde. Eu voltei a encarar a tela do computador e fingi que não

tinha visto.

Telefone será.

Disquei o número rapidamente como quem arranca um band-aid. Estava tendo muitos desses

momentos ultimamente: momentos em que, se parar para respirar, desiste do que ia fazer.

A pessoa do outro lado atendeu.

– Hallo – cumprimentou em holandês a voz feminina do outro lado da linha.

– Alô… Eu queria um homem – nahia! Eu queria um homem? Você perdeu o juízo?

Prendi minha respiração e esperei a moça do outro lado parar de rir.

– Uma cliente direta! É bem diferente das que geralmente temos por aqui. Gostei! A senhora se

interessou por alguns de nossos acompanhantes em particular?

– Ah, sim – vai, agora desembucha, sua maluca. “Quero um homem”… ai, meu Deus! – O nome no

site é Nick. Diz aqui que ele tem 27 anos, loiro, olhos claros.

– Ja, ja! O Nick, certo. Qual serviço gostaria de solicitar e quando?

– Ah… quais serviços vocês têm?

– Bem, vários! Temos a companhia para jantar, para festas comuns, festas de gala, fim de semana

de viagens. Temos também a experiência namorado, a experiência ator pornô e a experiência virgem.

Sorri. Parecia que estava pedindo delivery de comida chinesa. Ela ainda estava falando.

– E todos esses serviços podem ser acompanhados por massagem, intimidade ou ambos.

Fiquei em silêncio considerando minhas possibilidades.

– Senhora? Ainda está na linha?

– Sim! Estou! – “intimidade” quer dizer sexo? Eu não sabia. Mas como já estava tão enfiada

naquele negócio todo, achei que mais uma pergunta maluca não ia me destruir. – Quando você diz

intimidade, quer dizer “sexo”?

– Ja! Sim, senhora! Relações íntimas.

– Certo. Eu quero isso, então.

Eu tinha certeza que ela estava sorrindo do outro lado. Mas que se dane. A essa altura, eu também

já estava rindo da minha ousadia.

– Sim, senhora. O Nick para um momento íntimo. Apenas isso? Ou mais algum serviço?

Sim, eu queria arroz chop suey com o meu frango xadrez.

– Ah, coloca uma massagem também.

Dessa vez ela riu alto. Provavelmente estava achando a experiência delivery muito divertida,

também.

– E para quando será?

– Ah… Agora?

– Só um momento, senhora. Preciso ver se o Nick está disponível.

Ela me colocou em espera e eu fiquei tamborilando os dedos em qualquer superfície ao meu

alcance.

– Senhora? Está na linha?

– Sim!

– O Nick está disponível. Onde gostaria de encontrá-lo?

– Na minha casa.

– Certo. Preciso de um endereço.

Eu disse.

– Um telefone para contato pode ser este mesmo que a senhora usou?

– Sim, pode. Você precisa do meu nome?

– Não, senhora. Trabalhamos com total discrição. Não precisa dar qualquer informação que não

seja absolutamente necessária.

Gostei disso. A atendente continuou.

– O valor por hora será de 150 euros.

– Tudo bem.

– Por quantas horas gostaria de reservar o serviço?

– Não sei bem…

– É a primeira vez que usa nossos serviços, eu suponho?

– Sim, acho que já deu pra perceber – sorri e ela riu de volta.

– Posso informar o Nick que a senhora quer ser avisada a cada nova hora. Assim, a senhora

mantém o controle de quanto tempo passou e decide se quer que ele permaneça ou não. E vou deixar

o limite de tempo em aberto. Pode ser?

– Parece ótimo.

– E qual a forma de pagamento? Dinheiro, cartão…?

Minha boca tinha vontade própria e se abriu mais uma vez. Eu não era holandesa e definitivamente

não estava acostumada com essa naturalidade quando se tratava de prostituição. Na França, uma

coisa assim nunca aconteceria. Nunca. Pelo menos não de forma tão aberta e tranquila. Estava só

esperando ela me perguntar se eu queria parcelar o pagamento porque, sinceramente, era só isso que

faltava.

– Posso pagar com cartão? – não era o tipo de transação que eu queria que ficasse registrada,

mas… Eu não devia nada a ninguém. Não estava fazendo nada ilegal. E não tinha tanto dinheiro em

espécie comigo.

– Com certeza. Nick levará a máquina. Posso ajudá-la com mais alguma coisa?

– Não. Não.

– Boa tarde, então, senhora. E obrigada por escolher a Elite Escorts.

E desligou.

Eu nem respirei. Corri direto para tomar banho. Um homem maravilhoso ia bater na minha porta a

qualquer instante, e mesmo que ele estivesse sendo pago, eu ainda queria me preparar o melhor que

pudesse.

Coloquei uma roupa leve e bonita e fiquei logo sem roupa íntima. Ah, não me julgue. Eu estava

pagando por hora, não estava?

Três batidas na porta. Tentei respirar fundo, mas o ar estava passando pela minha traqueia em

etapas. Eu devia ter virado uma dose de alguma coisa para ver se parava de tremer tanto.

Calma, sugeriu uma voz lá no fundo da minha mente. Uma voz que, sem dúvida, não era minha.

Coloquei um pé atrás do outro tentando reaprender a andar e cheguei até a porta. Sabia que ele era

um profissional que trabalhava com isso e tudo o mais. Sabia que ele era gostoso. Tinha visto a foto.

Mas, por Deus… ele era muito gostoso. E, mais uma vez, era igual a figura que Amadeo tinha me

mostrado.

Tinha o cabelo loiro cuidadosamente penteado, os olhos cor de mel, um sorriso safado que

praticamente confessava aos quatro cantos do mundo que ele trabalhava dando prazer. Estava

vestindo uma camisa e uma calça social escura. Dei um sorriso satisfeito e saí do caminho,

convidando-o a entrar com um gesto. Eu ainda não conseguia dizer nada.

– Boa tarde – ele me mediu dos pés à cabeça e me olhou em um misto de surpresa e satisfação, que

fez com que eu me sentisse linda. Parte de mim pensou que talvez o grande público de gigolôs fosse

mulheres mais velhas, então talvez ele estivesse um pouco satisfeito comigo. A outra parte esbofeteou

esse pensamento, classificando-o de ridículo e me lembrando de que ele estava sendo pago para

fazer com que eu me sentisse assim.

Seja como for, foi muito bom.

Fechei a porta e olhei de volta para ele. Engoli em seco.

– É a primeira vez que faço isso – achei melhor tirar isso logo do caminho.

– Oh! Não me avisaram que era a experiência virgem, mas sem problemas – sorriu.

– Não! Não! Você entendeu errado – sorri – Já fiz isso. Nunca fiz isso – expliquei, indicando-o

com a mão.

– Ah! Entendo – Nick esticou a mão para mim e eu a toquei. – Pense em mim como o homem dos

seus sonhos. Sou o homem com quem você sonha durante a noite e que você deseja durante o dia. E

estou aqui para transformar tudo em realidade. O que você quiser, pelo tempo que quiser, eu vou

fazer. Se quiser que eu vá embora, é só pedir. Mas enquanto não pedir, eu vou cuidar de você, como

homem nenhum nunca cuidou.

Era um bom discurso. Ah, diabos, você não estava lá para ouvir. Era um discurso excelente!

Minhas pernas começaram a tremer de novo.

Vamos, Nahia, fale de uma vez.

– Eu queria aprender… a ser… melhor – escolhi as palavras com cuidado, esperando que ele

entendesse.

– Melhor em quê? – ele estava mais perto agora e começava a pentear meus cabelos para trás da

orelha. Ele tinha um cheiro bom. Não Amadeo bom, mas bom.

– Quero aprender como fazer um homem ir à loucura.

Ele sorriu:

– Com um rosto desses… – ele tocou meus lábios. – E um corpo desses… – tocou minha cintura. –

Querida, eu te garanto: os homens já vão à loucura.

Eu contive um sorriso que quase escapou, e segurei suas duas mãos.

– É sério.

– Tudo bem – Nick assentiu e me abraçou pela cintura, ainda mantendo uma distância entre nós. –

Como você quer fazer isso, então? – seu tom era doce e sensual.

– Quero que você fale comigo. Enquanto estivermos na cama. Quero que diga o que os homens

gostam e o que não gostam e se eu estou fazendo certo ou errado.

– Tudo bem, querida, mas… nem todos os homens são iguais – deu de ombros.

– A sua ficha do site diz que você é bi.

Ele sorriu intrigado.

– Sim, sou. Mas hoje, por você, eu sou completamente hétero.

Não era isso que eu queria dizer.

– Eu sei, eu sei. Mas… quero dizer, você sabe do que um homem gosta.

Ele espremeu os lábios e balançou a cabeça em afirmação.

– Pronto! – concluí. – É isso que quero que me ensine.

– Você não está pensando em virar concorrência, está? – ele sorriu brincalhão, espremendo os

olhos pra mim.

Eu levantei a mão em posição de juramento.

– Prometo que não.

– Tudo bem. Então, vamos começar vendo como você fica nua na cama.

Ele tirou meu vestido com uma agilidade incomparável, e logo eu estava nua diante dele. Nick

permaneceu vestido, observando-me.

– Você não vai tirar a roupa? – perguntei.

– Primeira lição – ele levantou o indicador. – Muitos homens gostam de olhar a mulher

inteiramente despida na sua frente – ele desceu os olhos pelo meu corpo e eu me senti

verdadeiramente nua. – Só para olhar, admirar – ele me segurava pela mão e passava os olhos em

cada centímetro do meu corpo. Eu resistia aos impulsos de me tapar. – Isso os excita – ele me puxou

para perto e me abraçou. – Ter uma mulher bela e nua sob seu controle. Alguns homens se excitam

mais vendo uma mulher nua estando vestidos do que quando se despem junto delas.

Eu mordi meu lábio trêmulo. Controle era bom, mas tinha algo no fato de ter um homem vestido me

vendo nua que era particularmente incrível.

Ele desabotoou os dois primeiros botões de sua calça, abaixou as mãos e olhou para mim

sugestivamente. Entendi o que Nick estava dizendo e imediatamente me pus a despi-lo. Ele tocou

minhas mãos.

– Faça isso devagar. Brinque com o meu corpo enquanto tira minha roupa. Despir uma pessoa não

é uma tarefa que precisa ser concluída antes da brincadeira começar – ele enfiou minhas mãos dentro

de sua camisa por entre os botões e eu comecei a sentir aquele tórax perfeito que eu tinha visto na

foto. – Despir já é parte da brincadeira.

Obedeci, e as peças de roupa dele foram caindo, uma após a outra, com calma, enquanto eu

brincava com cada novo pedaço de pele que encontrava. Passei a língua por seu tórax e os dedos por

seu abdômen. Só aquilo já tinha valido os 150 euros. Senti os braços fortes e experientes de Nick me

envolverem e me jogarem na cama.

Agora ele estava nu, também. Seu membro viril se erguia rígido no meio de suas pernas com uma

imponência avassaladora. Ele ficou de pé alguns segundos, permitindo que eu o observasse,

observando-me de volta.

– Abra as pernas – ele mandou. Meu fôlego foi embora sem deixar recado avisando quando ia

voltar. Eu obedeci, e acho que nunca me senti tão exposta na vida. Ali, em cima da cama, com as

pernas abertas. Toda a minha intimidade à mostra para um completo desconhecido que estava ali, de

pé na beira da minha cama, sem tirar os olhos de mim. Ele passou a língua nos lábios e senti minhas

coxas encharcarem.

Nick se ajoelhou na cama e continuou as instruções.

– Alguns homens preferem ver a mulher no controle. Mas é do instinto masculino buscar o poder.

Eles se sentem mais másculos e mais viris quando estão no controle. É sensual. Se um homem te

mandar fazer algo na cama e você estiver disposta a satisfazer esse homem, obedeça.

Tentei fazer uma anotação mental, mas ele me cobriu com seu corpo e minha mente parou de se

preocupar com o que quer que fosse que não envolvesse aqueles dedos suculentos passeando em

minha vagina.

Ele prendeu meu mamilo entre os dentes e o puxou para um lado e para o outro. Eu arqueei as

costas, enfiando meus seios em sua boca. Nick beijou minha barriga e passou a língua pelo meu

umbigo. Seus dedos permaneciam me bolinando, esfregando aqui, beliscando ali. Sua boca me

abandonou e eu senti seu hálito quente contra meu estômago.

– Na maior parte das vezes, apenas o corpo feminino já basta para excitar um homem. A mulher

não precisa fazer nada, só precisa deixar que o homem a toque onde quiser. Mas quando a mulher

participa mais ativamente… é aí que o homem enlouquece.

– Como? – quis saber.

– Eu quero que você agarre minha bunda, que arranhe minhas costas, que chupe minha língua e

morda meu pescoço. Quero que você brinque com meus mamilos e acaricie meu saco.

Uma coisa de cada vez, fiz tudo que ele mandou, exatamente como ele mandou. Meu corpo gritava

para mim que ia gozar e eu tentava fazê-lo esperar só mais um minuto. Nick me girou e me colocou

por cima dele. Eu estava sentada em seu pênis e ele entrava em mim como se estivéssemos dançando.– Sua vez – disse, entre as estocadas leves que ele começava a impor. – Quero que você monte emmim e rebole – ele tinha suas mãos em minha cintura e me guiava em movimentos circulares ao redor

do seu membro. – Assim… Isso… Devagar…

Segurei seus ombros e coloquei meu queixo contra seu rosto. Abri os olhos por apenas uma fração

de segundo e vi: meu vizinho estava lá. Além da janela, observando por cima de sua mesa de

designer. Ele tinha o queixo apoiado nas mãos entrelaçadas e sorria como se estivesse adorando tudoo que via.

O mais incrível foi que eu não senti qualquer vestígio de vergonha. Eu estava na minha casa, na

minha cama, com um homem que eu tinha escolhido. Se ele estava bisbilhotando, o problema era

dele. Entre não estar com vergonha do vizinho e provocar o vizinho há um abismo muito grande, eu

sei. Por isso, digo que não sei o que deu em mim quando resolvi lhe oferecer uma piscadela

indecente.

Eu vi seu queixo cair exageradamente. Eu sorri e continuei a rebolar em cima do pau de Nick.

Nunca me senti tão gostosa na vida. Nick chupava meus seios e eu mantive os olhos abertos e no meu

vizinho além da janela. Ele me devolveu a piscadela, entendeu o meu olhar como um convite e veio

se sentar mais perto para ter uma vista melhor. Deixei que ele olhasse.

Meu corpo estava gritando “Chega!”, não ia esperar mais nem um segundo. Ouvi Nick gemendo e

gemi junto. Caímos um sobre o outro. Suados e satisfeitos. Eu sorri e pedi que ele fechasse as

cortinas. Agora que o sexo tinha acabado, não ia demorar muito para minha vergonha voltar e eu não

queria ter que encarar meu vizinho quando isso acontecesse.

***

Nahia parou de falar abruptamente e eu senti meu coração na garganta. Não queria que ela parasse.

Queria que ela continuasse.

– Parece que nosso tempo acabou, doutora – ela admitiu com simplicidade. – Continuamos na

próxima semana? No mesmo horário?

– S… sim – eu disse, esperando do fundo da minha alma que não tivesse ficado muito óbvio que

estava balbuciando.

Ela pegou a bolsa, levantou-se e saiu. E eu tenho que confessar que contei os segundos para nossa

próxima sessão.

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